Diário do Alentejo

"Geringonça" deixou distrito de Beja "a pão e água"

24 de julho 2019 - 15:45

Na primeira das entrevistas aos três deputados eleitos pelo círculo de Beja, Nilza de Sena acusa o atual Governo de não ter resolvido os problemas do distrito, designadamente, em matéria de acessibilidades, ao mesmo tempo que “permitiu o agravamento” dos problemas na área da saúde. “Temos carências absolutamente gritantes com a falta de médicos especialistas em muitas áreas”. Reconhecendo que a sua relação com a distrital do PSD teve “altos e baixos” ao longo dos últimos quatro anos, a deputada elogia a escolha de Henrique Silvestre Ferreira como cabeça de lista dos social-democratas às eleições de outubro e diz que o candidato “fará um discurso forte” em matéria de agricultura.

 

Texto Luís Godinho
Fotos José Ferrolho

 

Estes quatro anos mudaram o seu olhar sobre o distrito de Beja?
Tive o gosto de representar o Baixo Alentejo no Parlamento e acho que todos os deputados deveriam ter a experiência de poderem ser eleitos por um distrito do interior. É um distrito que tem particularidades muito acentuadas, que significam também muitas carências, que, ao longo destes quatro anos, não vi resolvidas. O primeiro retrato que posso fazer é que o que estava mal no Alentejo que encontrei em 2015 continua mal e nalgumas coisas houve até um retrocesso, como é o caso da saúde. Encontrei um Alentejo com manifestas insuficiências na área das acessibilidades.

 

Que continuam por resolver?
São carências que hoje se mantêm gritantes, nomeadamente, porque temos uma autoestrada que se mantém fechada, está concluída há mais de dois anos e não se percebe porque não está aberta à circulação automóvel. Temos a eletrificação da linha ferroviária que continua adiada e que, porventura, o [próximo Quadro Comunitário de Apoio] 20/30 poderá não vir a resolver porque o que lá está inscrito é curto para o que são as necessidades da região. E vamos tendo, quatro anos depois, estradas nacionais cada vez piores. Temos estradas muito, muito, inseguras, algumas delas com acidentes envolvendo camiões carregados com minério, temos estradas muito deficitárias e que precisavam de uma atenção por parte das autoridades públicas. Em resumo, na área da saúde o problema é gritante e nestes quatro anos não se resolveu absolutamente nada. Na área das acessibilidades também não. E na agricultura, embora o retrato seja mais ou menos idêntico ao que encontrei em 2015, há uma dificuldade que é esta: a segunda fase do alargamento do perímetro de rega do Alqueva está prometida há muito tempo mas ainda não avançou, não foi dado qualquer passo concreto, no terreno.

Na altura surpreendeu-a o convite para ser cabeça de lista por Beja?
Surpreendeu, não estava à espera. Quando recebi o convite entendi-o como um desafio. Sou de Lisboa, como é sabido, tinha alguns amigos no Baixo Alentejo, mas não estava, de todo, à espera desse convite mas aceitei-o prontamente porque gosto de desafios e porque achei que era uma oportunidade de conhecer coisas novas. Vesti completamente a camisola. Hoje consigo ter conversas com os meus pares, com deputados até de outros distritos do Alentejo, falando de igual para igual e isso significa, no meu ponto de vista, que tive um enriquecimento pessoal muito grande e isso tornou a experiência muito gratificante.

 

Tendo ficado surpreendida com o convite de há quatro anos, voltou agora a ser surpreendida com o não convite para se recandidatar?
Não surpreendeu e explico-lhe porquê. Desde há um ano e meio a esta parte, desde que Rui Rio tomou posse como presidente do partido, e desde as primeiras visitas que fez a Beja, disse logo de início que o deputado, nos círculos eleitorais em que normalmente o PSD só elege um deputado, deveria ser alguém da região. Era uma assunção natural que, desta vez, o candidato fosse alguém da região, como é o caso de Henrique Silvestre Ferreira.

