Diário do Alentejo

Aldeia Nova: A terra que reapareceu por culpa da seca

04 de setembro 2019 - 15:40

A culpa de ela ter voltado a emergir foi da seca. Da chuva que não caiu e que, por isso, deixou a barragem quase sem pinga de água. A albufeira do Monte da Rocha, em julho, segundo o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos, contava com 9,8 por cento de armazenamento. E foi por isso que ela, a Aldeia Nova de Ourique, voltou a aparecer, deixando agora vislumbrar o que dela sobrou. E é por isso que as gentes que nela habitaram agora a rememoram, para que a memória, essa, jamais se perca. 

 

Texto Bruna Soares Fotos José Ferrolho

 

Aquilo que lhe falta em edificado, sobra em lembrança. Porque a Aldeia Nova de Ourique, que ficou debaixo de água, no fundo da barragem do Monte da Rocha, aquando da sua construção, está ainda presente em todos os que nela habitaram. Na memória, nas vivências e na identidade de todos os nado e criados num torrão natal que, como dizem, “lhes arrancaram”, “lhes tiraram”. Para sempre. Em nome de um bem maior: da água em abundância para todos e para os campos. Em nome do desenvolvimento e do progresso. Do concelho de Ourique, da região, do Alentejo e do País.


A atestá-lo está a notícia, publicada no “Diário do Alentejo”, na inauguração da barragem do Monte da Rocha, a 11 de junho de 1972. O plano de rega do Alentejo estava, então, em marcha e a cerimónia foi presidida pelo chefe de Estado, o almirante Américo Tomás, que se fez acompanhar de mais dois membros do governo, o ministro das Obras Públicas, Rui Sanches, e o secretário de Estado da Agricultura, Vasco Leónidas.


E o ministro das Obras Públicas avisava: “À desigualdade da repartição especial das chuvas no continente, procura o Governo dar remédio com a criação de albufeiras de armazenamento, pois no caso do Alentejo a transferência de água entre bacias hidrográficas surge como única forma de lhe dar a água de que ele ainda carece para o seu desenvolvimento”.


Os discursos prosseguiram, mas sobre a Aldeia Nova de Ourique, em dia de inauguração, nem uma única palavra, nem uma única linha escrita. E, a essa data, já todos os moradores tinham saído. Porque a água houve um dia, inevitavelmente, que lhe chegou às soleiras das portas. Primeiro partiram uns. Depois outros, até ao dia em que não ficou ninguém.

“A não ser quem lá nasceu, cresceu e viveu, poucos sabem da existência desta aldeia. Ninguém sabe, ninguém se lembra. Mas esta é uma terra que a nós, que somos de lá, nunca nos saiu do pensamento e do coração, e transmitimos esse apego aos nossos filhos, aos nossos netos. Acontece que é um núcleo muito reduzido de pessoas, e se nada se fizer para a lembrar, para a recordar, vai perder-se para sempre, como se nunca tivesse existido”. José Dionísio

“São histórias muito tristes. No nosso tempo não houve o cuidado que houve com a aldeia da Luz, com a construção de Alqueva”, diz ao “Diário do Alentejo”, com a voz embargada, José Dionísio, saído da Aldeia Nova de Ourique com a idade de 15 anos. “A não ser quem lá nasceu, cresceu e viveu, poucos sabem da existência desta aldeia. Ninguém sabe, ninguém se lembra. Mas esta é uma terra que a nós, que somos de lá, nunca nos saiu do pensamento e do coração, e transmitimos esse apego aos nossos filhos, aos nossos netos. Acontece que é um núcleo muito reduzido de pessoas, e se nada se fizer para a lembrar, para a recordar, vai perder-se para sempre, como se nunca tivesse existido”, continua.


Desde que se reformou, José Dionísio tem tido um propósito: manter a memória da aldeia viva. Fez-lhe versos, estrofes. Verdadeiros textos poéticos. Escreveu para o papel aquilo que sente, o que se lembra, o que jamais esquece. As alegrias e as amarguras. Mas fez mais, andou por esses montes, por essas aldeias e vilas em busca de fotografias. De lá, do tempo em que a Aldeia Nova era aldeia. E conseguiu algumas. “Fiz o que pude, fiz o que achei que deveria fazer. É pouco, mas é melhor do que nada”, justifica agora, sentado num sofá de sua casa, em Aivados, no concelho de Castro Verde, acabado de chegar da terra de onde tem a sua residência permanente, Amadora.


Tudo o que escreveu e recolheu será publicado, brevemente, num livro, porque a Câmara de Ourique abraçou este seu projeto e dará à estampa as suas memórias, que são também as da Aldeia Nova.


