Diário do Alentejo

Covid-19: Serviços e empresas retomam atividade

04 de junho 2020 - 10:30

Fechados desde março, devido à covid-19, restaurantes e cafés reabriram portas. Enquanto fazem contas aos prejuízos resultantes de dois meses de paragem, os empresários queixam-se da falta de clientes. A retoma está a ser difícil. Escolas e bibliotecas também retomaram atividades presenciais. A pandemia obriga a novos hábitos e a novas rotinas.

 

Texto Luís Miguel Ricardo

 

Serpa, restaurante Molhó Bico. Dizem os atuais proprietários, Manuel Pires e José Afonso, que o nome surgiu precisamente de um hábito de um dos primeiros proprietários que, amante do convívio e da moda do bem receber, convidava as pessoas para uma visita à adega a pretexto de “molhar o bico” com vinho de produção própria e degustar os petiscos que por lá se faziam. E assim nasceu, há 70 anos, o nome daquele que é hoje um dos mais emblemáticos restaurantes da cidade de Serpa e do Baixo Alentejo.

 

Depois de dois meses de paragem forçada devido à codiv-19, dois meses com os funcionários em lay-off para “aliviar” algumas despesas, o momento da reabertura não foi vivido sem preocupações: “O nosso maior receio é que não se estabeleça a confiança dos clientes”. O restaurante reabriu portas com algumas adaptações aos “novos” tempos, incluindo tapetes de entrada desinfetantes e ementas digitais, que passaram a ser lidas com recurso ao QR Code.

 

A vontade de “bem receber e bem servir”, asseguram os proprietários, “manteve-se igual”. Já a afluência de clientes, essa, manteve-se abaixo de expectativas que já eram reduzidas. “Foi tão fraco no primeiro dia que, quando entrou o primeiro cliente, foi assim um sentimento de alegria inesperada”. Posteriormente, tem-se vindo a verificar uma retoma lenta, mas gradual: “Esperamos que vá normalizando, que as pessoas percam os receios e comecem a circular com os cuidados e proteções que a situação exige. Depois de dois meses fechados e sem realizar receitas, se não voltarem os clientes fica muito complicado manter a estrutura”, sublinham os proprietários.

“TEMOS DE TER PACIÊNCIA”

Barrancos, pastelaria e casa de chá Maria. O cicerone é Luís Bombico. “É um espaço distinto que pretende ser um ponto de encontro, de convívio e, sobretudo, oferecer o melhor da nossa terra: o presunto, o mel, os vinhos, os queijos e a deliciosa pastelaria”. Apresentado a casa, Luís Bombico conta que só com “muito esforço” e a “ajuda do município” foi possível manter as contas em dia durante o período de encerramento, no qual não houve receitas apesar de não faltarem despesas fixas. 

 

A reabertura fez-se com o aconselhamento ao uso de máscara, maior distância entre clientes, redução da lotação no interior do estabelecimento e aumento da área de esplanada. “Não podemos derrubar, por inconsciência e egoísmo, todo o trabalho que fizemos nestes dois meses. Se já éramos rigorosos em matéria de higiene e limpeza, agora seremos muito mais”, garante Luís Bombico que, dias depois do reinício de atividade, assegura estar tudo a correr conforme o esperado: “As pessoas ainda estão com receio de sair. Sabemos que existe vontade de conviver e sair, mas temos de ter paciência e entender que as coisas vão acontecer lentamente”.

 

Diz o proprietário ter sido com alegria e entusiasmo, mas também com alguns receios em virtude do tempo “extraordinário” que vivemos, que por aqui se receberam os primeiros clientes. “É uma nova realidade e todos temos de ser responsáveis e conscientes para aprendermos a viver com ela”. Se a pandemia continuar a regredir, como sucedeu nas últimas semanas, reduzindo o receio de novos contágios, o setor acabará por “conseguir recuperar deste período complicado”. As contas serão outras caso o número de infeções aumente e voltem a ser necessárias medidas de isolamento social. “Vamos ser pacientes, estar alerta e esperar que tudo corra bem. É isso que desejamos”.

 

“A ESCOLA VOLTOU A DESEMPENHAR O SEU PAPEL”

O reinício das aulas presenciais para os alunos do 11º e 12º anos na Escola Básica e Secundária de São Sebastião, em Mértola, decorreu com “toda a normalidade”, diz o presidente do agrupamento, Júlio Silva. Dos 55 alunos “convocados” para o regresso à escola só quatro é que não compareceram no primeiro dia. “A escola voltou a desempenhar aquele que será sempre o seu papel: transformar meninos e meninas em homens e mulheres e acompanhar, ao seu lado, o caminho a que se chama vida. Mas só é possível concretizar esta missão se a proximidade, o acompanhamento e as relações interpessoais forem o seu epicentro. E isso exige navegação à vista e com sentimentos”.

