Diário do Alentejo

Alunos do IPBeja vão viver em São Brissos e ajudar aldeia

22 de novembro 2019 - 11:10

Há uma aldeia que está prestes a ser “invadida” por estudantes do IPBeja. Esta aldeia é São Brissos e o que se pretende, com o alojamento destes estudantes na antiga escola primária, é devolver vida a esta população e dividir os “ganhos” da vinda dos alunos que chegam, anualmente, à cidade de Beja para estudar. Missão: partilhar e receber conhecimentos. Numa verdadeira interação e intercâmbio entre diversas gerações. Porque em São Brissos o que está a nascer é mais do que uma residência para estudantes, é um projeto social.

 

Texto Bruna Soares Fotos José Ferrolho

 

Há uma escola, em São Brissos, que há anos que está desativada. Crianças já ali não correm, embora, tendo em conta a população da aldeia, até existam em número representativo. “Vivem mais de 50 pessoas nesta terra”, atira uma habitante. Na terra que tem o aeroporto de Beja aos pés. “Perto de 20 são crianças. É um bom número”.


“Quantas ruas terá a aldeia”? Quem o questiona são os alunos agora chegados numa carrinha do Instituto Politécnico de Beja (IPBeja). Há um homem, de boné envergado, que alvitra imediatamente: “Umas cinco”. E completa: “Mas temos café, junta de freguesia aberta, uma padaria e um restaurante”.


Nas ruas, empedradas com calçada e ladeadas por casas baixas, vão-se avistando habitantes. Pessoas que saem e entram, ora do referido restaurante, ora do referido café, e mulheres que se assomam às portas. Gente que se junta também pela curiosidade da chegada de uma carrinha com jovens dentro. “São estas rapariguinhas que vêm para cá viver?”, interroga Delfina Rosário, 89 anos feitos, conhecedora da novidade que rapidamente se espalhou aldeia fora.


É que na escola, onde os alunos da terra já não se sentam para aprender as primeiras letras, a ler ou fazer contas de somar e de subtrair, vão começar a viver estudantes do IPBeja. E eis que os que chegam, na verdade, numa carrinha para uma primeira visita a São Brissos, serão, em breve, os seus novos habitantes.


Integram o projeto “Estudantes na Aldeia”, fruto de um protocolo celebrado entre o IPBeja e a União de Freguesias de Trigaches e São Brissos. Um projeto, porém, que “não são camas e alojamento. É, sim, interação social”. Quem o afirma é Eduardo Pelado, responsável local por esta iniciativa e primeiro vogal da referida união de freguesias.


Na escola encerrada, à partida, não se avista ninguém, mas escutam-se ruídos vindos do seu interior. É um berbequim a furar as paredes. E, uma vez lá entrados, são obras ininterruptas que se encontram e a prosseguir a bom ritmo. Obras, estas, que se espera que estejam concluídas ainda antes do Natal. Por esta altura, já a escola deverá estar, assim, transformada em residência.

“A colaboração com as freguesias rurais, em particular com a União de Freguesias de Trigaches e São Brissos, surge como a resposta natural e adequada à necessidade de disponibilizar alojamento aos nossos estudantes, à responsabilidade social da instituição e como um contributo, de cariz solidário e comunitário, para o desenvolvimento da região em que se insere e de abertura à comunidade". Paulo Cavaco

“Este projeto não tem como propósito resolver os problemas de alojamento. Pretende-se dar uma resposta inovadora, criativa, responsável e solidária a um desafio da região e apresentar propostas que possam ser replicadas noutros lugares no sentido de melhorar a vida das populações e o desenvolvimento da região”, explica agora Paulo Cavaco, administrador dos Serviços de Ação Social do IPBeja. Por isso afirma: “A colaboração com as freguesias rurais, em particular com a União de Freguesias de Trigaches e São Brissos, surge como a resposta natural e adequada à necessidade de disponibilizar alojamento aos nossos estudantes, à responsabilidade social da instituição e como um contributo, de cariz solidário e comunitário, para o desenvolvimento da região em que se insere e de abertura à comunidade. Simboliza ainda a capacidade de cooperação entre instituições públicas, com ganhos recíprocos, em prol da região e das pessoas, de aproveitamento de recursos e de atenção às populações”.