“Era uma aldeia com bastante vivacidade. Havia bailes, mastros, dos mais famosos das redondezas. Quase todas as raparigas sabiam cantar, e que bem que cantavam. Parece que tenho o som das suas modas nos ouvidos. E depois, inevitavelmente, era uma das terras da viola campaniça, e aqui viviam reconhecidos e famosos mestres, como Manuel Bento e Francisco Bailão”, recorda. Para rapidamente acrescentar: “A convivência na aldeia, entre todos, era muito boa, todos se davam muito bem. Recordo-me de as mulheres andarem na monda e na ceifa e quando chegavam a casa havia a tradição de fazerem a rega das hortas, porque todas as casas tinham um pequeno hortejo. Hortas, estas, que confinavam com as traseiras das casas e porque havia abundância de água, porque a aldeia era como uma pequena península, cercada pelas ribeiras praticamente por todos os lados”.

"Eram uns 40 fogos. Mas viviam aqui mais de 100 pessoas, porque cada morada tinha muita gente dentro. Não chegámos aqui a ter água canalizada, mas tínhamos água com fartura, que as ribeiras estavam sempre cheias. Também não chegou cá a luz, mas se isto não tem ido tudo para dentro da barragem, tinha chegado. Já a estrada estava alcatroada, já havia telefone". Maria Cesaltina Bailão 

Acontece que as águas um dia chegaram em demasia com a construção da barragem e tudo foi inundado. E agora que voltaram a escassear, por culpa da seca, lá estão à vista as pedras que atestam a existência da Aldeia Nova. Até lá, há uma estrada estreita de terra batida, muitas vezes coberta por pasto. As ruínas da escola, uma das últimas construções feitas na aldeia, com o nível da água tão baixo, bem lá no cimo, são as primeiras que se avistam. E daqui, do ponto mais alto do antigo povoado, vão-se, aos poucos, vislumbrando mais desmoronamentos e fundações. Até lá abaixo, ao antigo moinho.


“Aqui eram uma casa muito grande, das melhores da aldeia, e depois era só esta rua, que ainda aqui se vê, e eram casas de um lado e do outro. Eram uns 40 fogos. Mas viviam aqui mais de 100 pessoas, porque cada morada tinha muita gente dentro. Não chegámos aqui a ter água canalizada, mas tínhamos água com fartura, que as ribeiras estavam sempre cheias. Também não chegou cá a luz, mas se isto não tem ido tudo para dentro da barragem, tinha chegado. Já a estrada estava alcatroada, já havia telefone”, diz agora Maria Cesaltina Bailão, antiga habitante de Aldeia Nova de Ourique, enquanto percorre o que resta da aldeia que teve de abandonar, dois anos antes da década de 70.


Maria Cesaltina arrancou com o marido e os filhos nos braços. Não esperou pelo derradeiro dia. “Olhe, tinha umas casas onde me enfiar e fui. Sabíamos que já não havia nada a fazer, estavam a fazer a barragem e era uma questão de tempo até a água chegar. E tantas vezes que a minha avó me dizia: ‘Falam da barragem há anos, isso já não chega cá no nosso tempo’. Mas, olhe, chegou”.


Nesta viagem no tempo e neste regresso à aldeia acompanha-a a irmã, Maria Inácia Bento, que completa: “Quando vimos cortar as árvores em redor da ribeira percebemos que já não havia nada a fazer. Percebemos que, mais tarde ou mais cedo, tínhamos de abalar. Mas a barragem levou alguns anos a fazer. E cada um foi para seu lado. Ainda falaram em fazer uma aldeia perto de Panoias, mas não fizeram nada e o povo nunca mais esteve junto. Cada um teve de se safar por onde pode. E é muito triste, porque éramos muito unidos e nada voltou a ser como era desde esse dia”. Desde o dia em que a água submergiu a Aldeia Nova.

“Custou-me muito sair daqui, só eu sei o que chorei. Não podia pensar que deixava a aldeia e esta fartura de água que aqui havia. Tinha dois filhos, um com dois anos e outro com nove meses, e às vezes até os deixava a dormir e carregava a água em baldes para lhes lavar as fraldinhas de pano. Aqui tivemos sempre fartura e fomos para a miséria. Porque aqui toda a gente se governava, tinha a sua horta, tinha a sua casinha, trabalhava no campo. E ficámos sem nada, sem casa, sem terra, sem nada. A mim e ao meu marido deram-nos uma indeminização de cinco contos e quatrocentos. Foi o mesmo de não terem dado nada. E mesmo que dessem alguma coisa de jeito, não havia dinheiro que pagasse a nossa vida aqui”. Maria Inácia Bento

Maria Cesaltina vai buscar forças, só não sabe bem onde, e anda de um lado para o outro, a uma velocidade que até ela, confessa, duvidava conseguir. “Cada vez que venho aqui é assim, quero ver como as coisas estão e penso sempre que nunca mais aqui volto. Que é a última vez, que tenho de me despedir da Aldeia Nova, mas em anos de seca muito grande ela volta a aparecer e eu estou viva e tenho voltado, ou por uma razão ou por outra. Mas penso sempre que já não volto. Acho que esta é que é mesmo a última vez que aqui venho à minha aldeia, ou ao que sobrou dela”.


