Diário do Alentejo

Caixinha: “Beja será sempre o meu porto de abrigo”

28 de outubro 2019 - 11:00

Os filhos, o futebol e a festa brava são a trilogia de Pedro Miguel Faria Caixinha, um bejense nascido em novembro de 1970. Caminha para quase meio século de uma vida de luta, preenchida por tornar realidade tudo quanto foi a arquitetura dos seus maiores sonhos.

 

Texto e Fotos Firmino Paixão

 

Começou a jogar futebol, de uma forma informal, na equipa de “O Portão”. No posto de guarda-redes, fez um curioso percurso por clubes da sua região, até chegar ao Portimonense, privilegiando a amizade, em comunhão com a humildade e o respeito pelo próximo, argumentos que o têm acompanhado ao longo da carreira de treinador, que construiu depois de formação académica específica no extremo oposto ao seu habitat natural, em Vila Real de Trás-os-Montes. Teve sorte? Não! A sorte procura-se e manifesta-se pela competência, pela atitude e resiliência. Pedro Caixinha voltou ao seu porto de abrigo, no intervalo de compromissos. Passou pelo Sporting, ao lado de José Peseiro, e, com ele, aventurou-se pela Arábia Saudita, Grécia e Roménia. Já a solo, depois de Leiria e Funchal, rumou ao México, ao Catar, à Escócia, e regressou ao futebol mexicano para se tornar no único treinador a ganhar todas as competições do país. Hoje, em tempo de reflexão, aguarda novo compromisso.

 

Têm sido anos muito intensos, a nível pessoal e profissional?
Graças a Deus, gosto de viver a vida dessa maneira e a vida tem-me dado essa experiência e essa possibilidade. Posso considerar que tem sido uma vida intensa, mas é assim que eu gosto de a viver e assim espero continuar por mais alguns anos.

 

Sente-se recompensado por todas as vivências que esta forma de vida lhe tem proporcionado?
Totalmente. Penso que existem sempre benefícios e custos em relação a tudo o que é a vida. Os benefícios foram a realização do sonho que era trabalhar a este nível, sobretudo, conquistando troféus e trabalhando no estrangeiro. Tinha essa ambição. Os custos têm a ver com a distância das minhas raízes. Não poder conviver todos os dias com a família. Lembro-me perfeitamente de quando saí a primeira vez para o estrangeiro o meu filho Rodrigo tinha menos de cinco anos, hoje já está na faculdade e eu não acompanhei esse percurso. À Maria faltam três anos para chegar a essa meta, e eu, praticamente, não acompanhei o processo. São os custos que esta vida tem, para podermos vivê-la com essa intensidade, mas depois existem outros benefícios, a satisfação da nossa própria paixão e poder também dar outra qualidade de vida à família, mesmo estando distante dela.

Começou a jogar futebol aos 14 anos. Tem partilhado essas recordações com os filhos?
Sim, mas, infelizmente, por essa não proximidade, ou por não poder estar com eles todos os dias, muitas dessas coisas não se partilham. Andámos quase como saltimbancos por tantos lados, quer no País, quer no estrangeiro. O meu filho Rodrigo nunca teve uma prática desportiva formal, nem pude partilhar o que era a Zona Azul naqueles torneios da antiga DGD (Direção Geral dos Desportos) que tínhamos ao fim de semana, no campo do liceu. Tudo começou com a equipa do “Portão”, esse sim, foi o passo para a Zona Azul. Mas por nunca estarmos radicados num só local, foi difícil o Rodrigo ter uma prática desportiva. A Maria tem já uma cultura desportiva diferente. Gosta mais de desporto. O único lugar onde vi o Rodrigo com capacidade e alguma paixão pelo desporto foi quando estivemos na Escócia, através do rugby. Foi difícil passar para os meus filhos aquilo que é a minha cultura desportiva e a minha vivência profissional nesta área.

 

O Pedro jogava a guarda-rede, não podia marcar golos de canto direto como o seu pai fazia no Desportivo de Beja.
Não, isso não. Mas sempre gostei muito de treinar e da intensidade do treino, sem nunca ter treinado de forma séria para o lugar de guarda-redes. Tinha algumas qualidades, mas era baixinho para o posto e, quando cheguei ao Sporting, como adjunto do Peseiro, o treinador de guarda-redes era o Justino, que hoje está na seleção, e, em alguns momentos em que participava nos treinos, quando faltava um guarda-redes, eu assumia o lugar, mas eles diziam que eu parecia mais um matraquilho do que um guarda-redes. Foi interessante passar por essa experiência.

