Diário do Alentejo

Mértola, laboratório do futuro contra a desertificação

25 de fevereiro 2020 - 15:00

Um conjunto de entidades e pessoas, da Associação de Empresários do Vale do Guadiana à Associação Terra Sintrópica, da Câmara Municipal de Mértola à Escola Profissional Alsud, trabalham em soluções inovadoras para o desenvolvimento do território. “Mértola, Laboratório do Futuro” é uma estratégia de toda a comunidade.


Texto: Carlos Lopes Pereira
Fotografia: José Ferrolho


“Não é um projeto de uma organização só. É mais um processo da comunidade, há várias entidades que estão envolvidas no processo – a Associação Terra Sintrópica, a Associação de Empresários do Vale do Guadiana, a Escola Profissional Alsud, as escolas, a Câmara Municipal de Mértola, o Campo Arqueológico de Mértola, os agricultores… Integram uma iniciativa para a regeneração da terra e a criação de uma rede alimentar local no concelho de Mértola”. A explicação é de Katharina Serafimova, suíça, professora da Universidade de Zurique e presidente da Associação Terra Sintrópica, com sede em Mértola. Marta Cortegano, engenheira florestal, presidente da Associação de Empresários do Vale de Guadiana, conta como se encontrou com Katharina: “A iniciativa é de um conjunto de entidades e surge da necessidade que temos, face a uma realidade quer climática, que aqui é extrema, quer do despovoamento, quer da desertificação física do território.

É um território sobre o qual muito se tem trabalhado e experimentado, Mértola tem uma dinâmica interessante mas, apesar disso, a nível agrícola e da paisagem não temos melhorado. Temos, sim, a componente da biodiversidade, do Parque Natural do Vale do Guadiana, bem trabalhada, mas esta componente agrícola, agro-florestal, ligada à questão climática, é de facto complexa e com tendência para piorar. E aquilo que nós vemos nos cenários extremos, nós já lá estamos. E essa situação leva-nos a olhar para o território e pensar “o que é que podemos fazer?”, “como é que podemos agir?”, e o que acontece é que existem instituições, mas também pessoas – o facto de existirem a nível local pessoas com dinamismo é importante – que não se conformam, que decidiram que não iam ficar quietas.


Como nós dizemos, há aqui uma inquietação, e inquietação é o mote para o que está a acontecer. Nessa procura de soluções, acabámos por encontrar outras pessoas que também poderiam ajudar. Foi o caso da Katharina, conhecemo-nos em 2017, num seminário em Idanha-a-Nova que se chamava ‘Novas ruralidades – Viver o interior de forma biológica’, com a participação de cerca de 500 pessoas. A propósito de uma pequena exposição sobre a realidade de Mértola e as suas dificuldades, a Katharina tomou a iniciativa de vir ter connosco e perguntou “em que é que eu posso ajudar?”.

PROCURAR SOLUÇÕES INOVADORAS

Depois desse encontro, em 2017, decidiram lançar um processo de regeneração do ecossistema em Mértola, havendo já pessoas e entidades que queriam seguir esse caminho. “A primeira coisa que fizemos foi não dizer o que fazer mas convidar agricultores locais para conhecer a experiência de outro lugar, com uma situação semelhante. Fomos então de autocarro a Espanha, com 25 agricultores, autarcas e técnicos de Mértola e Alcoutim, visitar uma iniciativa de regeneração e cooperativa, próxima de Múrcia. Isso foi o começo”, recorda Marta.


“Esse projeto era muito interessante, em termos agroflorestais, em termos ecológicos, em termos sociais, a forma de organização, tudo isso era muito interessante. E, acima de tudo, mais do que as soluções, a governança, a colaboração entre as entidades, a oportunidade de os agricultores poderem dar a sua opinião, como é que eles veem as possíveis soluções e estarem de igual para igual a discutirem com os técnicos e os decisores políticos”. Essa experiência espanhola, diz Katharina, mostrou também as possibilidades económicas de trabalhar para produtos de qualidade, orgânicos, e através disso seguir novos caminhos, “fora da caixa”, não dependentes dos subsídios. “Ver como se conseguem produtos de alta qualidade, no caso amêndoas, inovadores, num território com muitos desafios, foi também para nós uma inspiração”. Segundo Marta, “tudo isso ajudou-nos a pensar o que podíamos e queríamos fazer aqui, em Mértola. E o caminho foi esse: procurar soluções inovadoras, desde logo como trabalharmos a terra – na permacultura, na agricultura sintrópica, no fundo sob o grande chapéu da agroecologia”.