 

A sua relação com a distrital de Beja do PSD foi marcada, ao longo destes quatro anos, por alguns desencontros, talvez como consequência da escolha da distrital ter sido uma e a do presidente do partido ter sido outra. Acha que o PSD corre o risco de ver repetida esta circunstância, pelo facto de Henrique Silvestre Ferreira não ter sido a escolha da distrital?
São circunstâncias muito diferentes, até porque vimos de mandatos muito diferentes e estamos com uma liderança nova no PSD. Não estive, como é evidente, envolvida nesse processo. Sei que foi uma escolha do presidente do partido e do presidente da distrital de Beja do PSD, tendo existido um encontro de vontades para escolher uma personalidade [para cabeça de lista]. Penso que é um excelente candidato, tem no distrito um percurso interessante e importante porque vem com um lastro agrícola que marca a região. Sendo candidato do PSD vai defender certamente as mesmas coisas que eu defendo, está na minha área política, é um jovem promissor e, nesse sentido, considero que foi uma boa escolha.

 

Reconhece que o seu relacionamento com a distrital é que nem sempre foi coincidente?
Os partidos têm sempre momentos em que surgem opiniões divergentes. O PSD é um partido plural, não pensamos todos pela mesma cabeça, foram existindo períodos de altos e baixos, como é normal ao longo de todos os processos políticos, mas não considero que tenha sido um relacionamento negativo. Mesmo nas diferenças que possam existir, e com a pluralidade de opinião, estamos todos unidos para combater o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda. Nos últimos quatro anos, os partidos da geringonça deixaram a região a pão e água. Se somarmos os resultados eleitorais, têm 80 por cento dos votos, têm todas as câmaras municipais e mesmo assim existem as carências gritantes que acabei de evidenciar. Acho que o PSD, independentemente da distrital e de o candidato ser um ou outro, quer é fazer passar a mensagem de que o Alentejo tem sido muito desconsiderado. O que poderia existir está muito aquém das potencialidades da região.

 

Face a esse cenário, que traça, como é que justifica então a perda de influência do PSD, ao longo dos anos, a nível distrital?
A minha eleição contraria isso, já a eleição [anterior] do Carlos Moedas vinha numa senda completamente distinta do que está a dizer. Do ponto de vista autárquico terá de existir um trabalho de maior organização e de mais proximidade às populações por parte das estruturas que estão a liderar o partido no distrito. Trazer pessoas que credibilizem a política e sejam reconhecidas dentro dos respetivos concelhos é um desiderato que deve acompanhar o trabalho de organização para as eleições futuras no sentido de garantir que possamos recuperar posições que já tivemos em muitas câmaras. Estou a falar de Alvito, Ourique, Almodôvar, até de Beja, onde muitas vezes tivemos representação autárquica. Isso está ao nosso alcance, é possível consegui-lo, mas é preciso começar a trabalhar cedo e escolher os melhores para ir ao encontro dessas necessidades.

 

O presidente da distrital já disse que seria uma “tragédia” para o PSD a não eleição de um deputado por Beja. Tendo em conta os resultados das últimas eleições europeias, reconhece que é uma tarefa difícil?
Partir de uma base derrotista é mau. O Henrique Silvestre Ferreira conhece a região, traz desse ponto de vista uma mais-valia relativamente ao que aconteceu comigo, quando cheguei tive de aprender tudo, isso é um ganho. Penso também que a sua candidatura trará um conforto ao setor agrícola, pois conhece muito bem as carências dos nossos agricultores, que também existem. Estamos a passar por uma fase de seca e os apoios não existem ainda. Estamos a falar de discursos muito contraditórios na área agricultura porque o ministro da Agricultura veio anunciar menos apoios para a área do olival…

 

… sendo que no discurso defende a necessidade deste tipo de culturas superintensivas. Há aí alguma incoerência no discurso do ministro da Agricultura?
Ele, por um lado, anuncia o aumento do perímetro de rega do Alqueva, já o fez por diversas vezes, mas depois diz que os apoios à plantação de novos olivais vão diminuir. Ora, o aumento do perímetro de rega tem como pressuposto a instalação de novos olivais. Há aqui uma contradição e isso não pode deixar sossegados os agricultores. Há um conjunto de matérias que o candidato do PSD irá agarrar com unhas e dentes, sei que o fará com um discurso forte, conhecendo bem o terreno, e por isso não me revejo numa posição derrotista de que PSD não irá eleger um deputado por Beja.

