Diário do Alentejo

Beja: 40 anos da Associação de Defesa do Património

28 de outubro 2019 - 10:20

A Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja foi fundada a 16 de fevereiro de 1979. A sua fundação baseou-se na necessidade urgente de criar estruturas que sensibilizassem as instituições públicas, privadas e populações para a preservação do património cultural, assim como de organizar mecanismos próprios que zelassem pelo restauro e conservação do património artístico e cultural de Beja.

 

Texto Florival Baioa, historiador e presidente da adpBeja

 

Nos estatutos originais da AdpBeja constavam vários objetivos, tais como: a defesa e valorização do património cultural da região de Beja, bem como o impedimento da sua degradação; a divulgação do património cultural da região; a sensibilização da população para a importância da salvaguarda do património cultural através de iniciativas diversas; pugnar pela criação de museus diversificados e apoiar de forma critica os já existentes; colaborar com associações congéneres a nível regional, nacional e internacional; proporcionar o apoio possível às instituições já existentes que se destinassem à salvaguarda do património cultural; incentivar a criação de associações e prestar-lhes auxílio material e técnico-científico.

 

Década de 1980 … e depois Uma das primeiras iniciativas da AdpBeja foi, em 1983, a promoção de um debate sobre o “Plano de salvaguarda do núcleo histórico de Beja”, plano esse que envolveu estudiosos e técnicos de diversas áreas (arquitetura, história, engenharia, arqueologia…). Este foi o passo mais lógico a tomar dada a natureza da AdpBeja. No ano seguinte foi feita a 1.ª exposição sobre o “Património de Beja”, onde a população pôde entrar em contacto com o importante espólio artístico e arqueológico da cidade. Realizou-se ainda uma visita guiada a Mértola e promoveu-se o projeto “Reconstruir Beja Antiga”, que tinha como objetivo principal a reconstituição gráfica da antiga cidade através de fotos e gravuras da época.

 

Em 1985 revitalizou-se a Festa das Maias, uma tradição com mais de 2000 anos, que tinha entretanto caído um pouco no esquecimento. Até 1987 realizaram-se concursos anuais para a seleção das melhores “maias” e “aios” que participavam na festa. Em 1986 a AdpBeja organizou a exposição “As olarias de Beringel”, uma arte em vias de desaparecer e que a AdpBeja tentou recuperar, criando a Oficina de Barro, com o mestre Isaclino, onde os mais novos poderiam aprender a arte de trabalhar o barro.

1986 foi um ano importante para AdpBeja. Foi realizado nesse ano o 1.º Encontro de Arqueologia da Região de Beja, uma iniciativa que visava fazer o ponto da situação acerca da arqueologia e da investigação arqueológica na região e traçar os vetores sobre os quais se deveria orientara investigação arqueológica e qual o papel das associações de defesa do património nesta área. 1986 foi também o primeiro ano em que se realizou o campo internacional de arqueologia na villa de Pisões e o primeiro concurso de cantares alentejanos. A AdpBeja promoveu também nesse ano o 1.º Encontro sobre a Política de Reabilitação Arquitetónica e Urbanística de Beja. Implementou-se também um projeto inicial para aumentar o espólio do Museu Regional com achados provenientes do acompanhamento de obras efetuadas no centro histórico da cidade.


Em 1986 a AdpBeja recebeu o Diploma de Mérito do Governo Civil do Distrito de Beja e Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Beja pelos serviços prestados à cidade e à sua população. As Maias e o Concurso de Cantares Alentejanos prolongaram-se anualmente até ao final da década. Em 1987 a AdpBeja promoveu o 1.º Encontro de Professores de História da Zona Sul, com o lema “Investigação histórica é possível e desejada”. Nesse ano realizou-se uma mostra de doçaria regional que seria a antecâmara para uma série de mostras de doçaria conventual que realizar-se-iam nos anos vindouros. Até 1990 destaque ainda para a realização de uma cavalgada histórica (Cavalhada), em 1988, bem como a continuidade da Festa das Maias, do Concurso de Cantares Alentejanos e as Mostras de Doçaria Conventual.

