Diário do Alentejo

Serpa: Vale Mortos acolheu refugiados espanhóis

09 de julho 2019 - 16:30
Infografia: Luís ForteInfografia: Luís Forte

Não se conhece com exatidão o número de refugiados republicanos espanhóis em Portugal, fugidos dos fascistas de Franco, durante a Guerra Civil de Espanha. Mas sabe-se que os refugiados entraram ao longo de toda a fronteira, de Caminha a Vila Real de Santo António. Há estudos sobre os casos de Barrancos e Elvas, por exemplo, no Alentejo. Sabe-se agora que, também em Vales Mortos, uma aldeia na serra de Serpa, se refugiaram democratas espanhóis.

 

Texto Carlos Lopes Pereira

Fotos José Ferrolho

 

Manuel Elisiário já não conheceu esses tempos. Mas lembra-se dos mais velhos contarem que, durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939), se refugiaram ali, em Vales Mortos, na serra de Serpa, republicanos perseguidos pelos franquistas. “Quem os escondia era o sr. Garcias, da fábrica”, que “os militares espanhóis, às vezes acompanhados de soldados marroquinos, vinham cá à procura deles”, conta este natural de Vales Mortos, ali residente, referindo-se a um dos responsáveis da antiga moagem, agora em ruínas.

 

A escolha de Vales Mortos não é de estranhar, explica, já que a aldeia, “perdida” na serra de Serpa, situa-se a apenas uma dezena de quilómetros da fronteira, demarcada pelo Chança, como acontece desde Vila Verde de Ficalho até ao Pomarão. Do lado da Andaluzia, as localidades mais próximas são Paymogo e Santa Bárbara de Casa. Ainda hoje têm casa em Vales Mortos descendentes de uma família de republicanos espanhóis que, perseguidos pelos franquistas, “que os queriam fuzilar”, escaparam de Paymogo e refugiaram-se em Vila Nova de São Bento e em Vale Covo, nos concelhos de Serpa e Mértola. Mais tarde, uma rapariga dessa família casou-se com um rapaz de Vales Mortos, Francisco Ideias, cujos familiares continuam a manter laços com a terra.

Investigadores portugueses têm estudado, nos últimos anos, casos dos refugiados republicanos espanhóis que vieram para Portugal entre 1936 e 1939 para escapar à repressão e perseguição dos franquistas.

O golpe militar de 18 de julho de 1936, dos fascistas, contra o governo constitucional espanhol, e a guerra civil que se seguiu – com a vitória de Franco, que contou com apoios de Hitler e de Mussolini, sendo bem conhecidos os crimes cometidos pelos “nacionalistas” – provocaram um “êxodo de uma magnitude e alcance sem precedentes na história de Espanha”, segundo historiadores do país vizinho, citados por Dulce Simões.


É muito difícil calcular o número de refugiados, republicanos na sua maioria, que entraram em Portugal pela fronteira terrestre, desde Caminha até Vila Real de Santo António, quer pela natureza clandestina dessas fugas, quer pelo facto de Salazar ter apoiado incondicionalmente os golpistas espanhóis, não havendo por isso, sobre o assunto, muita documentação fidedigna nos arquivos.  Note-se, só a título de exemplo, que os relatórios policiais e alguma imprensa da época utilizavam para designar os refugiados espanhóis diferentes termos, como “foragidos”, “emigrados”, “marxistas”, “comunistas”, “exilados”, “indocumentados” e “vermelhos espanhóis”.

Dulce Simões, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Faculdade Nova de Lisboa, estudou em pormenor o caso dos refugiados em Barrancos, em setembro de 1936. Na herdade da Coitadinha, atual Parque de Natureza de Noudar, da EDIA, e na herdade das Russianas, transformadas em campos de refugiados, os barranquenhos acolheram mais de um milhar de republicanos espanhóis, protegeram-nos, mostraram-se solidários com eles e conseguiram, com a ajuda do tenente António Augusto Seixas, da Guarda Fiscal de Safara, garantir a sua evacuação para Lisboa, donde foram depois transportados para a Catalunha.


O caso dos refugiados espanhóis em Elvas, durante a Guerra Civil, também foi estudado recentemente, com resultados publicados na dissertação de mestrado apresentada por Moisés Lopes, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre as conclusões, o historiador confirma o apoio do fascismo português aos franquistas; o reforço pelas autoridades salazaristas da vigilância nas fronteiras; o receio do salazarismo da “propagação” das “ideias comunistas e socialistas” por parte dos refugiados republicanos, cuja circulação foi proibida; e a perseguição, pelas autoridades, dos refugiados políticos, “vistos como criminosos políticos”, muitos dos quais foram expulsos, ou seja, entregues aos franquistas.

 

Uma outra conclusão interessante dos estudos realizados é a de que, apesar da repressão salazarista, muitos refugiados republicanos espanhóis conseguiram obter no Alentejo e em todo o País apoio solidário e seguro das populações, em especial dos antifascistas portugueses.