 

Já aqui aflorou a questão da saúde. Enquadra-a nos aspetos que classifica como sendo mais negativos destes últimos quatro anos?
As acessibilidades e a saúde são questões críticas do distrito. Diria até que estou muito preocupada com as questões da prestação de cuidados de saúde no distrito de Beja. O que se está a passar é ao nível de uma calamidade pública que não pode deixar de ser denunciada. Não podemos deixar que populações que precisam imenso de cuidados de saúde, como é o caso da população do Baixo Alentejo, maioritariamente envelhecida, viva esta situação. Quando leio num jornal ou ouço na televisão que se houver um problema cardiovascular no Baixo Alentejo o doente corre maior risco de morrer, comparado com o resto do País, isso não me pode deixar confortável nem satisfeita. E se ler, como também sucedeu em Aljustrel, que nasceu um bebé numa bomba de gasolina, isso também não me deixa satisfeita. Não me deixa satisfeita, nem como representante do Baixo Alentejo na Assembleia da República, nem como portuguesa. Este tipo de assimetrias no País, para além de ser manifestamente injusto para a região, é indicador de que a preocupação dos poderes públicos vai maioritariamente para os grandes centros urbanos, acabando por desmerecer as regiões do interior, que são aquelas que mais precisam dessa atenção.

 

E também existe carência de profissionais…
Temos carências absolutamente gritantes com a falta de médicos especialistas em muitas áreas. Destaquei as áreas cardiovascular e de obstetrícia/ginecologia porque são essenciais na região. Temos carência de médicos que impedem até o funcionamento normal das escalas de serviço e isso significa que, muitas vezes, o hospital de Beja poderá ter de fechar a urgência da maternidade.

 

Os deputados colocam questões, levantam os problemas, mas não tem havido resposta por parte do Ministério da Saúde?
Não, não tem havido qualquer resposta. Não é uma circunstância exclusivamente regional, é também nacional, mas é uma circunstância que deve fazer soar todas as campainhas, sobretudo, nos eleitores, no sentido de penalizar, em tempo útil, quem não consegue resolver problemas tão gritantes como estes. É inaceitável não haver meios complementares de diagnóstico na região, como não existe ressonância magnética, é absolutamente inaceitável que os doentes tenham de ser encaminhados para Évora e para Lisboa… endoscópios que estão avariados, máquinas que não trabalham, ou que quando estão em condições de trabalhar não existem profissionais para o fazer. Isto é um círculo vicioso em que quem sofre é o cidadão doente que precisa desses cuidados. Ao longo de todo o meu mandato tenho chamado a atenção para estes problemas na saúde, não tem sido feito o que deveria para resolver os problemas e espero que a breve trecho, na próxima legislatura, sejam ultrapassadas estas questões para que a população deixe de estar em risco.

 

Ultimamente tem levantado algumas questões de natureza ambiental, relacionadas com as fábricas de Fortes e de Alvito. Qual é a sua opinião sobre a polémica que se instalou entre ambientalistas e agricultores a propósitos das culturas superintensivas no perímetro de rega de Alqueva?
Sou uma defensora acérrima do desenvolvimento da região e entendo que esse desenvolvimento não pode, de maneira nenhuma, colidir com o que são as exigências ambientais, num momento crítico para todo o planeta, onde temos de garantir a qualidade dos solos, da água e do ar. O trabalho agrícola deve ser apoiado, e é essencial pelo que representa de retorno em PIB para a região e para o país, mas esse desenvolvimento não pode ultrapassar os limites que prejudiquem o ambiente. É preciso encontrar um equilíbrio entre as duas coisas. Não tenho dados técnicos que me permitiam afirmar que esses limites foram ou não ultrapassados nos casos que referiu. No caso das fábricas de Fortes e de Alvito, embora reconheça que são casos completamente distintos, recebi informação sobre o que se passa, registei essas queixas e fui à fábrica de Alvito, onde ouvi uma opinião contrária igualmente credível. O que tenho dito é que é necessária uma fiscalização por parte das autoridades públicas. Não me referi a nenhuma fiscalização específica à fábrica de Alvito mas de inspeções e fiscalizações generalizadas no País inteiro a todas as unidades industriais desta natureza porque me parece que as que existem são em número insuficiente. Essas inspeções são essenciais para se saber se há ou não exagero quanto às preocupações das populações, se a linha vermelha foi ou não ultrapassada, se os padrões de qualidade estão a ser respeitados.

 

Não sendo candidata por Beja, sê-lo-á por outro círculo eleitoral?
As listas estão a ser feitas neste momento. Estou há muitos anos na política, tenho tido sempre muito gosto em concretizar os diversos desafios que me têm sido lançados, mas não estaremos ad eternum na política. Tenho a minha profissão, sou professora na Universidade de Lisboa, nunca deixei de o ser, não me vou antecipar a essa escolha de candidatos que está a ser feita pelo partido.

 

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