Diário do Alentejo

Tempos de pandemia pela objetiva fotógrafos de Beja

26 de março 2021 - 14:10

Privados de trabalhar, numa atividade que depende, em exclusivo, das vivências do quotidiano, do contacto com o exterior e com terceiros, os fotógrafos viram-se, também eles, sujeitos ao confinamento e isolamento social. Uma experiência diferente, com tanto de reclusão, quanto de introspeção, reinvenção ou apenas ansiedade face à incerteza do futuro da profissão.

 

Texto Rita palma Nascimento

 

ANA ESPINHO

 

Neta e filha de fotógrafos, Ana Espinho recorda-se de sair da escola e passar o tempo no estúdio do avô: “Servia de modelo nos seus testes de luz”. Licenciou-se em Gestão de Marketing e trabalhou em diversas áreas, mas foi a paixão pela fotografia que lhe definiu o caminho. “Em 2008 comecei a trabalhar com o meu pai [Fotografi@'s - José Espinho e Filhas]. Na altura estava desempregada e surgiu a hipótese de preencher um horário provisório na loja. O provisório tornou-se definitivo”. Integrou a equipa de reportagem de casamentos como assistente, depois como segunda fotógrafa e no final de 2010 assumiu a gestão da equipa.

 

Em 2014 frequentou o curso de fotografia profissional na Oficina da Imagem, cujo portefólio foi premiado pela Associação Portuguesa de Profissionais da Imagem com duas menções honrosas na categoria de retrato e no projeto final de nu artístico. Desde então tem frequentado inúmeras formações e congressos em Portugal e Espanha, principalmente nas áreas de retrato, fotografia de família e fotografia de casamento.

 

Ana Espinho conta que 2020 “foi um ano difícil” em todas as valências da empresa. “O Natal trouxe algum alívio, mas nada que se possa comparar com o ano anterior. 2020 foi também o ano em que não fotografámos escolas e em que tivemos todos os casamentos e batizados adiados. Uma parte sem previsão de nova data e os restantes remarcados para este ano. Com o novo confinamento voltaram os reagendamentos”.

 

Questionada sobre de que forma foi possível continuar alguma da sua atividade durante o período de confinamento, Ana Espinho refere que o ‘online’ tem sido uma oportunidade que tem explorado. “Quando em março do ano passado fomos obrigados a fechar as portas das nossas lojas, fomos apanhados de surpresa e não sabíamos, ao certo, quanto tempo iríamos ficar sem trabalhar. Neste segundo confinamento foi diferente, embora não soubéssemos (e ainda não sabemos) por quanto tempo, sabíamos que este confinamento seria mais longo. Viemos para casa, mas continuamos a trabalhar ‘online’. Mantemos ativo o serviço de impressão e de produtos personalizados com fotografias. Recebemos as fotografias por e-mail ou por WhatsApp e fazemos entregas e envios. A página de Facebook tem sido a nossa montra e estamos a preparar uma loja ‘online’ com uma estratégia digital integrada que acreditamos ser uma condição imprescindível para o presente e para o futuro”.

 

A arte de fotografar é o que mais me preenche”, diz a fotógrafa. “É o que me motiva e me alimenta a alma. Fotografar é, para mim, um processo criativo que envolve diversos fatores. A minha fotografia é o reflexo do meu estado de espírito, da forma como vejo os outros e o mundo que me rodeia. E porque neste momento não me é permitido fotografar clientes, encontro na minha família e no meu dia-a-dia, cá por casa, uma forma de estimular a minha criatividade e afastar maus pensamentos. Tenho fotografado algumas experiências culinárias resultantes do confinamento e tenho também aproveitado o tempo para apostar na formação”.

 

E se outros momentos existem, capazes de ilustrar a individualidade de uma realidade coletiva, Ana Espinho envia-nos o seu olhar através da captura de um elemento base, tradicional e essencial, um pão caseiro, fatiado à medida do correr dos dias, endurecido ao sabor do tempo, das dificuldades, do desalento e da incerteza.