Assim, a assinatura de um protocolo desta natureza, segundo Eduardo Pelado, significa “a possibilidade de elevar para níveis ótimos o papel da cooperação entre uma autarquia local e uma instituição de ensino superior”. Mas significa, simultaneamente, “a possibilidade de dar a experimentar aos alunos do IPBeja as vivências do meio rural e, em particular, da ruralidade do Alentejo”. E depois, também, “em certa medida, permite que a freguesia participe na atividade, na dinâmica e na vida do IPBeja, seja por acolher os seus alunos, seja por lhes permitir viver em condições de excelência, confiando que essa possibilidade permita aumentar conhecimento e competências sociais aos alunos”. O que só pode significar “uma oportunidade de crescimento. E crescimento é uma das bases e via para o desenvolvimento”. É por isso que defende: “Este conceito é muito maior do que o espaço físico de uma residência”.


Este conceito, segundo Paulo Cavaco, tem a ver com “o interesse em facilitar e promover a devolução de vida da juventude às populações mais envelhecidas e partilhar com a comunidade ganhos e valores da chegada de centenas de jovens ao distrito e à cidade, muitos já com experiência e práticas de voluntariado e responsabilidade social, colocando essa experiência e esse altruísmo ao serviço dos outros, em especial dos que mais podem beneficiar dessas experiências, transformando uma fragilidade numa oportunidade”.

"Permite que a freguesia participe na atividade, na dinâmica e na vida do IPBeja, seja por acolher os seus alunos, seja por lhes permitir viver em condições de excelência, confiando que essa possibilidade permita aumentar conhecimento e competências sociais aos alunos”. Eduardo Pelado

João Lima, de 19 anos, será um dos estudantes que integrará este projeto e também ele começa, agora, a estabelecer os primeiros contactos com a população de São Brissos. “Vim de uma cidade grande, de São Paulo, no Brasil, de propósito para estudar no IPBeja, em Portugal. E acho este projeto muito interessante. Nunca vivi numa terra assim tão pequena. Eu morava numa grande capital. É totalmente diferente e só posso agradecer esta oportunidade. Eu gosto de estar no campo, estudo Agronomia. Gosto de conversar com as pessoas e da convivência. Acho o lugar muito bonito e tranquilo e estou ansioso para começar esta experiência”.


“Você é brasileiro? Mas olhe que você não fala como os brasileiros. Não tem aquele sotaque”, atira, imediatamente, Delfina Rosário. Aquele sotaque que está habituada a ouvir pela boca dos atores que lhe entram casa adentro através das telenovelas brasileiras que tem, também, como companhia.


Delfina ouve, assim, com atenção o que João tem para lhe dizer e fica a saber que pretende criar no logradouro da escola uma horta comunitária. “Eu quero dar o meu contributo, quero enriquecer a minha experiência académica e quero ajudar as pessoas que nos vão acolher. Quero deixar aqui alguma coisa do que aprendi, mas quero, sobretudo, aprender o que me têm a ensinar”.


Do campo, e da lida da horta, percebe bem Francisca Martins, que apesar da sua idade ainda faz todos os dias o caminho até ao bocado de terra que semeia para colher. “Nunca fui muito preguiçosa, nem de ficar parada. Já sou velhota, mas sinto-me capaz e gosto de estar no campo”, conta. “Espero que estes jovens venham trazer vida a esta terra. É bom também que possamos contar com eles, parece-me bem”, finaliza.

 

E rapidamente Ana Isabel Fernandes, de 20 anos, natural de Granja, que frequenta o 3.º ano de Enfermagem no IPBeja, aproveita para explicar: “Queremos fazer atividades convosco, que venham ter connosco aqui à residência, para fazermos uns lanchinhos também, mas saudáveis”. “Pode contar com a gente”, assegura, desde já, Delfina Rosário. E conclui: “O que nós precisamos aqui na nossa terra é de gente que nos traga convívio e movimento. Porque muitas vezes estamos muito sozinhos”.


Ana Isabel está carregada de expetativas: “Sempre foi um projeto que tive interesse em ingressar. Pelo facto de poder dar contributos a uma aldeia, dando o melhor de mim, e por poder conhecer o melhor que aqui há. Acaba por ser um projeto de troca mútua de conhecimentos com os cidadãos. Todos nós, os estudantes voluntários, temos os mesmos objetivos. E, em conjunto, teremos oportunidades únicas para desenvolver atividades na aldeia, proporcionando motivação e obtendo ganhos a vários níveis”. É, por tudo isto, que diz: “Todas as minhas expetativas são boas, porque estou muito motivada em conseguir fazer a diferença na vida de alguém, nomeadamente, através de pequenos detalhes”.

