Diário do Alentejo

Incêndio deixa homens do mar em terra

12 de julho 2019 - 14:30

Foi há dois meses, mas foi como se tivesse sido ontem. Porque há dois meses que há pescadores que não conseguem realizar o seu ofício em Azenha do Mar, no concelho de Odemira. A culpa foi de um incêndio que deflagrou no porto de pesca desta pequena aldeia piscatória e que destruiu embarcações por completo e danificou outras, deixando os homens que vivem do mar em terra. Respostas ainda não há, mas há quem tenha perdido tudo. A decorrer está uma campanha solidária, mas estes homens sentem-se “como uma gota no oceano”. E impossibilitados de se fazerem ao mar. E, por estas paragens, era o inverno que costumava sempre ser longo de mais.

 

Texto Bruna Soares fotos José Ferrolho

 


Há um silêncio sepulcral no porto de pesca de Azenha do Mar, no concelho de Odemira. Um silêncio que só as gaivotas, nos seus voos baixos em busca de alimento, se atrevem a quebrar. Depois, apenas o barulho das ondas que batem, ora nos rochedos, ora no cais.


Os barcos, que sobreviveram àquele que foi o dia menos dia da vida deste porto, alinham-se em chão firme. Como em terra estão, desde há dois meses, os pescadores que tudo perderam. E entenda-se por tudo as ferramentas necessárias para a realização do seu ofício e, por isso, para o ganho do seu sustento.


E foi o fogo que, nessa noite de 6 de maio, tudo levou. Levou os barcos e os seus motores, as boias, os aladores, os sistemas de navegação. Mais cordas e nassas, e o que encontrou dentro das embarcações.
Como tudo começou, nessa noite, ninguém sabe. Apenas suposições estão nas cabeças destes homens que viram arder duas embarcações por completo e contabilizaram estragos em outros quatro barcos e em equipamentos do porto de pesca. Pode ter tido origem num curto-circuito, pode ter tido origem em tanta coisa… Porque respostas, concretas, também não as há.

 

“Quando cheguei já não havia nada a fazer, só lhe sobrou o casco. E assim se foi o meu ganha-pão. Uma vida inteira dedicada a este barco, a remendá-lo, a estimá-lo e agora está feito em nada, como está a minha vida, destruída em minutos”

Fernando Costa

Fernando Costa, mestre de uma das embarcações, não estava nesse dia em Azenha do Mar, tinha ido ao Brejão, que fica a escassos quilómetros, para dar comida aos animais num bocadinho de terra que semeia também “para poder comer”. Já passava das 23:00 horas e, quando chegou ao porto, só já viu o barco que construiu com as suas mãos, peça a peça, há mais de 20 anos, totalmente destruído.


Antes avistou-se um grande clarão, vislumbrado por “uns moços que foram espreitar o mar”, e de seguida ouviram-se explosões. “Quando cheguei já não havia nada a fazer, só lhe sobrou o casco. E assim se foi o meu ganha-pão. Uma vida inteira dedicada a este barco, a remendá-lo, a estimá-lo e agora está feito em nada, como está a minha vida, destruída em minutos”, conta, enquanto aponta para os destroços, que repousam agora em cima de pasto seco, numa das ruas da pequena aldeia piscatória, que de tão ligada que está ao mar apenas atribuí às suas artérias nomes que com ele estão relacionados. Rua do Sargo, rua do Polvo, rua da Santola... rua dos Pescadores.


Os pescadores que por estas paragens já foram bem mais, e que agora, por culpa do incêndio, ficaram ainda mais reduzidos. “Já éramos poucos por estas bandas, porque não é fácil ser-se pescador em Azenha do Mar. O inverno, aqui, é muito rigoroso e as condições do porto não nos permitem sair para o mar. São meses em terra, de volta das redes, das nassas, sem ir à pesca. Depois, quando chega a primavera, as coisas melhoram, mas o verão é, sem dúvida, o melhor período. Não é fácil estar dias e dias sem ir ao mar, e depois a pesca também já poucos motiva. Os jovens não querem saber disto”, atira Fernando, sem tirar os olhos da embarcação que ardeu.


Já Fábio Glória, outro dos pescadores que tudo perdeu, recusa-se a olhar para o que sobrou do seu barco. “O que restou daquilo que era o meu barco está aí ao lado do que sobrou do barco do mestre Fernando. Vejam-no vocês, porque eu não gosto sequer de olhar”, avisa antecipadamente. E nem o enxerga.

 

Agora, com este incêndio, fiquei sem o barco e com o empréstimo, que termina daqui a uns meses, com um valor de 500 euros para pagar mensalmente. E a pessoa que trabalhava comigo também ficou sem trabalho, acontece que tem direito a fundo de desemprego e eu não. Os mestres não têm direito a fundo de desemprego, só os camaradas. Mas é a vida, como dizem”.

Fábio Glória

Fábio Glória é dos mais jovens pescadores de Azenha do Mar, porque, desde que se conhece, sempre só encontrou uma direção a seguir: a do mar. “O meu pai era pescador. Foi com ele que comecei a ir à pesca, a ganhar este gosto. Depois andei como camarada em outros barcos. Levei um tempo até ter o meu barco, fiz um empréstimo ao banco, esperei que a embarcação fosse construída, fiquei, finalmente, a trabalhar por minha conta. Agora, com este incêndio, fiquei sem o barco e com o empréstimo, que termina daqui a uns meses, com um valor de 500 euros para pagar mensalmente. E a pessoa que trabalhava comigo também ficou sem trabalho, acontece que tem direito a fundo de desemprego e eu não. Os mestres não têm direito a fundo de desemprego, só os camaradas. Mas é a vida, como dizem”.


