Diário do Alentejo

Novos 19 médicos internos reforçam Ulsba

29 de janeiro 2020 - 16:00

Dezanove novos médicos internos estão desde o início do ano a trabalhar na unidade de saúde do Baixo Alentejo. Dez fazem a sua formação geral, ao longo de um ano, e nove a formação específica, entre quatro e seis anos. Os responsáveis locais mostram-se satisfeitos e dizem que “é um acontecimento importante, uma vez que estimula a dinamização dos serviços clínicos e cria a possibilidade de fixação de médicos na região”. A formação será feita no hospital de Beja e em centros de saúde da região.

 

Texto Carlos Lopes Pereira

Fotos José Ferrolho

 

Já se encontram integrados desde 2 de janeiro, na Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Ulsba), 19 novos médicos internos, 10 a fazer a formação geral, durante um ano, e nove a formação específica, com vínculos entre quatro e seis anos. Estes farão a sua formação específica nas especialidades de Medicina Intensiva (um), Psiquiatria (um), Pediatria (um), Medicina Interna (dois) e Medicina Geral e Familiar (quatro). O conselho de administração da Ulsba saúda a vinda dos médicos internos como “um acontecimento importante, uma vez que estimula a dinamização dos serviços clínicos e cria a possibilidade de fixação de médicos na região”. E lembra que o Hospital José Joaquim Fernandes, de Beja, “tem há muitos anos tradição em formação de médicos que se pretende manter com qualidade”.


Ângelo Mariano Ferreira, natural de Barcelos, no distrito de Braga, tem 34 anos. Primeiro tirou uma licenciatura em Enfermagem e foi trabalhar para o hospital de Portimão. Fez entretanto na Universidade do Algarve o mestrado em Medicina, que terminou em junho de 2019, e concorreu para Beja, para a formação geral.  Falou ao “Diário do Alentejo” sobre a sua vinda para Beja: “Há uma candidatura nacional para esta formação, critérios de classificação, e em função disso que fazemos as nossas escolhas, entre 46 instituições no País. Temos de colocar todas as nossas preferências – e isso dá um trabalhão! No meu caso, a primeira opção foi o Centro Hospitalar e Universitário do Algarve, já lá estou há 11 anos, e a segunda opção foi a Ulsba, dada a proximidade e também por já conhecer algumas pessoas em Beja. No meu percurso profissional no Algarve conheci muitos profissionais naturais de Beja ou com ligações a Beja, e eu próprio vim muitas vezes a esta cidade, tenho muita simpatia por Beja, pelas suas gentes (e pela comida, que é muito boa…)”.


Clarifica que, na formação geral, ao longo de um ano, ele e os seus colegas fazem rotações em quatro especialidades – Cirurgia Geral, Pediatria e Medicina Interna, em contexto hospitalar, e Medicina Geral e Familiar, num centro de saúde. Após esse período, têm a possibilidade de ter autonomia médica mas, neste momento, estão sob a tutoria dos médicos da Ulsba, a fazer a etapa final da sua formação.

 

A instalação em Beja dos jovens médicos, sobretudo no que diz respeito ao alojamento, foi “um bocado complicada”: “É da nossa iniciativa, os resultados da candidatura saem em dezembro, a formação começa no início do ano, num prazo muito curto temos de resolver o problema. Foi de início difícil, tentei procurar um apartamento, a oferta não é muita ou, pelo menos, acessível. Mas a Ulsba disponibiliza algumas casas de função, aqui, ao lado do hospital, e acabei por conseguir uma, partilhada, com boas condições, o que nos permite uma adaptação mais fácil ao novo meio. É uma transição mais suave, ficamos com outros colegas do hospital, isso ajuda”.

 

Ficar em Beja a trabalhar, depois da formação? “É uma possibilidade, mas ainda agora estamos a chegar, a integrar-nos na cidade… Hoje em dia a prática médica não é adstrita a um único hospital e, havendo essa possibilidade no futuro, certamente será considerada, até porque vai estabelecer-se outro tipo de ligação a Beja durante este ano. É sempre bom voltar aos sítios onde somos felizes”, diz este minhoto a viver no Algarve e, agora, no Alentejo.