RICARDO ZAMBUJO

 

Ricardo Zambujo é autodidata e tem desenvolvido a sua técnica ao longo dos anos. Descobriu a paixão pelas objetivas aos 18 anos e desde aí tem vindo a registar paisagens e expressões humanas com um olhar distinto. “A fotografia é um processo criativo. Aprende-se a fotografar, fotografando. A minha formação é apenas em fotografia de recém-nascidos. Sempre me cativaram as formas, as linhas… dizem-me que tenho obsessão por centrar objetos e ver tudo direitinho”. Ricardo Zambujo colabora também, faseadamente com o DA, na área da fotografia de vinhos.

 

A sua atividade, enquanto fotógrafo, está praticamente parada desde o início da pandemia. “Grande parte dos trabalhos que realizo é com famílias, logo de contacto próximo, especialmente no caso das sessões de recém-nascido que exigem bastante contacto. Também fotografo muitas famílias no exterior o que, devido às restrições, se torna impraticável. Muitos casamentos agendados para 2020 foram adiados, o mesmo sucedendo este ano. Nesta área, que representa uma fatia importante da minha atividade, entre maio e outubro, conto dois anos quase perdidos”.

 

Impedido de retratar a figura humana, no exterior, Ricardo Zambujo tem alimentado parte do seu processo criativo nos passeios pelo campo. Apaixonado que é (e se mantém) pela natureza e paisagens naturais, tem na sua génese a tendência para a fuga bucólica e para o “pasmo essencial”, nas palavras de Fernando Pessoa. “A criatividade faz parte do dia-a-dia de um fotógrafo, mas sem pessoas para retratar torna-se difícil”. Neste ponto, vai acompanhando “o que os outros fotógrafos vão realizando, a Internet dá-nos essa vantagem. A minha situação é difícil, mas não comparável à de muitos colegas que vivem exclusivamente de fotografia. Esta não é a minha única atividade. Mas salvaguardar a saúde de todos, isso sim, é o mais importante”.

 

Do seu olhar para este portefólio do “DA”, vê-se a planície, terra em bruto à espera de futuro. O contraste entre terra e céu, dimensões que o horizonte cruza no limiar da noite, mas que hoje se nos apresentam mais próximas. Tanto quanto a solidão do sobreiro que marca e se impõe, seguro às raízes, ante a paisagem deserta.

ROBERTO AIRES

 

Roberto Aires é proprietário do estúdio Momentos Fotográficos. Os casamentos englobam a maior fatia da sua atividade, embora também realize congressos, eventos corporativos, concertos e outros espetáculos. Desde março de 2020 que regista uma quebra de atividade na ordem dos 90 por cento. A maioria dos eventos em agenda foi reagendada, outros foram cancelados. Como trabalhador independente foram-lhe atribuídos apoios que diz não serem suficientes para assegurar as despesas, mas que não deixam de ser uma ajuda num momento dramático.

 

Durante o confinamento, o fotógrafo não realizou qualquer projeto, mas tem em carteira várias ideias “para desenvolver, assim que as medidas o permitam”. Referindo-se a 2020 e 2021, Roberto Aires diz tratar-se de uma época sabática: “Tem sido uma altura para consolidar pensamentos e ideologias, aperfeiçoar métodos e técnicas para de seguida dar dois ou três passos em frente. Do meu ponto de vista, existe um antes e um depois da covid-19. A maneira como vemos e sentimos o mundo, assim como tudo aquilo que nos rodeia foi seriamente afetada. Porém, apesar da realidade irrefutável que estamos a viver, existe um lado positivo com o qual devemos aprender e crescer”.

 

Sobre a forma como retém a imagem do momento atual, Roberto Aires afirma que “não se reinventou a fotografia, mas a maneira como vemos o mundo mudou e isso terá influência em trabalhos futuros. Os sorrisos do futuro serão, sem dúvida, mais genuínos do que no passado”.