 

Foi por influência do seu pai que escolheu o futebol?
Não só o futebol, também nos touros, ou seja, há uma identificação com aquilo que o nosso progenitor faz e que nós acompanhamos. Uma coisa totalmente diferente do que eu fiz com os meus filhos. Lembro-me de acompanhar os treinos do meu pai, nos intervalos dos jogos ia lá beber o chazinho, acompanhava de perto esses momentos.

 

Como jogador representou vários clubes, uns mais modestos, outros mais representativos…
Tinha mais a ver com ligações de amizade. Eu tinha um sonho, como todos os miúdos que jogam futebol desde jovens. Queria ser jogador de futebol. Ainda estive no Portimonense numa época em que consegui estar integrado naquilo que era o teto dos guarda-redes, onde estava também o Abelha, que se radicou em Castro Verde, o Figueiredo, atual treinador de guarda-redes com Sérgio Conceição, mas regressei a Beja e diluiu-se um pouco o sonho de continuar a ser jogador. Fui para o Ourique por amizade ao Caçoila, para o Penedo Gordo por convite do Mário Engana. Foi um pouco assim a minha carreira como jogador, até que fui estudar.

 

Licenciou-se em Desporto na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real. Foi essa a luz que iluminou este caminho?
Quando cheguei a Vila Real tinha muita curiosidade em relação ao que era a parte mais cognitiva, mais teórica, na preparação do treino. Gostei muito daquilo que estava a estudar. A partir do 3.º ano veio a opção de futebol e tive o primeiro contacto com o centro de treino, que estava organizado na licenciatura. Comecei a gostar muitíssimo do treino e a preparar-me cada vez mais. Quando regressei a Beja, a convite de Carlos Sanina e de João Crujo, tendo também a felicidade de ter um grupo fantástico de jogadores, onde estava Pedro Sanina, João Vilão, Ricardo Vargas, entre outros, uma equipa fantástica, conseguimos fazer um trabalho interessante e desde aí aprendi uma coisa muito importante no futebol: quando se tem um grupo de bons jogadores o trabalho também fica mais facilitado.

 

Entretanto, também quis ser forcado, à semelhança do seu pai?
Bem, o meu pai tentou colocar-me à frente das vacas a partir dos cinco anos. Nessa altura não temos noção de nada. Tenho ideia de que entre os cinco e os nove anos tive duas ou três experiências, até que, com o meu grupo de amigos da rua 25 de Abril, começámos a andar atrás das garraiadas nas festas de aldeia. Uma vez, em Beringel, com os meus 16 ou 17 anos, fui experimentar e peguei duas vacas. Depois fui treinar com o Grupo de Montemor-o-Novo e lá fiquei durante 12 anos. Em maio de 1990 fardei-me, pela primeira vez, na praça de Toiros Varela Crujo, em Beja.

 

Ficou célebre o seu gesto numa corrida em que se deitou sobre o corpo do seu pai para evitar que ele fosse colhido…
Foi numa corrida de homenagem ao Manuel dos Santos, no Campo Pequeno. Era o Grupo de Montemor e uma seleção de antigos forcados. O meu pai convidou-me para ir à primeira, convidou-me numa outra, nessa tive de ir dobrá-lo, e tive de dizer: pai já chega por aqui… sou do Grupo de Montemor e já não estou para andar mais nestas coisas.

 

No futebol, como na festa brava, tende a estabelecer-se uma certa analogia entre o Pedro e o seu pai. Orgulha-se disso ou é algo que o incomoda?
Obviamente que me orgulho de ter essa referência do meu pai, relativamente ao mundo do futebol e dos toiros. Mas houve um momento em que teve de existir uma cisão, ele é o João, eu sou o Pedro. Cada um tem o seu caráter, a sua personalidade e maneira de estar na vida. Tenho pontos de vista diferentes dos dele e foi isso que, em determinado momento, tive que marcar. ‘A vida é minha, tu já viveste a tua, agora sou eu que quero viver a minha e à minha maneira’. Mas isso, por vezes, é incómodo. Mas é importante termos caráter, para sabermos marcar essa separação das coisas e não sentirmos pressão daquilo que é o pai, numa área ou noutra, e querer ver refletivo o trabalho que ele fez naquilo que o filho possa vir a fazer. Foi importante marcar essa cisão, mas a referência dele sempre esteve presente.

