Diário do Alentejo

Era bonito de mais…

08 de janeiro 2024 - 08:00
Foto| DRFoto| DR

Texto José d’Encarnação 

Era bonito de mais... para ter sido de Beja, achou-se logo de início. Mas que esse elegante altar, de frontão triangular preenchido com uma coroa e fitas, cujo desenho o bispo Frei Manuel do Cenáculo incluiu, sob o n.º 15, no seu precioso álbum (que, com o n.º CXXIX 1-14, a Biblioteca Pública de Évora guarda mui religiosamente), ficaria bem na nossa coleção, isso é que ficaria!Vamos lá então ver por que é que dele não nos podemos orgulhar.

Donde é que veio esta pedra? Na verdade, dado o facto de Cenáculo o ter desenhado ou mandado desenhar, o monumento foi considerado pertença da sua coleção, constituída naturalmente por materiais arqueológicos do território português, que lhe foram oferecendo. A maior parte, até, achados na cidade de Beja. Durante muito tempo, a Beja se atribuiu, pois, a origem desta pedra, mormente, nos livros de viajantes.

O facto, porém, de a sua tipologia e também, de certo modo, o seu texto não se enquadrarem no que eram os cânones habituais, mesmo os mais requintados, dos monumentos epigráficos pacenses, terá levantado alguma suspeita e, por isso, o epigrafista alemão Emílio Hübner, perito em vasculhar manuscritos antigos de todo o lado, acabou por detectar rasto dessa pedra na colectânea Epigrammata Antiquae Urbis, “epigramas da cidade antiga”, ou seja, de Roma, publicado nessa mesma cidade em 1517 por outro curioso, Giacomo Mazzochi. O texto aparece aí: é o n.º 3 da folha sete, e reza a legenda que se encontrava “em S. Brás, no Monte Acceptorium”.

Estava esclarecido: o monumento era de Roma. Fora identificado numa igreja dedicada a S. Brás, situada no que então se chamava o mons Acceptorium, ou seja, o monte onde eram depositados os resíduos urbanos. É, hoje, uma praça, onde fica o Palazzo Montecitorio, designação que naturalmente reflecte a identificação antiga.

Por isso, logo na sua publicação de 1869, o Corpus Inscriptionum Latinarum (“catálogo das inscrições latinas”), Hübner o incluiu com asterisco – n.º 33* – para indicar que não poderia pertencer ao número das lídimas inscrições latinas da Hispânia. Aliás, no seu tempo já nem se pusera a hipótese de ser de Beja, mas, sim, de Lisboa. Note-se, a esse propósito, que Augusto Vieira da Silva, pelo sim pelo não, o chegou a incluir no seu livro sobre as inscrições romanas de Lisboa, perguntando, na pág. 260: “Tê-la-iam os italianos deixado tirar da igreja de Roma para vir para Lisboa, ou teria havido equívoco dos primeiros informadores, localizando em Roma algum dos templos com a invocação de S. Brás que existiam nos distritos de Évora ou de Beja, onde porventura a lápide estava colocada?”.

Não admira, no entanto, que frei Manuel do Cenáculo a tivesse na sua coleção, começada a formar em Lisboa e continuada em Beja, adquirida ou recebida esta lápide aquando de viagem a Roma, sua ou de algum dos seus colaboradores diretos.

Certo é que a terá visto e desenhado e dois dos estudiosos que andaram por Portugal em busca de inscrições a localizaram em Beja: D. Francisco Pérez Bayer, em 1782, e o arquitecto James Murphy, que viajou por Portugal em 1789, viagem de que deixou relato no livro Travels in Portugal, publicado em Londres, no ano de 1795, onde o monumento vem reproduzido na p. 301, estampa XVI.

Aliás, o religioso franciscano Sebastian Sanchez Sobriño, como A. Vieira da Silva refere, “veio a Portugal em Maio de 1773, esteve em Lisboa em Junho do mesmo ano e, aqui ou em Beja, ‘não se recordava bem’, viu a colecção de inscrições organizada por Frei Manuel do Cenáculo, sendo o primeiro que nos deixou notícia da sua existência”. No relato que publicou no ano seguinte, intitulado Viaje Topografico desde Granada a Lisboa, dá o texto desta epígrafe (é o n.º 5, página 34) e descreve-a com algum pormenor. Diz que tem uma “pátera” em cada face lateral, mede três palmos de comprimento e um pouco menos que dois palmos de largura. Não será esta uma prova bastante de que esteve junto dela?

O que diz o texto Quanto atrás se escreveu documenta um pouco o que é a ciência epigráfica: por tratar de inscrições, compete ao epigrafista ler e interpretar o que está escrito; como, por outro lado, o mais importante é mostrar que essa epígrafe é um documento cultural, cumpre esclarecer onde foi encontrado, porque só assim se torna susceptível de trazer informações concretas.

Resumindo quanto ao caso presente diz respeito:– afigura-se possível pensar que este altar deve ser considerado entre as epígrafes de Roma; daí veio para Portugal, porventura, como oferta ao bispo Cenáculo dalgum amigo que soubesse do seu interesse por estas “velharias”; era esse, aliás, um hábito no século XVIII, não esqueçamos que foi então que se descobriram as ruínas de Pompeia;

– foi visto na sua coleção em Lisboa ou em Beja e é bem possível que haja levado descaminho quando o bispo saiu de Beja para Évora e nem toda a sua coleção foi com ele.

Justifica-se, pois, que, embora se não refira a gente de Pax Iulia, se diga tratar-se do epitáfio de um menino chamado Justo, que viveu oito anos, nove meses e oito dias, e que, porventura, nasceu no seio da família de Cepião, em que seus pais, Corinto e Clyte, também estariam integrados como escravos. Os nomes dos pais, de clara conotação grega, e o facto de apenas se identificarem com um nome, no-lo deixam entender.Notem-se ainda dois significativos pormenores:

– escreveu-se “viveu”, para realçar o seu mui curto tempo de vida;– escreveu-se “pais” por extenso (“parentes”, em latim), quando aos escravos não era concedida legitimidade de nascimento, digamos assim, o que, juntamente com o requinte da decoração do altar, realça o clima de ternura envolvente, tanto por parte dos pais como do próprio senhor, que aquiesceu a que o seu nome ficasse consignado no letreiro.

Comentários