Diário do Alentejo

De almocreve a taberneiro, a estória de António Pardal

26 de fevereiro 2020 - 11:20

Ao completar 100 anos de vida, António Pardal será o “filho mais velho” de Salvada. Em entrevista ao “Diário do Alentejo”, recorda o tempo em que “toda a gente” andava descalça e em que uma sardinha tinha de ser bem dividida para alimentar três pessoas. “Assim evitavam-se guerreias”.


Texto: João Fialho
Foto: José Ferrolho


“Já tenho 100 anos e cinco dias”, diz António Pardal, com o bom humor que o caracteriza, quando recebe a visita do “Diário do Alentejo”. Nasceu em 1920, dois anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, na aldeia de “Salvada, pois claro”, numa família com oito irmãos, da qual era o segundo mais velho. Dos oito, apenas o aniversariante e a sua irmã mais nova, com 83 anos, estão vivos. Por outro lado, a vida deu-lhe uma filha, quatro netos e sete bisnetos. “Passei no exame da quarta classe, mas tive que deixar a escola para ir trabalhar na monda com o meu pai”, lembra. Foi assim, menino com pouco mais de 10 anos, que começou a labutar no campo. Haveria de ser almocreve e conduzir a parelha de muares pelas planícies alentejanas. “Cheguei a dormir no mesmo sítio que eles”. Até que um dia, desafiado por um tio, que tinha talhas de barro e fazia vinho como no tempo dos romanos, acabou por mudar de vida, começando a vendar o “precioso néctar” na sua aldeia de sempre. Foi em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, que abriu a taberna. “Foi à socapa, não havia alvarás nessa altura”. A partir daí a sua rotina começa a ser marcada pelo trabalho no campo, ao longo do dia, dedicando- -se depois à taberna, cuja porta ficava aberta até ao início da noite. António Pardal lembra que, nessa altura, havia pouco dinheiro, mas Salvada tinha mais vida, mais moradores. “Agora não se vê ninguém na rua. Se dá um badagaio a uma pessoa não há quem a socorra”, afirma, com uma gargalhada. A vida era dura e havia muita fome. “Às vezes não tínhamos mais do que uma sardinha para três, e tinha de ser bem dividida. Assim evitavam- -se guerreias”, recorda “Ti” Pardal.

 

Eram tempos em que a maior parte das pessoas andava descalça. “Lembro-me de uma outra vez em que, após uma refeição no campo, uma das pessoas do grupo apagou as brasas [do lume] com o pé e não se queimou. É como estou dizendo”, enfatiza. Apesar dos seus 100 anos, mantém uma lucidez acima do normal. Continuou a trabalhar na taberna até aos 91 anos. “Tive de fechar, mas ainda estava valente”. A sua filha, Mariana, lembra que até ter fechado portas o pai fazia as contas da taberna de cabeça e “não falhava”. Questionado como foi possível trabalhar até uma idade tão avançada, António Pardal não hesita: “Fi-lo porque podia”. A filha acrescenta que era também uma maneira de saberem que o “patriarca” estava bem. “Se estivesse a trabalhar na taberna não ia para o campo. O meu pai não parava”. Ainda hoje é raro o dia em que não se entretém no quintal. “Mexo em tudo. É a minha entretenga, se não fosse isto já teria morrido”. Apesar de fechada, a taberna mantém o seu charme antigo, lembrando que era ali que os homens, após a sua jornada trabalho, se juntavam para petiscar, beber uns copos e cantar. Por detrás do balcão lá estão as garrafas e os copos antigos, pelos quais passaram centenas de litros de vinho. As pequenas mesas e bancos que lá permanecem, encostados à parede, acomodaram diversas gerações de homens de Salvada. “Trabalhava-se muito mas, mesmo assim, havia fome”, remata.

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