Diário do Alentejo

Beja: Diretor do Museu Botânico publica livro sobre plantas

17 de outubro 2019 - 12:20

As Plantas e os Portugueses: Património, Tradição e Cultura, um livro de Luís Mendonça de Carvalho, biólogo, professor no Instituto Politécnico de Beja e fundador do seu museu botânico, constitui um ensaio que pretende elucidar sobre a história da botânica e os aspetos culturais que resultaram da interação entre pessoas e plantas, no nosso país.

 

Texto José Serrano

 

Assim que transpomos a porta que dá acesso ao Museu Botânico da Escola Superior Agrária de Beja somos envolvidos por uma profusão de aromas, exalados de um conjunto de plantas que ali se encontram em exibição para “Uma viagem sensorial”.  Quem nos recebe à entrada é Luís Mendonça de Carvalho, biólogo, professor adjunto no Instituto Politécnico de Beja e fundador deste que se constituiu, em 2002, como o primeiro museu português dedicado ao estudo da etnobotânica, ciência que estuda as distintas relações que as culturas humanas desenvolvem com as plantas.

Este centro de ciência é o local ideal para contextualizar a conversa com o curador do museu e autor do livro As Plantas e os Portugueses: Património, Tradição e Cultura, editado em setembro pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que apresenta tradições culturais portuguesas ligadas às plantas. “O livro é um ensaio sobre aspetos, fundamentalmente, culturais, que resultam da interação entre pessoas e plantas, no nosso país. É como se fosse um museu contendo informação relativamente curta sobre muita coisa, ou o voo de uma ave que vai sobrevoando o território, observando as tradições ligadas à flora, em determinadas regiões, num determinado tempo. O objetivo não é oracular mas, especialmente, tentar, de uma maneira muito simples, criar nas pessoas o desejo de saber mais sobre botânica, especialmente a botânica da interação entre pessoas e plantas”, elucida Luís Mendonça de Carvalho acerca deste seu trabalho.


Um livro que abre, na sua introdução, com a referência ao episódio da “Criança do Lapedo”, cujo esqueleto encontrado, em 1998, no local conhecido como Abrigo do Lagar Velho, perto de Leiria, representa, no nosso país, “a mais importante descoberta do Paleolítico Superior”. Quem procedeu ao enterramento da criança, há cerca de 25 mil anos, teve o cuidado de a colocar sobre folhas carbonizadas de pinheiro-silvestre: “Embora trágico, este é um dos primeiros exemplos do uso cultural das plantas, nos alvores da presença humana em Portugal”.

 

Ainda na introdução, o livro faz referência à origem dos medicamentos: “Em Portugal, como em todas as sociedades rurais, foi nas plantas que se encontrou, durante séculos, a cura ou o alívio para as doenças, e algumas regiões do nosso país tinham mesmo espécies conhecidas a nível nacional como o hipericão-do-geres. Outros territórios adotaram espécies exóticas como a lúcia-lima, originária da América do Sul e muito comum em quintais e hortas do Alentejo e Algarve”.
A superior importância histórica dos carvalhos, que, pelo seu porte e madeira resistente, se constituíam como árvores de excecional valor material e simbólico, também é assinalada, fazendo a obra referência ao seu domínio nos ecossistemas florestais do nosso território, antes da intervenção humana, e à perda da sua predominância, com a paulatina necessidade de madeira e de terrenos para a agricultura e pastorícia a determinar o abate progressivo destas árvores.

 

O declínio do montado na região do Alentejo também é referido: “Durante a década de 1930, o montado alentejano sofreu uma devastadora pressão humana, quando o Estado Novo decidiu empreender a campanha do trigo, que pretendia, através de um conjunto de regulamentos e subsídios estatais, promover a autossuficiência nacional deste cereal. Esta iniciativa governamental foi determinante para a transformação de uma grande área de montado, bosques e matos em extensas searas, que acabou por destruir o habitat necessário à sobrevivência de varias espécies, como por exemplo o lince ibérico (Lynx pardinus)”.

Após a introdução que incide sobre vários outros tópicos como “Proteção da natureza” ou “Floras de Portugal”, o livro divide-se em dois grandes capítulos. O primeiro intitula-se “Cultura imaterial” e inclui tradições, festas, lendas, música e “outros elementos abstratos partilhados por uma comunidade”. O segundo, “Cultura material”, do qual fazem parte múltiplos artefactos que constituem, segundo o autor, “símbolos regionais que unem sociedades contemporâneas a outras já desaparecidas, que tinham necessidade e valores distintos dos nossos”.

 

A atual interação cultural entre o Homem e as plantas

Luís Mendonça de Carvalho considera que a interação cultural entre o Homem e a natureza tem vindo a abrandar, o que não significa, diz, que a perda desse fulgor “seja total ou que não possa reinventar-se em novas formas, igualmente equilibradas, de relação”. Aludindo ao artesanato do Alentejo, refere: “As dedeiras feitas de cana, que protegiam os dedos dos trabalhadores na ceifa, o cocharro, o tarro, tudo esses objetos eram respostas materiais a um mundo que já não existe. Esses objetos, que são símbolos culturais de uma região, poder-se-ão manter se passarem por uma reconversão, uma nova dimensão de valorização, porque os artesãos têm de ter compensação financeira”. E acrescenta: “Uma parte do artesanato português referenciado há 30 anos, hoje, já não existe”, e dá como exemplo, as bonecas de juta de Martim Longo (Alcoutim), que retratavam figuras da aldeia e os seus ofícios.