 

Nos anos que decorreram até aos nossos dias a AdpBeja tem tido uma vida associativa normal com as atividades decorrentes no âmbito patrimonial, à exceção de um curto período do início do século XXI, com falhas ao nível dos recursos materiais e humanos. Nos anos seguintes alicerçou o seu papel local e regional, criando várias parcerias com instituições, para desenvolvimento geográfico e temático, onde se inclui o património natural. De entre os parceiros contam-se o Ministério da Cultura – Delegação Regional da Cultura do Alentejo, Câmara Municipal de Beja, União das Juntas de Freguesia da cidade de Beja, Museu Regional de Beja, EDIA, Nerbe – Núcleo Empresarial da Região de Beja, ACOS – Associação de Agricultores do Sul|Ovibeja, Beja Polis, IEFP, agrupamentos escolares 1 e 2 de Beja, IPBeja, empresas como a Delta Cafés, Caixa Agrícola, CGD, Somincor e outras Igualmente nesta história podem contar-se com as parcerias para apoio a estágios escolares e profissionais como a Escola D. Manuel I, de Beja, a Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, a Universidade de Évora, o Instituto Politécnico de Portalegre e o Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), nas áreas do património e história, turismo e marketing.

 

Os convites para integrar comissões de estudo e acompanhamento têm sido contínuos, quer para os trabalhos arqueológicos de Alqueva, até ao Conselho Geral do IPBeja, onde tem assento o presidente da direção da AdpBeja. O conjunto de atividades e de intervenção que esta associação tem organizado tem tido na comunicação social uma enorme relevância, em todos os canais de televisão (RTP, SIC, TVI e CMTV), e nos jornais nacionais, entre eles o “Correio da Manhã”, “Público”, “Expresso”, “Diário de Notícias” e “Jornal de Notícias”, assim como em todas as rádios, no “Diário do Alentejo” e nas redes sociais, onde mantém uma página e Facebook, realçando-se um vídeo que atingiu um milhão e duzentas mil pessoas.

 

Tem sido corrente a sua participação na Ovibeja, sempre a convite da ACOS, quer no lançamento de publicações, conferências e exposições, diversificando públicos e âmbito geográfico. O mesmo tem acontecido com iniciativas camarárias, de caráter distrital, em que contribuímos para a sensibilização da preservação e valorização do nosso património ou analisamos pontos fortes de desenvolvimento sustentado ao nível local e regional.

 

É difícil descrever todo o tipo de atividades da associação, mas de entre elas poderão constatar um curso de Educação Patrimonial a pedido de autarquia local e vários outros direcionados para os operadores turísticos, forças de segurança e outros públicos ligados ao turismo em parceria com o Turismo do Alentejo e Ribatejo. Paralelamente aos cursos, e durante todo o ano, são feitas dezenas de visitas guiadas para toda a comunidade escolar, professores e alunos, quer por iniciativa própria, quer em parceria com as uniões de freguesia. Um exemplo deste trabalho ter-se-á verificado com a iniciativa das mostras de doçaria, conventual e tradicional, após a verificação de que a maior parte das pastelarias e serviços de restauração não incluía quase nenhuma das iguarias confecionadas pelas freiras dos conventos da Conceição e Santa Clara, de Beja. Hoje Beja oferece doçaria conventual de enorme qualidade, com criação de empresas do ramo e a oferta turística aumentou com mais esta oferta gastronómica Outra iniciativa à qual a AdpBeja foi hospedeira teve uma enorme visibilidade comunicacional e trouxe até ela o carinho e uma visibilidade nacional e posteriormente internacional, o movimento Beja Merece, que constou da contestação ao abandono de investimentos público que esta região tem sofrido, nomeadamente, nas acessibilidades. Tudo se iniciou em 2010, sendo mais tarde retomado em 2017,com o Beja Merece +.

 

Os últimos quatro anos Impul-sionada pelo financiamento do Projeto Arte Azulejar em 2014, que incluiu a Festa do Azulejo e a edição do Livro Arte Azulejar de Beja, a AdpBeja ganhou uma nova dinâmica tendo dado continuação a uma série de atividades nos anos seguintes. Em 2015 a AdpBeja realizou a 1.ª Festa do Azulejo de Beja, em parceria com o projeto SOS Azulejo do Museu da Polícia Judiciária, sendo Beja a primeira cidade do País a dar o devido destaque à sensibilização da comunidade para a temática da proteção e promoção do património azulejar português.