O olhar de Maria Inácia, por sua vez, perde-se e são as memórias a voltar e o coração, irremediavelmente, a apertar. “Custou-me muito sair daqui, só eu sei o que chorei. Não podia pensar que deixava a aldeia e esta fartura de água que aqui havia. Tinha dois filhos, um com dois anos e outro com nove meses, e às vezes até os deixava a dormir e carregava a água em baldes para lhes lavar as fraldinhas de pano. Aqui tivemos sempre fartura e fomos para a miséria. Porque aqui toda a gente se governava, tinha a sua horta, tinha a sua casinha, trabalhava no campo. E ficámos sem nada, sem casa, sem terra, sem nada. A mim e ao meu marido deram-nos uma indeminização de cinco contos e quatrocentos. Foi o mesmo de não terem dado nada. E mesmo que dessem alguma coisa de jeito, não havia dinheiro que pagasse a nossa vida aqui”.


Marcelo Guerreiro, presidente da Câmara Municipal de Ourique, relativamente a este assunto, é categórico: “Não há futuro sem memória. A Aldeia Nova faz parte da nossa memória individual e comunitária, logo, ocupará sempre um papel importante. É a soma das vivências individuais e das comunidades que perfazem a nossa identidade”. É por isso que defende: “Em Ourique temos trabalhado para valorizar a identidade como pilar de afirmação da nossa terra como território rural com futuro. É sempre importante preservar a memória de outros tempos, dos afetos, das tradições e de marcos de evolução do desenvolvimento local. Infelizmente, nem sempre é possível conciliar a dimensão individual com o interesse geral, mas respeitar a memória das vivências é o mínimo que podemos fazer. Os ouriquenses merecem esse esforço”.

“Em Ourique temos trabalhado para valorizar a identidade como pilar de afirmação da nossa terra como território rural com futuro. É sempre importante preservar a memória de outros tempos, dos afetos, das tradições e de marcos de evolução do desenvolvimento local". Marcelo Guerreiro

Pedras e mais pedras, porque a taipa e a cal há muito que se foram. “A nossa aldeia era toda branquinha. Havia taberna, barbeiro, sapateiro, fornos. Não faltava aqui nada e havia os mastros, belos mastros que aqui se faziam. Andávamos a trabalhar e estávamos sempre a pensar em fazer bailes e quando vinha um acordeonista era uma alegria”, conta Maria Cesaltina.


O olhar de Maria Inácia Bento está novamente perdido e Maria Cesaltina, por sua vez, não para de andar, antiga rua abaixo. “Quando vinham aquelas grandes cheias, aquelas grandes chuvas, vinha ver se a nossa aldeia já estava toda tapada. Depois chegava e via que ainda não estava completamente. Mas foi até que desapareceu por completo. Há coisas que custam muito. Houve muita gente que morreu mais depressa por ter deixado aqui a aldeia. Custou muito a abalada. Uma galera veio buscar as minhas coisas, quando resolvemos partir, e fomos quase dos últimos, mas, nesse dia, foi como se tivesse morrido uma pessoa, chorei e chorei, soluçava. Umas pessoas foram para Panoias, outras para a Estação de Ourique, outras para a Funcheira, outras para Garvão. Separou-se tudo”, desabafa.


A conversa volta agora à sala de José Dionísio, em Aivados. “Aconteceu num tempo em que as pessoas não contavam para nada. O que era um pequeno povoado no Alentejo? O que importava o que as pessoas queriam, o que sentiam e como viviam? Era uma aldeia nos confins do mundo, a que não se ligava”. E com o decorrer da conversa José Dionísio não contém as lágrimas. “Cada vez que lá volto é um misto, mas onde não falta tristeza. É uma dor que não passa, que fica e fica. É triste não termos a nossa terra, sentirmos que já não somos de lado nenhum. A nossa aldeia está no fundo de uma barragem”. E rapidamente o assunto passa novamente para as ruínas do antigo povoado, para Maria Inácia Bento terminar: “Costumo sempre dizer que o que estão aqui são os ossinhos. Faz de conta que são os ossinhos da aldeia que aqui estão, porque a carne arrancaram-lha”. A água tudo levou.

Chegada da água de Alqueva “assegurará futuro”

A seca deixou a barragem do Monte da Rocha com um caudal muito baixo, inferior a 10 por cento. “Preservado o abastecimento para consumo humano, há um mundo de necessidades rurais que têm de ser satisfeitas e não é fácil. Dos animais ao montado, existem impactos que nos preocupam por colocarem em risco os ecossistemas e as dinâmicas da economia local. É preciso um uso racional da água e trabalhar para encontrar respostas sustentáveis para futuro”, começa por dizer o presidente da Câmara de Ourique. Que diz que a chegada da água de Alqueva a esta albufeira significará “assegurar o futuro da sustentabilidade do abastecimento de água nos territórios do sul do Baixo Alentejo”. E que “abrirá novas oportunidades para o desenvolvimento local”. “Perante tamanha relevância para as pessoas e para os ecossistemas do nosso território é bom que o bom senso prevaleça na ponderação das questões ambientais. É uma obra essencial para as pessoas e para o território. Mais que suficiente para não haver nenhum tipo de fundamentalismo bloqueador do desenvolvimento local”, conclui. 

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