 

“O desaparecimento de tradições é uma constante da evolução humana, muitas delas morrem porque as pessoas saem do ‘campo’, os sítios deixam de ter crianças”, diz. Acrescenta contudo que esta sua obra não é um exercício de nostalgia, “porque o passado, simultâneo com a tuberculose, com a fome crónica, não foi dourado. Morrer com uma infeção respiratória ou outra, hoje facilmente tratáveis, não tem nada a ver com algo muito entusiasmante. Agora é um melhor momento para se viver”.

Apresentam-se, a seguir, alguns dos subtítulos pertencentes a um e a outro capítulo.

 

Símbolos nacionais

Data de 1911, em plena Primeira República, o decreto que regulamenta a legislação portuguesa no que concerne às insígnias nacionais, o qual faz referência a ramos de loureiro: “Nos sellos, moedas e mais emblemas officiaes, a esfera armilar será sempre rodeada pelas duas vergônteas de louro, com as hastes ligadas por um laço (…) ”. Já o cravo, um símbolo de casamento nos Países Baixos, durante o Renascimento, de Cristo e amor maternal, na arte cristã, ficará para sempre ligado à Revolução de Abril, também conhecida pela Revolução dos Cravos. Mais recentemente, em 2011, a Assembleia da República deliberou “instituir o sobreiro como árvore nacional de Portugal”, pelo seu valor simbólico, histórico, ecológico e económico.

 

Simbologia religiosa

Na arte sacra, a representação simbólica de plantas pode ser facilmente encontrada em igrejas e museus portugueses. No entanto, a simbologia de uma mesma planta deve ser interpretada à luz de diferentes códigos, podendo a sua presença adquirir diferentes significados: “Veja-se, por exemplo, a maçã, que simboliza o Pecado, se estiver nas mãos de Adão ou de Eva; ou a Redenção, se for oferecida a Jesus e por Ele aceite”. Outro exemplo desta simbologia religiosa é a data do calendário litúrgico conhecida como Quinta-Feira da Ascensão, que ocorre 40 dias após a Páscoa e celebra a ascensão de Jesus ao Céu. Neste dia, também conhecido como Dia da Espiga, em que 30 municípios portugueses comemoram anualmente o seu feriado municipal, tal como Beja, Alvito e Vidigueira, vai-se ao campo, no auge da primavera, colher a “espiga”. Um ramo constituído “por espigas de trigo, ramos de oliveira, alecrim, papoilas, malmequeres brancos e amarelos que simbolizam, respetivamente, o pão, a paz, o azeite, a saúde, o amor, a prata e o ouro, que se guardará até ao ano seguinte, na cozinha, na sala, atrás de uma porta ou junto ao oratório”.  O autor refere ainda que o Dia da Espiga ainda é considerado, em algumas regiões de Portugal, como o mais “santo do ano”, aquele a partir do qual as plantas têm mais virtudes, ou seja, maior poder.

 

Festas e romarias

No início do mês de maio comemora-se a Festa das Maias em várias localidades do País. “No Alentejo, as maias são jovens vestidas de branco, com rosa vestidas às vestes, coroadas com grinaldas de flores que sentadas em tronos públicos, esperam uma dádiva dos transeuntes”. Uma tradição milenar comemorativa da primavera e que em Beja foi revitalizada, desde 1985, pela Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja.

 

Lendas

“As lendas, fecundíssimo património da memória coletiva dos portugueses, têm nas plantas um elemento importante das suas narrativas”, escreve Luís Mendonça de Carvalho, referindo como um dos exemplos a lenda das Amendoeiras, que conta a história de uma princesa que, do norte da Europa, veio para Silves, à data capital do Algarve, para se casar com um rei Mouro: “(…) Mas a jovem foi tomada pela melancolia e saudade da sua antiga pátria, coberta de neve. Então o monarca ordenou que, em todo o reino do Algarve, se fizessem plantações de amendoeiras para que, no princípio da primavera, os campos se cobrissem de branco, evocando a terra natal da jovem rainha, que, ao vê-los, se encheu de alegria”.

 

Cante

O cante alentejano é um dos exemplos, no livro apresentados, de formas de expressão musical portuguesas que “aludem frequentemente à natureza, ao mundo rural e às plantas”, como nestes versos de uma moda tradicional: “Fui colher uma romã/Estava madura no ramo/Fui encontrar no jardim/Aquela mulher que eu amo”.

 

Bordados de castanho

Embora o cultivo de castanheiros, em Marvão, Portalegre, seja secular, a origem dos bordados de castanho remonta ao início do seculo XX. O bordado inicia-se transferindo para o tecido de linho o desenho pretendido. As cascas das castanhas são humedecidas e posteriormente cortadas com a forma de pétalas e folhas. Depois, são cozidas ao linho, procurando fazer-se um contraste entre a parte exterior e interior da casca, com diferentes tons de castanho.

 

Artefactos de cortiça
No Alentejo, os mais representativos objetos tradicionais de cortiça são o tarro, recipiente que servia para conservar a temperatura das refeições que se consumiam no campo, e o cocharro, colher com a qual se bebia água, a das fontes e também a dos cântaros transportados pelos aguadeiros que serviam os trabalhadores rurais durante as várias atividades agrícolas.

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