Diário do Alentejo

Biografia assinala 80 anos do arqueólogo Cláudio Torres

29 de maio 2019 - 16:15
Cláudio Torres fotografado em maio de 2019 | Foto de António CunhaCláudio Torres fotografado em maio de 2019 | Foto de António Cunha

Texto Eduardo M. Raposo

 

“Desde que me conheço, há duas figuras que tenho como referências fundamentais éticas, estéticas e filosóficas: José Afonso e Cláudio Torres”. Foi desta forma que Eduardo M. Raposo justificou a edição da biografia do arqueólogo Cláudio Torres, agora apresentada no Centro Arqueológico Islâmico de Mértola. Intitulado Uma Vida com História: Cláudio Torres, o livro começou a ser pensado há 12 anos, em Badajoz, está estruturado em três parte e tem como base as conversas/entrevistas ao biografado, mas também à sua mãe, já falecida, Fernanda Figueiredo, à esposa, Manuela Barros, à filha mais velha, Nádia, e ao irmão Álvaro.  Juntam-se-lhes 25 depoimentos escritos por diversas personalidades, alguns dos quais de “extraordinária riqueza, por vezes pingentes, entre eles o da irmã Paula e do sobrinho Miguel”, refere Eduardo M. Raposo, que aquando do lançamento da obra, apresentada por João Guerreiro, reitor da Universidade do Algarve, agradeceu a Cláudio Torres “a relação fraterna ao longo dos anos de realização do trabalho”.


No livro surgem 87 páginas de documentos fruto de aturada pesquisa realizada nos arquivos da PIDE/DGS na Torre do Tombo, abrangendo os períodos de 1961 a 1973. Apresenta ainda uma sólida cronologia biográfica, uma biografia de Cláudio Torres e sobre Cáudio Torres e fotos desde 1940 até ao século XXI.  O “Diário do Alentejo” publica alguns excertos da introdução do livro, selecionados por Eduardo M. Raposo.

 

Cláudio, o menino que mudou a cor do cabelo nos primeiros meses, nasceu em Tondela (1939), o Gaúlo, como é conhecido na família, fugiu de casa aos cinco ou seis anos –quando vivia com a família em Algés –, apaixonado desde sempre, e até hoje, pela BD, colecionava “O Mosquito”, que levou na bagagem quando a família voltou para Tondela, aos oito anos. Recebe a influência do avô monárquico, que adorava, e chega a usar a respetiva bandeira na lapela, ao mesmo tempo que ia para o colégio de chancas. Leitor compulsivo dos realistas norte-americanos neorrealistas portugueses – estes últimos com quem a família privava –, aos 12 e 13 anos desafiou um professor de história sobre “o princípio da não contradição” e caricaturou, no quadro, o de inglês aos 17.

 

Quando tinha 19, trabalhador-estudante, recebe o pseudónimo de “Tiago”, enquanto militante comunista em Aveiro, preparando, com o seu camarada José Bento, uma receção “a preceito” ao recém-empossado Presidente da República Américo Tomás, denominado de “corta-fitas”. Estudante de Belas-Artes no Porto, aos 21 anos é preso pela PIDE, com os seus camaradas David e Marcela (a sua irmã) e alguns compagnons de route, entre eles a sua companheira de sempre, Manuela Barros. Acusado de “crimes contra a segurança do Estado” é sujeito a tortura do sono três vezes; na terceira vez, ao fim de sete dias sem dormir, fez o pino, o que desconcertou os seus carcereiros, muitos deles antigos seminaristas, “pobres diabos”, que o Cláudio espicaçava e “amedrontava” com o seu enorme sentido de humor e que, depois de liberto, cumprimentava em altos berros quando os encontrava nos transportes públicos, “denunciando-os” aos olhos de todos.

