Diário do Alentejo

A terra do distrito onde a abstenção bate recordes

04 de outubro 2019 - 14:20

Em Póvoa de São Miguel, nas últimas eleições legislativas, registou-se a maior taxa de abstenção do distrito de Beja. Nas Europeias, que aconteceram recentemente, os números, no que a esta realidade diz respeito, ainda foram maiores. E o “Diário do Alentejo”, à beira do próximo ato eleitoral, foi perceber os motivos que levam a que, nesta freguesia, não se vá às urnas, e esses chegam, agora, pela boca de quem lá vive e vota, ou não.

 

Texto Bruna Soares Foto José Ferrolho

 

Póvoa de São Miguel. Eis a terra onde, nas últimas eleições legislativas, em 2015, menos se votou no Baixo Alentejo. Uma freguesia que tem 18 694 hectares e que, em área total, é a maior do concelho de Moura. Acontece que, por estas paragens, dos 808 inscritos, apenas 321 votaram, dando à terra a maior taxa de abstenção do distrito de Beja, superior a 60 por cento.


Números, estes, que nas últimas eleições europeias, que se realizaram no passado dia 26 de maio, aumentaram, no que a esta taxa diz respeito. Dos 734 inscritos, em Póvoa de São Miguel, apenas 119 se dirigiram às mesas de escrutínio eleitoral. A percentagem de votantes fixou-se, assim, apenas nos 16,21 por cento.


“Em meu entender, esta situação deve-se a vários fatores. Temos de ter em conta várias razões, que vão desde a formação à cultura, e temos de perceber também que esta é uma terra do interior, onde as pessoas não são muito dadas às questões políticas. Não é um assunto que lhes interesse muito. E muitas vezes é apregoado o chavão de que os políticos só são ‘isto e aquilo’. E depois a população também, cada vez mais, está mais idosa”. Quem o explica é António Montezo, presidente da Junta de Freguesia de Póvoa de São Miguel, que recolheu, nas últimas eleições autárquicas, 51,96 por cento dos votos. Precisamente no ato eleitoral em que, por norma, nesta terra, menos abstenção existe.

“Aqui há muita gente já com uma certa idade que não se desloca às mesas de voto e depois existem outras pessoas que estão muito saturadas da política. Que estão desiludidas e descrentes. Acho que perderam a confiança nos políticos”

A conversa passa agora para o largo da terra e quem pega no assunto é Martinho Lavado, mais conhecido por “Duque”, nado e criado em Póvoa de São Miguel. “Aqui há muita gente já com uma certa idade que não se desloca às mesas de voto e depois existem outras pessoas que estão muito saturadas da política. Que estão desiludidas e descrentes. Acho que perderam a confiança nos políticos”, sentencia. Mas acrescenta: “Para as Europeias a maioria não vota, para o governo é mais complicado e para a câmara e para a junta é quando o povo vota mais. Porque é para o concelho, porque se está mais por dentro das questões e das situações, porque se conhecem as pessoas e há uma maior vontade de ir votar”.


E rapidamente José Alvares, outro habitante da terra, diz: “Eu voto sempre, mas cada vez mais aqui as pessoas votam menos e não sei por que motivo não o fazem. Mas ninguém as pode obrigar a votar. Isto é mesmo assim. Se entenderem não votar, não votam. Eu acho, no entanto, que era importante que o fizessem. Alguns votam para a câmara, mas depois para o governo já não vão”.


“As pessoas distinguem bem os atos eleitorais, embora a taxa de abstenção seja sempre elevada. As eleições autárquicas são, sem dúvida, as mais participadas. Depois, é preciso frisar que as campanhas eleitorais, para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para Presidência da República, muitas vezes, passam à margem destas pequenas terras. E até para as eleições autárquicas é difícil, aqui, fazer-se uma ação de rua com peso, porque, de facto, em Póvoa de São Miguel, as pessoas não aderem muito. As pessoas são partidárias, como são do Benfica, do Sporting ou do Porto. Mas depois não se envolvem muito”, prossegue o autarca.


E a prová-lo estão três homens, que preferem não ser identificados, que afirmam que não votam. “Vamos votar porquê? São só mentiras”. E outro diz: “Eu não percebo nada de política e não quero”. E o terceiro remata: “Os políticos são todos iguais. Aquele mente muito e o outro ainda mente mais. Toda a gente devia ser obrigada a cumprir a jura. Fartam-se de fazer promessas, mas eu é que não vou nessa. Não voto em nenhuma das eleições. Opto por ficar calado”.

 

Nas últimas eleições legislativas, em Póvoa de São Miguel, o PS foi a força política vencedora, com 43,61 por cento, seguindo-se o PSD coligado com o CDS, com 37,07 por cento. A terceira força política mais votada foi o PCP coligado com o PEV, com 8,10 por cento.


No próximo dia 6 de outubro está tudo em aberto. As taxas e as contas, essas, só se farão no final. E a história que se seguirá será o resultado daquilo que o povo entender.

 

Onde mais se votou, em 2015, foi em Panoias e Conceição

Ao contrário do que aconteceu em Póvoa de São Miguel, a recordista da votação, nas últimas Legislativas, foi a freguesia de Panoias e Conceição, no concelho de Ourique. Aqui, 72,03 por cento dos votantes disseram presente e foram depositar o seu voto nas urnas.

 

Dos 547 inscritos, 394 foram cumprir aquele que é considerado um dever cívico. Aqui, contudo, à semelhança do que aconteceu em Póvoa de São Miguel, a força política vencedora também foi o Partido Socialista, seguindo-se o PSD/CDS e o PCP/PEV.

 

Já no que diz respeito aos votos em branco e nulos, a maior percentagem, no distrito de Beja, em 2015, verificou-se em Barrancos.

 

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