 

Sobre a fixação de médicos no interior do País, opina: “O que fixa os médicos numa unidade hospitalar é o período de formação específica. Por exemplo, os meus colegas vão passar cá em Beja cinco anos e a tendência para se estabelecer e fixar na cidade é maior do que fazer a formação e ter a vida organizada, estruturada, em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou em Braga e virem para cá depois, enquanto especialistas, tendo que mudar a vida toda, para ganhar exatamente o mesmo. Em minha opinião, o segredo para a fixação de médicos no interior do País passa pelas vagas de especialidade, que são cada vez menos, há colegas a ficar sem vagas, que não chegam para toda a gente. Apesar de haver muitos médicos especialistas a reformar-se nos últimos anos, não havendo uma substituição dos que saem, uma renovação”.

Estar perto da família

João Vaz é o mais novo do grupo, tem 25 anos, é de Beja: “Fiz o meu curso de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, escolhi vir fazer a formação geral na minha terra. Tenho a facilidade de estar perto da família, os meus pais trabalham cá, estou em casa, cresci aqui, conheço muitas pessoas. Isso é muito conveniente, em vez de estar a pagar uma renda em Lisboa. E sempre posso levar os meus colegas a conhecer Beja”. Agora, na formação geral, começou pela Medicina Interna e depois fará as outras três valências, para completar o ano de internato: “A expetativa é boa, espero aprender o máximo com os médicos de cá, são mais velhos e têm muito para nos ensinar. Estamos cá só desde há dias, mas podemos já dizer que a receção foi ótima. Fomos recebidos na sala de conferências pelo conselho de administração e pelo corpo clínico, mostraram-nos o hospital, já passámos pelos Recursos Humanos e tratámos de toda a papelada necessária para desenvolvermos o nosso trabalho aqui. Os médicos, os enfermeiros e outros técnicos, toda a gente, recebem-nos bem, saúdam-nos com simpatia”.


João Vaz confirma que “teremos uma rotação de Medicina Geral e Familiar, de três meses, que é feita obrigatoriamente nos centros de saúde. Em princípio, em centros de saúde aqui da cidade de Beja, mas por conveniência dos serviços poderemos ir para outros centros de saúde, em concelhos como Ferreira do Alentejo ou Almodôvar, que fazem parte da Ulsba”. Sobre a possibilidade de, no futuro, vir a trabalhar na sua terra natal: “Hoje em dia a carreira médica vive um momento um bocado estranho. Há poucas vagas para entrar na especialidade e muitas vezes temos de nos sujeitar às vagas que sobram, às vagas não preenchidas e que podemos ocupar. É claro que, para mim, é sempre uma opção ficar em Beja, sei do trabalho que se faz aqui, sei do bom trabalho que é feito nesta unidade local de saúde. Mas às vezes o nosso crescimento pessoal e profissional exige irmos para outras realidades, até porque em Beja não temos todas as especialidades disponíveis. Há especialidades cirúrgicas e médicas cuja formação não se pode fazer em Beja. Mas, se esse for o caso, após a formação específica, após terminar a especialidade, voltar para Beja é sempre uma hipótese”.

 

Uma nortenha em Beja

Ana Rita Rocha, é de Gondomar, do Porto, e estudou Medicina na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real e Lamego, vindo agora para Beja para a formação específica em Medicina Interna, que se prolongará por cinco anos. Pormenoriza: “É uma especialidade hospitalar, pelo que os cinco anos serão feitos sobretudo em Beja. Temos formação de 18 meses fora da especialidade, para complementar a formação, seis meses de Medicina Intensiva, que será feita também no hospital de Beja, e outros 12 meses fora. Trata-se de complementar a formação em áreas como Cardiologia ou Neurologia. Por agora, portanto, ficarei aqui pelo menos um ano e meio seguido ou dois, depois mais três”.

 

Já conhecia o Alentejo, vinha a Beja de férias, por motivos familiares, “a minha mãe tem uma grande amiga nas Neves e passávamos cá muito tempo”. As primeiras impressões são muito positivas: “As pessoas são extremamente simpáticas, no serviço há um bom ambiente de trabalho. Estou a gostar, embora este só seja o terceiro dia de trabalho, estamos a conhecer a equipa, os doentes, o hospital. Na formação específica, em função da especialidade, os internos têm um orientador”.