 

Sendo Beja a única cidade do País com mais de cinco séculos de azulejaria in situs, tinha toda a lógica a AdpBeja apostar na realização desta festividade. A Festa do Azulejo é organizada em conjunto com todas as escolas da cidade e a temática do azulejo é inserida no plano curricular, sendo a exposição do trabalho final dos mais de 3000 alunos participantes o culminar de uma atividade que envolve mais de 200 professores, e que tem o seu auge nos três dias em que decorre a Festa do Azulejo.

 

A praça de República acolhe os milhares de alunos participantes, são promovidas visitas guiadas ao património da cidade, realizam-se oficinas de pintura de azulejos, desfiles de trajes, danças, concertos e concursos de fotografia. A Festa do Azulejo de Beja tem sido promovida por todos os meios de comunicação social, sendo uma mais-valia para a cidade. Nos media tradicionais e nas redes sociais estima-se que o alcance da iniciativa seja de mais de 1 000 000 pessoas anualmente.

Em 2015 a AdpBeja começou também uma linha editorial com a edição dos livros Arte Azulejar de Beja e Beja: 100 anos de imagens, bem como a impressão de 25 000 “Rotas do Azulejo” (um pequeno guia editado em seis idiomas). Em 2016 deu-se início ao ciclo Conferências de Beja. Em parceria com a Câmara Municipal de Beja, foram realizadas quatro conferências sobre vários temas. A saber: “Guerra da Restauração no Baixo Alentejo” (abril de 2016), “As Invasões Francesas (1807- -1812). Uma Visão de Conjunto” (junho de 2016); “Beja e a Maçonaria (1874-1935)” (outubro de 2016) e “As Cloacas Romanas de Pax Ivlia” (novembro de 2016) Foram oradores a doutora Maria Emília Borges, o doutor António Ventura (FLUL|Prémio de História Moderna e Contemporânea de Portugal 2014) e o arqueólogo Miguel Serra. Realizou-se também neste ano a 1.ª Maratona Fotográfica de Beja, um concurso de fotografia aberto ao público interessado e que resulta numa exposição de fotografias.

 

De 2015 a 2018 têm sido festejadas as Maias, uma tradição milenar que a AdpBeja procura preservar, numa festa dirigida às famílias e onde participam dezenas de crianças. Uma festa que anima a zona central da cidade durante uma manhã do mês de maio e que traz centenas de pessoas à rua numa celebração pagã da primavera. Em 2017 a AdpBeja começou o ano com a realização de um concerto solidário para o restauro do forno da Ti Bia Gadelha. Este edifício foi doado à associação pelos seus proprietários devido ao elevado grau de degradação em que se encontrava, e com a promessa de que seria recuperado e devolvido à sua forma original, ficando disponível para toda a população.  Com a ajuda da Junta de Freguesia de Santiago Maior e São João Batista, a AdpBeja procedeu ao restauro desta infraestrutura, um forno comunitário centenário, e planeia reconstruir um edifício anexo para a instalação de um museu e centro de monitorização do pão.


Pela primeira vez restaura-se um edifício comunitário, à forma e à função, numa área do património construído popular, com uma função de dar a conhecer tipologias alimentares baseadas no trigo mourisco e a poder ser utilizado pela comunidade. As parcerias são integrais, contando com a Escola Superior Agrária na plantação do trigo, no moinho do Enforcado para a moagem, com a indústria da panificação nas aprendizagens, a Federação de Agricultores do Baixo Alentejo e outras instituições, todos num mesmo projeto. Em 2017 a AdpBeja editou o livro de banda desenhado A Fantástica História da Recuperação do Velho Forno Comunitário de Beja, da autoria de Cristina Matos, uma aluna do curso de Arte e Multimédia do Instituto Politécnico de Beja. No seguimento do ciclo Conferências de Beja, iniciado em 2016, a AdpBeja, em parceria com a Câmara Municipal de Beja e a EDIA, tem dado continuidade a este ciclo, alargando as temáticas e o número de conferências.

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