 

Aldeia Nova da Serra

Voltando a Vales Mortos: ninguém sabe ao certo como surgiu o nome, talvez uma referência à pouca atividade agrícola da zona na altura do nascimento do povoado, provavelmente, na segunda metade do século XIX.  “Esteve para ser Aldeia Nova da Serra, mas o nome não pegou”, segundo Manuel Elisiário. Para quem, saudosista, “Vales Mortos já não é/ O mesmo que foi um dia/ Havia nove tabernas/ bebedeiras e alegria”…

 

Situado à beira da estrada nacional que liga Serpa, Mina de São Domingos e Mértola, a uma vintena de quilómetros da sede do concelho, o lugarejo pertence à Freguesia de Salvador, integrada agora na União de Freguesias de Salvador e Santa Maria. Tem perdido população e nele residem, em permanência, cerca de duas centenas de moradores. Outras pessoas possuem ali as suas casas, mas trabalham fora e vivem na aldeia sazonalmente, embora se note que, nos últimos anos, alguns reformados regressaram de vez à terra natal. Agricultura, apicultura e pecuária são as principais atividades económicas da população, existindo uma série de montes à volta de Vales Mortos. No povoado há algum comércio – lojas, cafés, mercearias –, uma padaria, uma queijaria, pequenas indústrias (materiais de construção, carpintaria, rações), oficinas de reparação de automóveis, tratores e maquinaria agrícola.

 

Com o abastecimento de água e o saneamento básico resolvidos e as principais ruas asfaltadas desde o início dos anos Noventa, Vales Mortos tem um centro cultural, onde está instalada a sociedade recreativa local e se fazem as festas locais. Já houve equipa de futebol mas agora faltam jovens que fiquem na terra. Há o pré-escolar e a escola do 1.º ciclo do ensino básico e, na área da saúde, uma extensão do Centro de Saúde de Serpa (com visita regular, duas vezes por semana, de uma equipa formada por médica, enfermeira e funcionária administrativa). Existem ainda outros equipamentos coletivos, como um pequeno jardim e um parque infantil.

Entre os trabalhadores reformados que regressaram à terra natal e residem em permanência em Vales Mortos está Manuel Elisiário, de rijas 74 primaveras. Abalou para a Grande Lisboa no começo da década de Sessenta do século passado, com 16 ou 17 anos, tinha já família na Cruz de Pau, no Seixal, “ali chegámos a viver cinco num quarto”. Começou a trabalhar na capital, nas obras, como servente, “éramos quase 20 a atravessar o Tejo no cacilheiro e ir para a zona das Amoreiras”. Em 1966 vai para a tropa, faz a recruta em Beja e, após algum tempo na Póvoa do Varzim, na “especialidade” de cozinheiro, é mobilizado para Moçambique, onde fica 26 meses. A guerra passa-lhe ao lado, já que permanece em Lourenço Marques, na Polícia Militar, sempre como cozinheiro.

 

Regressado a Portugal, vai trabalhar, em 1969, para a Siderurgia Nacional, em Paio Pires, primeiro como paquete, depois como operário, serralheiro mecânico, ali permanecendo 30 anos. Casa-se, entretanto, como uma moça de Vales Mortos, vai viver para a Amora. O casal tem um filho e uma filha, que vivem na Margem Sul.
Reforma-se em 2000, mantém uma casa no Seixal, há poucos anos regressou definitivamente à sua terra alentejana.

 

A serra na literatura

A serra de Serpa entrou na literatura portuguesa pela pena de Francisco Melo Breyner (1837-1903), Conde de Ficalho, companheiro de Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e outros literatos do grupo dos “Vencidos da Vida”.  Entre os muitos e diversificados escritos da sua autoria, o Conde de Ficalho publicou em 1888 um conto, “A caçada do malhadeiro”, com uma estória que se desenrola no início do século XIX, durante as invasões napoleónicas.

 

Oito soldados franceses, fugindo em direção a Espanha, perdem-se na serra e chegam a uma malhada, onde exigem comida e vinho aos pobres moradores. Depois, bêbados, agridem e amarram o malhadeiro e o filho, violam as duas filhas e fogem. Libertados, o velho malhadeiro e o rapaz, ambos bons atiradores, pegam nas suas espingardas, perseguem os franceses por ásperos vales, cerros e barrancos, “como se a gente andasse à busca de um javardo ou de um veado”, e abatem-nos um a um.

 

Já nos nossos dias, João Mário Caldeira, excelente prosador alentejano, profundo conhecedor da Margem Esquerda do Guadiana, editou em 2004 o romance Quase só a voz do vento. Conta a história de uma família que migrou de uma ponta do concelho de Mértola para as “agruras” da serra de Serpa após a partilha desta em cinco mil lotes, no começo do século XX, que foram distribuídos por igual número de casais serpenses, “muitos dos quais foram obrigados a vendê-los por não poderem agricultá-los”.

 

No romance, “transparece a alienação tardia de um baldio público, a migração para o local de pequenos agricultores sedentos de terra, as relações de vizinhança, de afectividade e de amor entre os residentes, a crendice de muitos, a malevolência de alguns, as perturbações de outros, a instabilidade ocorrida nos primeiros tempos da República, a dualidade entre os da serra e os da planície…”.

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