Diário do Alentejo

População de Beja afetada com falta de medicamentos

27 de agosto 2019 - 11:15

Beja é o distrito do País onde as pessoas têm mais dificuldades em aceder aos medicamentos que necessitam. Quase 70 por cento dos utentes já foram confrontados com a falta de algum tipo de fármaco quando se deslocam à farmácia. Mas não são só os consumidores que ficam prejudicados: as farmácias também são penalizadas, e, muitas, correm sérios riscos de ver posta em causa a sua viabilidade financeira.

 

Texto Aníbal Fernandes

 

Em 2018, 68,8 por cento dos utentes do distrito de Beja “enfrentaram algum tipo de indisponibilidade de medicamentos” aquando da sua deslocação a uma farmácia da região, quando a média nacional se situa nos 52 por cento. Ainda segundo o estudo sobre o “impacto da indisponibilidade do medicamento no cidadão e no sistema de saúde”, efetuado pelo Centro de Estudos de Avaliação em Saúde (Cefar), da Associação Nacional de Farmácias (ANF), 32,17 por cento dos utentes confrontados com a escassez verificada “recorreram a uma nova consulta” para obter outro fármaco para substituir o originalmente prescrito e 9,3 por cento (quase o dobro do valor nacional, 5,7 por cento) “foram obrigados a interromper o tratamento”.

 

Cerca de metade dos inquiridos (52,2 por cento) declararam ter “dificuldades no acesso à medicação” indicada pelo seu médico. A nível nacional, diz o estudo, 3,4 milhões de pessoas são confrontadas com este problema. António Rodrigues, diretor do Cefar, disse ao “Diário do Alentejo” que a motivação para a realização deste trabalho nasceu da necessidade “de se perceber qual a dimensão do problema”.

Foto | José FerrolhoFoto | José Ferrolho

Reconhecendo que esta realidade se manifesta de uma forma mais grave nos territórios de baixa densidade, o responsável do estudo chama a atenção para “as consequências clínicas” resultantes da suspensão dos tratamentos, que podem ser gravosas, principalmente, para quem padece de doenças crónicas e está dependente da toma diária de um qualquer medicamento. Acresce que a necessidade de deslocação aos centros de saúde para alterar as receitas tem um “impacto económico” na vida das pessoas e sobrecarrega o Serviço Nacional de Saúde de forma “desnecessária”.


Mas os impactos negativos não se ficam por aqui. Também as farmácias sofrem com este mal. “De facto há um conjunto de farmácias nos territórios desertificados, e que são um fator de proximidade importante no que diz respeito à saúde pública”, para as quais se está a tornar “incomportável” esta situação, diz António Rodrigues. “É a nossa realidade diária”, confirma ao “DA” Sílvia Bentes, responsável farmacêutica numa localidade rural. As causas para esta situação são variadas: por um lado, os preços dos medicamentos em Portugal são mais baixos que na maioria dos países europeus, o que leva os laboratórios a optarem, prioritariamente, pela exportação; por outro, o facto de haver rateio de medicamentos pelas farmácias, dependendo da faturação de cada uma, penaliza os estabelecimentos das terras pequenas; acresce que os genéricos, com preços muito baixos, são desinteressantes para a indústria, que muitas das vezes decide deixar de os produzir.


“É uma pescadinha de rabo na boca: não temos medicamentos, não temos clientes; não temos clientes, não temos medicamentos”, desabafa a farmacêutica. “É uma situação dramática e que pode levar ao encerramento das pequenas farmácias, e ao desmantelamento de uma rede de proximidade” importante para a saúde dos cidadãos. Sílvia Bentes diz que é habitual um utente com uma receita com meia dúzia de prescrições, posto perante a falta de uma, decidir deslocar-se à cidade mais próxima, onde tem mais probabilidades de conseguir aviar-se na totalidade, penalizando ainda mais os negócios pequenos.
António Rodrigues descreve o mesmo cenário: “A culpa é da centralização da produção a nível global e da falta de competitividade devido aos preços baixos”, uma realidade que “desvaloriza a cadeia” do medicamento.


Nos últimos 12 meses, a perceção dos consumidores quanto à indisponibilidade de medicamentos é muito maior nos distritos de Beja, Bragança, Guarda e Viseu, com os utentes a declararem que a situação se agravou. As regiões autónomas dos Açores e da Madeira são onde o problema da escassez de medicamentos é menos referida por parte dos utentes com, respetivamente, 39,7 e 40,7 por cento de respostas. No continente, Faro e Setúbal, com cerca de 48 por cento, são os distritos menos afetados.

Comentários