As regras instituídas estão a ser respeitadas por toda a comunidade e assim fica mais fácil seguir rumo à normalidade desejada. “Embora compreenda que esta pandemia configure um contexto de alguma incerteza e imprevisibilidade, tenho a confiança e a convicção que tudo será atempadamente planeado no sentido de permitir um regresso rápido, mas seguro à normalidade”, diz o presidente do agrupamento, já de olhos postos no arranque do próximo ano letivo: “Os vários cenários estão a ser considerados”. Entre eles, conforme anunciou o Ministério da Educação, a possibilidade de algumas aulas continuarem a ser lecionadas à distância.

 

Segundo Júlio Silva, a medida “mais importante” para a reabertura das escolas foi a organização de horários desfasados entre as turmas, por forma a evitar aglomeração de alunos à entrada, no interior e à saída do recinto escolar. “Para além disso, e através da articulação com a autarquia, foi possível organizar uma logística de transportes que otimiza a distribuição da carga horária e que permite que os alunos possam fazer as refeições em casa”. 

 

Já no que diz respeito à gestão dos recursos humanos, foi elaborada uma distribuição de serviço para o pessoal docente e não docente que aposta na “minimização das deslocações à escola, na rotatividade e otimização das tarefas e ainda no desdobramento de turmas, cujo número de alunos assim o exigisse”. 

 

Devido à pandemia, as rotinas escolares são agora diferentes. Toda a gente é obrigada a utilizar máscara ou viseira no interior do estabelecimento de ensino, à entrada da escola é obrigatória a desinfeção das mãos com uma solução antisséptica de base alcoólica e também do calçado num tapete embebido numa solução aquosa desinfetante e foram criados percursos de acesso diferenciado para cada disciplina de forma a assegurar o distanciamento físico entre os alunos dentro do recinto escolar. Ainda assim, Júlio Silva não esconde o receio de que as escolas “não sejam capazes de devolver aos encarregados de educação a confiança e as certezas que existiam no período pré-pandemia”, um fator que será “crucial” para o arranque do próximo ano letivo.

“SEMPRE CHEGAREMOS AO SÍTIO AONDE NOS ESPERAM”

Beja, Biblioteca Municipal José Saramago. Maria Paula Santos, bibliotecária, resume as medidas de segurança adotadas neste regresso de atividade, em que apenas ficou disponível o serviço de empréstimo e livros e de outros documentos: “O balcão de atendimento tem acrílicos de proteção e delimitação dos espaços. Os técnicos dispõem dos meios de proteção e higienização individual exigidos nestas circunstâncias. Os utilizadores, para entrarem nas instalações, têm de ter máscara de proteção e desinfetar as mãos à entrada. O acesso ao edifício é condicionado a um número máximo de pessoas. Os documentos devolvidos ficam em quarentena durante 14 dias”. 

São estas as novas regras. Estas e a recomendação dos pedidos de livros ser feita por telefone ou email. Regras que os utentes já conheciam no momento da reabertura: “Havia pessoas com livros para devolver, pessoas com desejos de novas leituras, pessoas que precisavam de documentos para trabalhar, pessoas que tinham saudades da biblioteca e passaram para nos cumprimentar”.

“O retomar deste “novo normal” está a ocorrer de forma progressiva. A vontade e a necessidade de utilizar os serviços têm levado a que tenhamos uma média de 130 utilizações por dia. Muitas pessoas têm feito reserva prévia do atendimento, mas esta reserva não é condição obrigatória para o acesso aos serviços da biblioteca”, acrescenta Paula Santos, garantindo que apesar dos constrangimentos a biblioteca mantém a sua missão de “criar e fortalecer os hábitos de leitura, apoiar a educação individual e a autoformação, assim como a educação formal a todos os níveis”.

 

As expectativas para o futuro são reservadas, porque a situação é atípica e exige uma avaliação diária sobre a sua evolução de pandemia. “Contudo, contamos retomar e trazer novas propostas e ofertas culturais aos nossos utilizadores, se possível, já a partir do verão, e em setembro aumentar a dinâmica cultural da nossa atividade. Por isso continuamos a “sonhar”, refere a diretora, na certeza de que, como escreveu José Saramago, “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”.

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