Ficar a trabalhar em Beja? “É uma possibilidade, para já permanecerei aqui cinco anos”. Outro alentejano do grupo, David Mestre, nasceu em Serpa, tem ali a família. Fez a formação geral em Lisboa e resolveu retornar ao Alentejo para fazer a formação especializada: “Sou interno de Medicina Intensiva e faremos uma parte da formação aqui no hospital de Beja e outra parte em diferentes hospitais, de Lisboa e do Porto”. Sobre a falta de médicos e as condições de fixação de médicos: “Uma das questões é a acessibilidade. Seria mais fácil virem mais médicos se houvesse, por exemplo, uma autoestrada que ligasse Beja e Lisboa. Outro aspeto tem a ver com as condições de trabalho dos profissionais”.

 

Quanto à possibilidade de, uma vez terminada a sua formação específica, ficar a trabalhar no Alentejo, “está tudo em aberto”. Lembra que ainda está numa fase muito inicial e sublinha que a falta de médicos no interior “não é uma questão de salário, já que no Serviço Nacional de Saúde (SNS) os níveis salariais são mais ou menos uniformes em todo o País, com raras exceções”.


FORMAÇÃO NO HOSPITAL DE BEJA CRIA POSSIBILIDADE DE FIXAÇÃO DE MÉDICOS

“O contributo dos médicos internos para o hospital de Beja é fundamental”, quer porque estimula a dinamização dos serviços clínicos, quer, sobretudo, porque abre a possibilidade de fixação de médicos na região. A opinião é de Vera Guerreiro, médica no Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja, e diretora do Internato Médico Hospitalar, falou ao “Diário do Alentejo”: “É sempre importante virem pessoas novas para um serviço, sobretudo de Medicina, ciência em atualização permanente. É bom chegarem pessoas novas, que estiveram a trabalhar noutros sítios, que têm outras experiências, que viram as coisas a funcionar de outra forma. Aqui, o médico que dá a formação também sente a obrigação de estar atualizado, pelo que a presença dos internos é um estímulo. Além disso, eles vêm aprender mas também vêm trabalhar, o que é um contributo para o funcionamento dos serviços.

 

O trabalho deles é essencial. Nós temos falta de médicos, pelo que a ajuda dos internos é uma força de trabalho importantíssima para o funcionamento do hospital de Beja. Mais do que isso tudo, o termos aqui formação é a única hipótese de conseguir captar alguns desses médicos, para depois, no fim da especialidade, cá ficarem. Continua a ser muito difícil, mas os poucos especialistas, sobretudo em Medicina Interna, que nos últimos anos têm cá ficado são dos que aqui fizeram a formação. As pessoas conhecem a instituição, conhecem a cidade, estabelecem relações, quer pessoais quer profissionais, e isso é o primeiro passo para elas aqui se fixarem. Se nós não tivermos essas vagas para formação de especialidade, então as hipóteses de fixação de especialistas são muito diminutas”.

 

Vera Guerreiro explica o processo de formação dos médicos internos na Ulsba: “A formação geral é de 12 meses e o contrato cessa ao fim desse tempo. Os médicos vão-se embora, a não ser que escolham uma especialidade também cá. Na formação geral, passam por diversas valências: quatro meses em Medicina Interna, dois meses em Pediatria e três meses em Cirurgia, tudo valências hospitalares, e, depois, três meses em Medicina Geral e Familiar, nos centros de saúde, de Beja e outras localidades na área da Ulsba. Já a formação de especialidade varia entre quatro e seis anos, sendo que o vínculo com a Ulsba dura todo esse tempo, pelo que até ao fim da especialidade os médicos ficarão na região, ainda que possam passar em outros hospitais alguns períodos, em valências que não existem no hospital de Beja. Mas são sempre nossos internos”. O “grande problema”, acentua, “é que, finda a especialidade, quando eles passam a ser assistentes hospitalares, há um concurso e aí é que nós temos grandes dificuldades em captar os médicos já formados, que já são especialistas, de modo a que fiquem na Ulsba”.

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