Diário do Alentejo

Testemunho dos primeiros cristãos da civitas Pax Iulia

29 de maio 2019 - 16:00

Texto Jorge Feio

 

Em 2014 dirigi uma escavação arqueológica em contexto de necrópole a cerca de 100 metros a sul de uma villa romana, cujas estruturas, que podemos considerar monumentais, ainda podem ser observadas à superfície. No decurso da intervenção, o espólio recolhido permitia apontar para uma cronologia tardia no contexto da antiguidade, que deveria situar-se no século V, ou no século VI. Nessa altura, o filho do proprietário da terra informou-me que o pai tinha em casa uma "pedra com uns dizeres datados de 600", a qual teria aparecido naquele local alguns anos antes.


Logo que me foi possível dirigi-me ao local onde a peça se encontra depositada (dois dias depois) e falei com o pai, que inicialmente se mostrou muito renitente. Afinal de contas, os arqueólogos ainda transportam com eles uma imagem de "empata obras" ou de "embargadores de tudo". Após um diálogo muito frutífero, foi possível aceder ao monumento. E que agradável surpresa tivemos!

 

Não tínhamos uma inscrição datada do ano 600. Tínhamos dois textos funerários gravados, um deles datado de 484 e outro datado de 566. Ou seja, tratava-se de uma tampa de sarcófago em mármore (o sarcófago também está na propriedade todo partido mas passível de ser restaurado) que nos indicava o sepultamento de dois jovens, com uma distância temporal de 82 anos, que eram, simultaneamente, as duas inscrições funerárias cristãs mais antigas do território da antiga Pax Iulia, que neste período se designava Pace (não Paca, como defendem alguns autores).

 

Na mais antiga inscrição podemos ler o seguinte: DEPOSITIO BAR/DASCI QVI VIXIT/ANNO(s) XX (viginti) RECESSIT IN PACE D(ie) XVII (septimo decimo ante) KAL(endas) SEP/5TEMB(res) ERA DXXII. Ou seja, traduzindo: Sepultura de Bardasco, que viveu 20 anos. Descansou em paz no 17.º dia (antes) das calendas de setembro da era de 522 [14 de agosto de 484].

 

Para além de todo o estudo paleográfico que é demasiado extenso para o espaço desta crónica, nota-se a ausência do qualificativo famulus Dei (servo de Deus) ou famulus Christi (servo de Cristo), que já se observa em Mértola neste período, até porque a expressão recessit in pace (descansa em paz) é comum a inscrições daquela vila datadas de 470 (Faustianus), 482 (sem nome) e 489 (presbiter – presbítero – Satyrio).

 

No território do conventus pacensis, a palavra depositio não aparece pela primeira vez em Beja, conhecendo-se um exemplo na inscrição dedicada ao (possível) bispo Julião, contudo, esta inscrição encontra-se fragmentada e não sabemos qual a sua datação exata, provavelmente será de meados do século VI. O exemplo mais antigo do nosso território poderia ser o de Petra, na herdade da Palhinha, concelho de Fronteira; não apresenta data expressa (mas creio que poderá situar-se cronologicamente entre a década de 80 do século V e os meados da década de 20 do século VI).

 

Em exemplares datados, surge nos epitáfios de Paulus (Évora, 544); de Thesso (?) (Lisboa, século VI?); de um indivíduo desconhecido (Lisboa, século VI?); de Felix (Chelas, 666); e, ainda, numa deposição de relíquias de santos (?) (Lisboa, século VI?). Em Mérida, o vocábulo depositio no início do texto surge em dois epitáfios: o mais antigo é o do diácono Hippolitus, datado de 508; o segundo encontra-se muito fragmentado e não é possível datá-lo, embora tenha sido feita uma proposta para a primeira década do século VI.

 

Assim sendo, com os dados disponíveis, poder-se-á afirmar que, mui provavelmente, se estará diante do mais antigo epitáfio datado encontrado, até ao momento, na Península Ibérica, contendo o vocábulo depositio no início do texto.  Não nos parece oferecer qualquer dúvida a leitura Bardasci, genitivo de um eventual antropónimo Bardascus, para que, de momento, se não encontraram paralelos.

 

Na mais recente inscrição podemos ler:
[crux] RE[DEMP]TVS FAMVLVS DEI/VIXIT AN(n)OS XI (undecim) REQVIEVIT/ IN PACE D(omi)NI III (die tertia ante) IDVS IVNIAS/ERA DCIIII
Traduzindo:
Redento, servo de Deus, viveu 11 anos. Descansou na paz do Senhor no terceiro dia antes dos idos de junho da era de 604 (11 de junho de 566).

O formulário utilizado no texto é muito comum, se o compararmos com o que se conhece neste tipo de monumentos da região (sobretudo em Mértola), apresentando, no início, uma pequena cruz a anteceder o nome do defunto, seguindo-se a expressão famulus Dei (servo de Deus), a mais utilizada aqui: foi registada, até ao momento, com segurança, em 26 epitáfios do conventus pacensis, datando o mais antigo de 462 (Stefanus, Mértola) e o mais recente de 587 (Rufina, Mértola).

A cruz colocada na mesma linha do nome do defunto, no início do texto, é também relativamente comum nesta área do conuentus, sobretudo a partir de meados do século VI e durante o século VII.

 

O nome do defunto está gravemente danificado, porque foi nesse ponto da tampa do sarcófago que o arado “encalhou” há cerca de 40 anos, aquando da sua descoberta; todavia, os traços que subsistem permitem-nos propor a reconstituição Redemptus, que aparece pela primeira vez na epigrafia cristã deste período. Redemptus (‘resgatado’) resulta da utilização do particípio passado do verbo redimere, “resgatar”, e pode ter sido escolhido para nomear alguém que fora batizado na fé cristã. Conhece-se um bispo Redemptus de Mérida, no século VI; e o nome surge ainda em várias inscrições funerárias no Norte de África, nomeadamente, em Cartago, na Tunísia.

 

Outras conclusões se podem retirar das inscrições da tampa de sarcófago de Beja, ora estudadas. Uma é a presença de indícios de cristianização em ambiente rural ainda no século V, fruto da deposição de Bardascus em 484, junto da uilla onde morava. Regista-se nitidamente, por outro lado, que o primeiro texto ocupou uma pequena parte preparada para o efeito no topo da tampa de sarcófago, deixando livre espaço suficiente para outras inscrições referentes a eventuais tumulações sucessivas.

 

Considera-se normalmente que a reutilização de uma sepultura estará associada a enterramentos de familiares do primeiro defunto e essa situação terá ocorrido em Silveirona, onde foram sepultados Veranianus (em 531) e Savinianus (no ano de 544) no mesmo sepulcro, com uma diferença temporal de 13 anos. O caso do monte da Robala poderá ter sido diferente, atendendo ao mais longo intervalo temporal os dois defuntos poderão não ter qualquer relação entre si. Como já não havia memória do primeiro, passadas três, quatro gerações enterrou-se o segundo.

 

A distância temporal entre as duas inscrições da tampa de sarcófago do monte da Robala permite estudar, num mesmo monumento, a evolução que os textos epigráficos tiveram nesta região naquele espaço de 82 anos. Simultaneamente ajudam a compreender um pouco melhor o processo de cristianização do território do conventus pacensis, sobretudo em ambiente rural.
Mais aqui, apesar da imensa falta de investimento em estudos científicos na área da arqueologia e do património, Beja dá cartas e mostra a sua importância no passado.

 

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