 

O Cláudio que sobreviveu com a Manuela, então grávida da Nádia, e os outros cinco companheiros, às várias peripécias no Atlântico e depois no Estreito de Gibraltar. O Cláudio que viajou no tejadilho de um comboio de Tânger para Rabat, onde, sem dinheiro, apanhava as beatas que os estrangeiros deitavam e se especializou em fazer arroz de polvo – de que não ficou enjoado – e arranjou dinheiro para subsistirem uns tempos com uma exposição com estruturas de ferro soldado e tecidos coladas, em colaboração com a Manuela, arranjou trabalho no Ministério do Urbanismo Marroquino, onde o único arquiteto era o ministro, dirigiu a secção de maquetes, foi expulso de um ateliê de um arquiteto russo – onde tinha um part-time – porque batizou a sua primeira filha de Nádia (“gota de orvalho” em árabe), pintou a nitrato de prata na parede da embaixada de Portugal “À bas Salazar assassin”, ajudou Humberto Delgado a conseguir um passaporte para entrar em Portugal aquando do assalto ao Quartel de Beja e conseguiu um encontro oficial entre este e Amílcar Cabral – com quem colaborou.

 

O Cláudio que discursou às tropas que iam libertar a Argélia, como representante da oposição portuguesa, foi o “José Ramos”, locutor e jornalista da secção em língua portuguesa da Rádio Bucareste durante uma década, viveu a primavera de Praga e a invasão soviética e saboreou a beleza do mundo rural romeno, aprendeu com os mestres gregos da Arte Bizantina na Faculdade de Belas-Artes de Bucareste, foi ajudante de enfermeiro em hospitais psiquiátricos parisienses, fazia desenhos para japoneses em hotéis e montava mosaicos à romana para piscinas em Paris, enquanto preparava o doutoramento na Sorbonne que o 25 de Abril interrompeu. Então, viajou no primeiro avião – no qual vinham Álvaro Cunhal e outros dirigentes comunistas, Luís Cília, José Mário Branco – de onde se escapuliu, mas o taxista que o transportou elegeu-o a herói, levando-o a celebrar a liberdade por diversas tascas lisboetas, tendo-lhe valido uma grande piela.

 

Entrou para a Faculdade de Letras, em votação de braço no ar, em outubro de 74, onde, com António Borges Coelho, marcou profundamente os estudantes da Faculdade de Letras, ao mesmo tempo que organizavam centros de apoio aos estudantes do interior, em Beja, Faro, e visitas político-culturais a UCP. Chegou a Mértola em 1978, a convite do seu aluno, o edil Serrão Martins, e lançou mãos à obra, mudando-se definitivamente para a vila raiana, após o afastamento da faculdade em 1985.

O restante percurso é do domínio público…


Que, conforme António Malpica – uma das 25 personalidades que aceitaram prestar depoimentos escritos –, catedrático da Universidade de Granada: “Ha hecho una obra gigantesca, que no reclama ni piensa que es suya, sino de un coletivo. Hoy Mértola es un santuário, laico por supuesto, al que hemos peregrinado todos los que creemos que el mundo se puede cambiar, que hay que cambiarlo com una profunda fe, también laica, en el ser humano”.

 

Este livro reúne assim os testemunhos de muitas pessoas que lidaram de perto com Cláudio Torres [entre eles António Borges Coelho, o académico jubilado, poeta, percursor do arabismo contemporâneo e autor do prefácio, Jorge Alarcão, professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, ou José Mattoso, professor jubilado aposentado da FCSH/UNL e ex-diretor da Torre do Tombo].

 

Ao longo dos 25 depoimentos, surgem realçadas, com recorrência, as qualidades, a genialidade e capacidade congregadora e espírito entusiástico e sonhador de Cláudio, aspeto certamente decisivo para o Campo Arqueológico de Mértola ter alcançado o patamar de exceção que nenhum outro projeto arqueológico alcançou em Portugal. Terminamos citando Ana Paula Amendoeira [diretora regional de Cultura do Alentejo]: “A sua tranquilidade, às vezes inocente, que eu acho que lhe vem de entender o tempo, curto e o longo, o histórico e o mítico, sempre lhe adoçou o caráter e a forma de estar e de estar com os outros. Ele é firme nas convicções e flexível nos afetos e isso não é coisa pouca (…)”.