 

Para Katharina, a agricultura sintrópica é uma técnica entre muitas: “Não defendemos que agora vai ser tudo agricultura sintrópica. Foi uma das experiências, convidámos Ernst Gotsch como convidamos outras pessoas para nos ajudarem neste caminho e conversar abertamente com os agricultores para saber quais as ferramentas que eles podem utilizar e fazem sentido para eles. Nalguns casos pode funcionar bem a agricultura sintrópica. Por exemplo, já percebemos que ao nível das hortas mediterrânicas podemos usar esse sistema. Já na grande propriedade, pode ser esse o caminho mas também existem outros como o pastoreio holístico, até porque grande parte dos nossos agricultores faz também pecuária”. Katharina e Marta explicam que o sistema alimentar hoje obriga um agricultor a produzir para o mercado. “Isso, num território como este, é muito complicado. E fomos ver outras formas de nos organizar para produzir, de modo a que os agricultores de cá, em conjunto, produzam para o mercado local, pelo menos nos frescos (hortícolas e frutícolas)… A ideia é juntar os agricultores que já fazem esses produtos e abastecer as cantinas escolares”.

Isto, sem prejuízo que existam produtos de especialidade, bem remunerados noutros mercados, “como o caso da amêndoa que vimos em Espanha, uma amêndoa certificada em modo de produção biológico mas também levava o selo de agricultura regenerativa e por isso conseguia um preço muito superior”. Essas especialidades e esses nichos de mercado, “tendo em conta a paisagem que nós temos, o facto de estarmos num parque natural, o facto de este ser um sítio onde à volta não temos problemas de agricultura com químicos, podemos usar a nosso favor aquilo que temos sempre considerado estar contra nós”. Esse pensamento é muito importante, sublinha Katharina: “Aqui, os desafios podem ser parte da solução. As plantas silvestres que existem aqui podem ser trabalhadas e estamos a trabalhar já o figo-da-Índia, a bolota.


Podemos contar estas histórias e mostrar as nossas especialidades no exterior, em Lisboa, nos meios urbanos, e conectar as pessoas com o território através de alguns produtos deste tipo. Estamos a fazer um doce de figo-da-Índia, que foi já exportado para lojas orgânicas da Suíça, e outras experiências, por exemplo com o mel”. Entre os diversos projetos e ações que estão a ser desenvolvidos no quadro deste “laboratório do futuro” que Mértola quer ser, há as bolsas de terras para apoiar os agricultores que querem fazer parte deste projeto, a formação de cozinheiras das cantinas escolares, as hortas sintrópicas nas cinco escolas do concelho, a experimentação com os agricultores para testarem e adaptarem à realidade as novas técnicas.

HORTA DA MALHADINHA, CENTRO PILOTO DE BOAS PRÁTICAS DE REGENERAÇÃO


A pouco quilómetros da vila de Mértola, a Horta da Malhadinha, com cerca de três hectares, pertence ao Campo Arqueológico de Mértola (CAM). Foi cedida há anos pelo historiador José Mattoso, que ali viveu durante algum tempo. O CAM cedeu-a agora a um agricultor que, por sua vez, disponibilizou-a à Associação Terra Sintrópica, que procura transformar a horta num centro demonstrativo e piloto de boas práticas de regeneração, como foco na agricultura sintrópica. Está a introduzir equipamento para monotorização, de modo a que o trabalho ali em curso possa ser acompanhado, em colaboração a Faculdade de Ciências de Lisboa, o Instituto Superior de Agronomia, a Universidade de Évora, a Escola Superior Agrária de Beja e outras instituições de investigação. A Horta da Malhadinha acolhe também o projeto em curso de um jardim, viveiro e banco de sementes das variedades esquecidas do Al-Andaluz.

 

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