“É no contacto com as pessoas que nós podemos ganhar mais. Porque existem muitos profissionais competentes nas suas áreas e funções, mas que depois lhes falta o contacto humano. E esta experiência pode enriquecer-nos muito a esse nível, porque é importante a parte académica, mas depois a parte social também o é. E este projeto proporciona isso". Ana Estêvão

Na mesma carrinha em que chegaram João e Ana, chegou também Ana Estêvão, que tem 20 anos, e que veio de Vila Real de Santo António para Beja para tirar um curso em Cuidados Continuados. “Vocês vão ter de nos ajudar por aqui também. Não somos só nós que vimos fazer atividades para dinamizar um pouco a aldeia. Vocês também têm de nos ensinar a fazer coisas. Sabe fazer bolos?”. Idalina e Francisca acenam positivamente com a cabeça. E Ana Estêvão diz: “Então têm de me ensinar”.


“É no contacto com as pessoas que nós podemos ganhar mais. Porque existem muitos profissionais competentes nas suas áreas e funções, mas que depois lhes falta o contacto humano. E esta experiência pode enriquecer-nos muito a esse nível, porque é importante a parte académica, mas depois a parte social também o é. E este projeto proporciona isso. Eu quero que as pessoas sintam abertura para me deixar entrar na sua vida, porque eu ganhei a sua confiança, como eu as quero na minha vida, para que me possam ensinar mais. O que espero é fazer muitos e bons amigos”, refere Ana Estêvão, com assento “circunflexo no ê”, como insiste em dizer. “É real que temos muito a aprender. Temos oportunidade de conhecer aqui vivências que não são as nossas e esta gente tem muito a contar-nos”, diz.


Como é que uma medida desta natureza pode, então, ser determinante para a dinamização das pequenas aldeias? “Acreditamos que esta poderá constituir uma medida importante, mas não a única, para essa dinamização. Com ela será possível vencer preconceitos, mostrar caminhos alternativos e fazer prova de que os jovens querem e se sentem confortáveis a residir e a dinamizar essas pequenas aldeias, e que podem, a par da formação científica e académica que recebem na instituição, crescer como pessoas no local onde residem, sendo úteis e contribuindo, ativamente, para o bem-estar dos outros, e aprendendo com os mais velhos, com as tradições e com a riqueza do saber de experiência feito”, considera Paulo Cavaco. Enquanto Eduardo Pelado acrescenta: “A fórmula da fixação de pessoas às localidades, invertendo o ciclo de despovoamento, não nos é totalmente conhecida, caso contrário já estaria a ser aplicada. Contudo, jogamos no campo das probabilidades aumentadas. Se temos mais pessoas a residir, mesmo que temporariamente na freguesia, se essas pessoas gostarem da experiência, são mensageiras ótimas dessa experiência na primeira pessoa, talvez mais do que um spot publicitário. Tentar fixar novos habitantes nas nossas aldeias é um caminho que percorremos, ano após ano”.


Porque a par desse combate, “nobre e necessário”, do despovoamento, o IPBeja acredita, segundo Paulo Cavaco, que “está a proporcionar aos seus estudantes uma oportunidade única de crescimento e maturidade, de aprendizagem em contexto real, e de transmissão de valores e referências que serão, no futuro, decisivos para a sua afirmação”. Porque “este projeto coloca as pessoas no centro do processo educativo e constitui a afirmação real, dinâmica das palavras integração, comunidade e formação”.


O homem de boné envergado que respondeu aos jovens, aquando da sua chegada na carrinha do IPBeja, foi Joaquim Batista, habitante da aldeia. E é ele que termina, para já, este primeiro dia do resto da vida que se seguirá em São Brissos: “É de alegria, de alegria, que a gente aqui precisa. Que essa alegria chegue com esta juventude”.

Estudantes com “perfil adequado” à integração

A residência para estudantes do IPBeja em São Brissos deverá estar em pleno funcionamento a partir do segundo semestre do presente ano letivo, a partir de março de 2020, optando-se, até lá, de acordo com Paulo Cavaco, por “assegurar um período transitório que acautele a integração responsável e progressiva dos jovens na aldeia”. A escolha de São Brissos teve a ver com a proximidade à cidade. O IPBeja, ainda segundo o administrador dos Serviços de Ação Social, “há muito que desenvolve uma cultura de proximidade e de identidade com os seus estudantes. Fruto desse trabalho, os serviços identificaram um conjunto de estudantes com o perfil adequado à integração neste projeto: jovens dinâmicos, responsáveis, com experiência de trabalho solidário e comunitário, que frequentam cursos diferentes das escolas do IPBeja, o que permitirá colocar ao serviço da população todo esse saber e potencial, com respeito pelos tempos, identidade e bem-estar das populações”. Os estudantes irão deslocar-se por meios próprios, transportes coletivos e da própria instituição.

 

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