 

Tendo optado por não realizar qualquer trabalho ou registo fotográfico durante os últimos meses, Roberto Aires faz, nos trabalhos que selecionou para o “DA”, um paralelismo entre dois momentos, o antes e o depois da pandemia de covid-19. A preto e branco, distando temporalmente a captura face ao presente, embora a maior distância se afigure emocional, é possível identificar as mais variadas vivências comportamentais e culturais, desde idiossincrasias, ao casamento, aos sorrisos, à indiferença na pressa dos que passam, por antítese à efusão dos que ficam e assistem a um concerto de rua. Uma panóplia de gerações, culturas, fisionomias, propósitos, contextos capturados num único registo. Por oposição à personificação da desertificação da espera, na figura de um noivo, à porta de uma igreja. A máscara que não permite antever a expressão e o largo despido de gente, de partilha e de emoções.

SUSANA TEIXEIRA

 

Susana Teixeira é licenciada em Artes Plásticas e Multimédia. E é o rosto principal da marca Cutxiphotography que se dedica exclusivamente à fotografia de bebés, grávidas e famílias, mas também das fotografias escolares. Depois do primeiro confinamento, conta, realizou ainda algumas sessões em estúdio. Investiu em produtos desinfetantes e agendava apenas uma sessão por dia, de forma a garantir o arejamento, limpeza e desinfeção, quer do espaço quer dos materiais utilizados. Foi também a autora do projeto “25 de Abril à Janela” em que se propôs a fotografar do exterior, com o propósito de assinalar a data. “Uma liberdade fechada”, diz. “Marquei as sessões através do Facebook, comprei cravos vermelhos e fui deixá-los à porta daqueles que iria fotografar. Recolhiam-nos e apareciam depois à janela. Do lado de fora, fotografava”.

 

Enquanto artista plástica foi autora das duas esculturas oferecidas à Ulsba. Uma delas, intitulada Mundo às Costas, representa “o esforço, a nível mundial, que todos os profissionais de saúde desenvolvem para nos proteger, com enorme sacrifício pessoal e familiar””. A outra, Bailarina, “simboliza a nossa resiliência e a nossa capacidade de, nos momentos mais difíceis, manter a chama e a crença de que tempos melhores virão”. Porém, neste segundo confinamento, com o agravamento do número de acasos e de medidas restritivas, parou por completo a sua atividade.

 

“Existem atividades onde ainda é possível trabalhar-se ‘online’. Nós, fotógrafos, não temos como fotografar por essa via e a minha atividade é 100 por cento humana”, desabafa. No Natal, sentiu a necessidade de criar algo diferente, ‘vouchers’ para diferentes sessões, nomeadamente de grávidas e recém-nascidos, por serem momentos marcantes “que se querem sempre registar”. Porém, o novo confinamento veio adiar e cancelar muitas dessas sessões. “São momentos únicos na vida de uma mulher e na vida de um bebé que não podem ser adiados. As sessões são muito específicas e são realizadas dentro daquele espaço de tempo”.

 

A curto prazo, Susana Teixeira não quer criar espectativas: “Não creio que seja possível voltar a fotografar logo após o confinamento. O único projeto que tenho em mãos é, uma vez mais, na vertente plástica, a convite do projeto Senhora de Mim - Exposição no Feminino, que se pretende afirmar enquanto projeto de valorização da cultura e da arte no feminino. São três peças que simbolizam a depressão. Curiosamente, depois da bravura vem a tempestade”.

 

Confinada ao contexto familiar, onde ainda lhe foi, em tempos, possível alimentar a criatividade, Susana Teixeira traz para as páginas do “DA” o seu olhar sobre um encontro entre duas gerações que o tempo distância, mas que o vidro afasta e impede que se toquem. Os sorrisos da vontade e da fome do toque e da presença no peito. O reflexo que os junta, do mesmo lado da vidraça, embora a realidade dite quem uns ficam dentro e outros fora dos afetos. Na segunda fotografia, documenta a realidade dentro de casa, onde, para os mais novos, voar ainda é possível e onde a ficção ajuda a tornar mais suportável o real. Super-heróis de si mesmos, no papel principal e hercúleo de viver a infância entre quatro paredes.

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