 

Chegou ao Sporting como adjunto de José Peseiro e dali seguiu-se Grécia, Roménia, Arábia Saudita…
Foi um período de aprendizagem fantástica. Uma oportunidade excelente que primeiro me foi concedida pelo professor Pedro Mil Homens, nesse tempo diretor da Academia do Sporting (hoje no Benfica). Uma pessoa fantástica, que conheci num momento importante da minha vida, quando fiz o mestrado na Faculdade de Motricidade Humana. Orientou-me na tese de mestrado e possibilitou-me trabalhar com o Fernando Santos, através de análise de adversários, juntamente com o professor Júlio Garganta, eu mais a sul, ele a norte. Poder estar com os melhores foi importante para consolidar as múltiplas tarefas que tinha na análise de jogo e no controlo do treino.

 

Como técnico principal estreou-se em Leiria, passou pelo Nacional da Madeira e depois iniciou essa aventura mexicana onde venceu os quatro títulos possíveis naquele país…
Tivemos a felicidade de sermos o primeiro treinador a fazer o poker. As competições no México são muito interessantes, muito intensas e também muito difíceis. A organização é totalmente diferente da que temos cá. Em 2015, com o Santos Laguna, ganhamos a Liga MX Clausura, ganhámos a Copa Apertura com o Santos e com o Cruz Azul, tivemos também a felicidade de ganhar a Supercopa e o título de Campeón dos Campeones, por isso, fomos os primeiros a ganhar, no México, todas as competições existentes naquele país.

 

A vida é feita de oportunidades, aproveitadas ou perdidas, nada acontece ao acaso. O seu percurso corresponde àquilo que têm sido as suas escolhas?
Sem dúvida. Com o trabalho que tem sido feito os contactos têm aparecido naturalmente. No mundo do futebol, toda a gente tem um representante, eu tenho a sorte de contar com Nuno Batista, que me auxilia, de uma maneira muito profunda, quanto aos termos contratuais, porque os contactos, normalmente, são feitos mais diretamente comigo, algumas vezes também com ele, mas em termos contratuais é ele que gere toda a minha carreira.

 

Tornou-se mais exigente para com os desafios que lhe propõem?
Estou num momento em que é importante refletir, é importante estar tranquilo, para decidir bem qual será o próximo passo em relação ao futuro. Penso que quero continuar a trabalhar lá fora. Tenho construído a minha carreira lá fora e em particular no futebol mexicano. Existe um mercado paralelo, que é o do MLS (liga norte-americana), onde tenho também alguns contactos e estou tentado, pelo menos curioso, em procurar uma oportunidade por lá, por isso estou expectante e estou em contactos para ver qual será o próximo passo.

 

Os treinadores portugueses têm de emigrar para terem o sucesso que o País lhes nega?
Penso que esse é um processo normal. Eu tive a minha oportunidade em Leiria e no Nacional e depois tive a minha oportunidade no Santos Laguna. Penso que o percurso que os treinadores em Portugal fazem é para chegarem a um clube grande. Primeiro fazem um trabalho consolidado numa equipa média, em duas ou três épocas, e depois, a partir daí, têm chegado aos grandes. Eu tive de sair para fazer o meu percurso, é algo comum ao que o treinador português faz hoje em dia.

 

A sua saída do Cruz Azul coincidiu com a saída de Marcel Keizer do Sporting? Foi convidado para assumir esse lugar?
Coincidiu com esse momento temporal e, provavelmente, falou-se nisso por ter existido essa coincidência, mas nunca tive qualquer tipo de abordagem do Sporting Clube de Portugal.

 

Vem a Beja em visitas muito fugazes. A sua cidade já não é o seu porto de abrigo?
A minha é o meu porto de abrigo, sem dúvida. É aqui que tenho a minha casa, é aqui que vou construir uma casa de raiz, e a cidade de Beja será sempre o meu porto de abrigo.

 

Vai manter-se no “desemprego” até quando?
Penso que muito em breve estarei a trabalhar. Olhando para o historial que tenho, desde que foi a transição de Leiria para o Nacional, daqui para o Santos Laguna, depois para o Catar, daí para o Rangers e depois para o Cruz Azul, nunca tardei mais do que dois a três meses para voltar a trabalhar e penso que, nesta altura, as coisas acontecerão de forma semelhante até voltar de novo ao trabalho.

 

O que faz nestes intervalos de inatividade?
Faço reflexões, analiso, faço preparações para entrevistas. Desde que sai de Portugal todos os processos para ter um novo trabalho são através de entrevista. E o que eu faço normalmente, sempre que existem esses contactos, é preparar-me para os processos. Analiso jogos da liga portuguesa, da liga dos campeões, continuo ligado ao futebol e a analisar aquilo que são as novas tendências do jogo.

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