Diário do Alentejo

Gastronomia: À mesa com o jornalista António Catarino

09 de setembro 2019 - 12:00

Nasceu na Cuba, ia a década de 50 do século passado a meio; cresceu no Porto, mas tem pouco de tripeiro; fez carreira profissional em vários meios da imprensa essencialmente como jornalista na área do desporto; no entanto, nos últimos anos ganhou visibilidade nacional por causa de um curto programa de rádio que revela onde se pode degustar “comidinha bem feita”. Sem pretensões, mas com o tempero de quem conhece Portugal tão bem como a palma das suas mãos. Já ultrapassou o milhar de emissões e promete não ficar por aqui.

 

Texto Aníbal fernandes
Fotografia José Ferrolho

 

A conversa com António Catarino não podia acontecer noutro lugar que não fosse à mesa de um restaurante. No caso, na Adega da Lua, na Cuba, distrito de Beja, localidade onde nasceu há 64 anos.
A acompanhar os ovos com espargos, o presunto de porco preto, ou os pimentos assados, a conversa decorreu com inúmeros regressos ao passado, nomeadamente, ao período da adolescência de que guarda boas memórias. Desde as viagens de comboio para Beja, onde frequentou o liceu, até aos longos dias passados a correr atrás de uma bola com os amigos unidos num emblema por eles fundado: o Clube de Futebol “Os Piratas”.


Mas se desta agremiação não reza a história, já o Sporting Clube de Cuba traçou-lhe, de alguma forma, o destino, uma vez que a sua carreira como jornalista começou, exactamente, no “Diário do Alentejo”, com a publicação de crónicas dos jogos do clube da terra. O seu pai era colaborador do “DA” e passou-lhe o gosto pelos jornais. “A imprensa regional, desde que seja independente, tem uma importância capital: vai aos sítios, fala com as pessoas e conta as suas histórias. É isso que tem desaparecido do jornalismo”, diz António Catarino.

Com a autoridade que lhe é conferida por conhecer o País de lés-a-lés, diz que “hoje existem bons jornais regionais”. Ao contrário, a imprensa nacional “está delapidada de memória e conhecimento, e Portugal está igual, parece que é só Lisboa e Porto”. Apesar de o “TSF à Mesa” ser a razão imediata para esta conversa, António Catarino começou por ser conhecido do grande público, particularmente dos fãs do desporto automóvel, pela cobertura do Rali de Portugal, do Campeonato do Mundo de Fórmula 1, ou de várias outras provas automobilísticas, mas não só: o ciclismo é uma das suas outras paixões.
Trabalhou para jornais como “Comércio do Porto”, “Primeiro de Janeiro”, “A Bola”, “Motor”, “Volante”, ou as rádios “Rádio Renascença” e “Antena 1”, não esquecendo a RTP, nos anos 80, no programa “Rotações”, só citar os mais importantes.


Mas no início, foi o râguebi que o lançou na imprensa escrita. Começou como praticante no Clube Desportivo Universitário do Porto, e continuou a “jogar” nas redacções dos jornais, onde, apesar de se ter especializado em desporto, fez de tudo um pouco quando estava de “piquete”, desde o acidente de trânsito, até à cobertura da visita do Papa João Paulo II, por exemplo.
TSF à Mesa Por força da sua vida profissional, António Catarino conhece o País de Norte a Sul e do Litoral ao interior mais profundo. Se juntarmos a isso o gosto pela “comidinha bem feita”, está preparado o cozinhado para ser visto pelos camaradas de trabalho como “o gajo que sabe” onde se come bem e barato.

 

Em Setembro de 2014, o então director da TSF ligou-lhe a pedir conselho sobre o sítio ideal para comer leitão na zona da Bairrada. Paulo Baldaia – era ele o director – ficou de tal forma “comovido” com a refeição e o local indicado que considerou ser “serviço público” pôr em antena, e disponível a todos os ouvintes, o conhecimento de António Catarino.

Nasceu aí o TSF à Mesa, programa que passa na rádio, diariamente, de segunda a sexta, de manhã e ao fim da tarde. “É um formato que não é erudito, não é um programa de receitas e também não transforma a gastronomia num espectáculo”, diz o autor explicando que se trata “de um guia de restaurantes para o dia-a-dia, mais inovadores ou mais tradicionais, de sítios em que não se vende gato por lebre”. E, acima de tudo, que tenta contar um pouco da história de quem possa estar por detrás do negócio. É claro que nem sempre acerta: “Muitas vezes vou a restaurantes de que não vale a pena falar”, confessa. E como está a culinária portuguesa quando comparada com a de outros países? “Não lhes fica atrás, mas temos pouca auto-estima”. Apesar de tudo existem mudanças, “abolimos os farta-brutos, já não é esse o perfil dos restaurantes portugueses”, constata Catarino.


Quanto a Lisboa e Porto a arte dos tachos “regrediu e são cada vez menos as casas que mantêm o paradigma da cozinha tradicional”. No entanto, no geral, “no que toca à mesa, Portugal é um território agregador. A gastronomia vive muito das dificuldades de cada região, quanto mais pobre é a região maior é a capacidade inventiva”. É o caso do Alentejo que “cumpre, no essencial, as receitas tal com se faziam”, o que é bom, dizemos nós. Neste momento, em antena está uma espécie de best-off dos 1096 programas até aqui realizados. Estão todos online, na página da TSF, mas infelizmente não estão organizados por regiões, o que dificulta a consulta.


Por essa razão “há quem telefone para a rádio” para tentar descobrir um determinado local. Este problema tenderá a ser ultrapassado quando for editado o guia com uma “selecção nacional” de entre todos os locais visitados. Ainda não há data para a publicação, mas deverá ocorrer durante o próximo ano. Mas nem só os ouvintes estão atentos às crónicas comerísticas de António Catarino. Nos últimos dois anos, o TSF à Mesa foi nomeado pela Associação de Hotelaria, Restauração e Similares (Ahresp) para os prémios que distinguem os vários players do sector.


Até o livro estar disponível, para abrir o apetite, vá ouvindo diariamente na TSF ou consulte os programas no referido site (www.tsf.pt), já agora acompanhado de um bom vinho alentejano que António Catarino considera terem “grande potencial”, desde que cada um mantenha as suas característica e consigam resistir à tentação de desatarem “a fazer vinhos iguais”.

 

Um alentejano total “exilado” no Porto

Apesar de ter passado a maior parte da sua vida no Porto, António Catarino não têm dúvidas de que quem nasce alentejano será sempre alentejano. E, no caso dele, as raízes são de alto e do baixo. O pai, Francisco Alves Catarino, nasceu na zona de Montemor-o-Novo. Funcionário público, foi colocado na Cuba, local onde haveria de conhecer Maria da Conceição Horta e com quem havia de casar. Colaborador do “Diário do Alentejo”, fez a cobertura para o jornal dos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia, onde ficou amigo de Moniz Pereira. Por seu lado, a família da mãe, que já nasceu cubense, tem as suas origens em Vila Nova de S. Bento, Serpa.

Foi de lá que o avô paterno saiu ainda menino para trabalhar num depósito de tabaco, na Cuba, loja de que mais tarde se tornaria proprietário, e onde trocava umas lérias com Fialho de Almeida, um dos distintos clientes. António Catarino, benfiquista, nascido em terra de sportinguistas e a viver desde os 18 anos no reino do dragão, volta regularmente ao seu Baixo Alentejo. E para fazer a quadratura do círculo, em breve voltará à casa de partida, passando a publicar no “Diário do Alentejo” algumas das crónicas de que falamos no texto.

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