 

Terminamos trazendo a lume como nasceu o projeto do livro. Aconteceu num restaurante de hotel, em novembro de 2007. Íamos participar no II Encontro Transfronteiriço de Revistas de Cultura, organizado pela revista “Estudios Extemeños”. Tínhamo-nos acolhido ao conforto do hotel Zurbarán, depois de um dia intenso: primeiro a viajar, eu desde Almada e o Cláudio de Mértola. Por mero acaso chegáramos exatamente na mesma altura, encontrando-nos na receção.


No final do dia apresentámos o recital “Os Cantores de Intervenção 1960-1974”, baseado no meu livro homónimo, no auditório do Ayuntamiento de Badajoz. O Cláudio Torres, no dia seguinte, iria proferir uma conferência, na qualidade de diretor da conceituada revista “Arqueologia Medieval”.


Durante o espetáculo, quando apresentava o tema de referência sobre a emigração, de Rosalía de Castro, de repente olhei o Cláudio nos olhos – que estava mesmo à minha frente – e referi o seu exemplo, em vez do que era o usual; os jovens para partiam para o norte da Europa, para fugir à guerra colonial:“Hoje temos entre nós um desses jovens, que, ao contrário dos outros, foi para o norte da África, numa aventurosa viagem num barquito com um grupo de jovens como ele e terá começado aí, em Rabat, provavelmente o percurso que o levou e devolver, duas décadas depois, a História milenar às gentes do Sul da península e, nomeadamente, a transformar Mértola na Vila Museu que hoje conhecemos”.

O Cláudio não estava à espera – e nem eu –, ficou boquiaberto e um pouco constrangido quando eu pedi uma salva de palmas e a assistência se levantou em peso e desta forma imprevista o homenageou…

Chegámos então ao hotel, sentámo-nos numa mesa redonda para jantar, o que possibilitava o diálogo entre todos, e enquanto nos íamos refazendo da fome que já se fazia sentir, comecei a falar ao Cláudio na viagem, a fazer-lhe perguntas. Ele ao princípio não desenvolvia muito a conversa, talvez porque conhecia mal os outros convivas, ou por cansaço, mas eu comecei a espicaçá-lo e ao fim de algum tempo ele aceitou o desafio e, durante cerca de duas horas, contou pormenorizadamente a aventurosa e perigosa viagem dos sete jovens, num barquinho de cinco metros, para Marrocos, no verão de 1961. Foi agora a vez de os outros amigos ficaram estupefactos – de certa forma incluindo eu, que conhecia a aventura, mas não tão pormenorizadamente…


Por entre o silêncio ou exclamações de admiração, o Zé Carita sai-se com esta: “- Oh Eduardo, isto dava um livro! Tu devias escrever um livro sobre esta epopeia…(…)”.


Depois de andar a amadurecer a ideia, em 2010 tive as primeiras conversas com o Cláudio sobre este projeto. Tendo tido o seu assentimento, desde que meti mãos à obra, por minha conta e risco, vivi momentos extraordinários: fosse no privilégio dos encontros regulares com o Cláudio e a Manuela, na pesquisa realizada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, nas outras entrevistas realizadas, até no cruzamento das fontes para uma melhor compreensão de alguns aspetos, ou no saborear a beleza e o humanismo de que estão impregnados os 25 depoimento recebidos – até pelo forma fraterna, abnegada, diria mesmo, como a generalidade dos participantes entusiasticamente aderiram, por tudo isso – que foi sempre muito, muito maior, mais forte e mais poderoso que o trabalho por vezes até à exaustão, tudo isso possibilitou-me uma vivência fabulosa que muito me enriqueceu humana e espiritualmente. Tudo isso devo primeiro e acima de tudo ao Cláudio.

 

Obrigado, Cláudio!

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