Agora, para fazer face às despesas, Fábio Glória tem-se dedicado à apanha de marisco e a ir à pesca à cana. Mas, como outros pescadores de Azenha do Mar, tinha encontrado na pesca ao polvo uma forma de sustento e, por consequência, de maior rentabilidade. Porque, em conjunto, estes homens conseguiam juntar mais quilos de polvo e, assim, justificavam a ida de um comprador, propositadamente, ao portinho de pesca. Porque vender só em lota, por estas paragens, deixou de ser tão rentável, porque o preço do pescado cai a pique. “São poucas as pessoas que procuram esta lota e as ofertas também escasseiam”, justificam.


“Quando andávamos todos a trabalhar, e andávamos ao polvo, conseguíamos juntar 200 ou 300 quilos, e vinham cá buscar todos os dias. Agora somos menos e para 50 ou 60 quilos de polvo já não vêm, porque não justifica a deslocação. Há restaurantes que têm conta aberta na lota e nós, agora, deixamos lá o polvo, porque os restaurantes também vendem mais, uma vez que estão na época de verão”, explica Luís Batista, pescador, que viu o seu barco arder, mas não por completo, e também presidente da Associação Cultural e de Desenvolvimento de Pescadores e Moradores da Azenha do Mar.


“Eu e o meu pai, felizmente, apesar dos prejuízos, conseguimos recuperar o barco, porque ardeu só uma parte, e conseguimos sair para o mar pouco tempo depois, mas há aqui quem não o consiga. E o facto de estes camaradas não irem à pesca também afeta quem consegue ir, porque juntos ganhamos mais escala, conseguimos reunir mais quilos de polvo, por exemplo. Por isso, quem não perdeu o barco também perde de outra maneira”, continua.

Temos de pedir ajuda, porque nesta situação não existem seguros envolvidos. Os pescadores apenas têm seguro de vida, porque os seguros para as embarcações são muito dispendiosos para pescadores da nossa dimensão, que se dedicam à pesca artesanal”.

Luís Batista

O incêndio deixou um prejuízo de pelo menos 100 mil euros. E estes homens dizem sentir-se como “uma gota no oceano”. “Achamos que não vamos conseguir recuperar tudo o que perdemos”. Apesar de estar a decorrer uma campanha solidária que tem, precisamente, o intuito de ajudar estes pescadores. Uma campanha de solidariedade dirigida à comunidade, mas também a quem queira ajudar e ainda aos empresários locais. Porque das 11 embarcações ali estacionadas, naquela noite, “duas foram totalmente consumidas pelas chamas e outras quatro sofreram danos de diferentes graus”.

 

Campanha, esta, que inclui um conjunto de iniciativas para a angariação de fundos que reverterão para a aquisição ou reparação das embarcações afetadas, sendo uma percentagem ainda doada à comunidade piscatória atingida pelo incêndio.


“Temos de pedir ajuda, porque nesta situação não existem seguros envolvidos. Os pescadores apenas têm seguro de vida, porque os seguros para as embarcações são muito dispendiosos para pescadores da nossa dimensão, que se dedicam à pesca artesanal. Só as grandes empresas têm poder económico para tal. Ter um novo barco ou repará-lo implica investimento próprio e apoios também não existem e, a existirem, tem de se ter, antecipadamente, capital próprio, porque não há financiamento a 100 por cento. Quando existem ainda empréstimos para pagar como se pode pedir outro empréstimo?”. Quem o afirma, agora, é Luís Batista.


Até à data, a Associação Cultural e de Desenvolvimento de Pescadores e Moradores da Azenha do Mar já realizou um mastro de São João e um almoço solidário. Mas o dinheiro angariado até agora, como dizem, “continua a ser uma gota num oceano de 100 mil euros”.


“Só se o Estado nos pudesse ajudar de alguma maneira, mas achamos difícil isso acontecer. Estamos descrentes e muitos com as vidas em suspenso”, diz Luís Batista. Fábio Glória, por sua vez, também não tem grande esperança. “A pesca, mais dia, menos dia, acaba aqui. Daqui a um tempo não vão existir pescadores em Azenha do Mar. Não há condições para os jovens se dedicarem a uma vida destas, à pesca artesanal, até porque a grande maioria foge dela”.


Quem se interessou pelo incêndio que tudo levou aos pescadores de Azenha do Mar foi, no entanto, o secretário de Estado das Pescas, José Apolinário. “Talvez fosse quem nos pudesse ajudar, e, inclusive, reagiu logo pouco depois de este incêndio ter acontecido. Acontece que, a nível comunitário, não se podem financiar novas construções, só modernizações de equipamentos. E, segundo disse, havia uma janela de oportunidade dentro desta área. Mas houve pessoas que perderam tudo, inclusive, barcos novos, que tinham sido construídos há cerca de dois anos. E, depois, como pode a associação de pescadores candidatar-se? Como podem candidatar-se os pescadores a nível individual quando não têm o total do capital necessário, mesmo o Estado financiando uma parte? Daí estarmos cada vez mais descrentes”, explica o presidente da associação.


E os dias, esses, só insistem em passar. “Dois meses. É muito tempo sem meter o barco em mar alto”, aponta Fernando, enquanto enxergar o oceano à sua frente.

 

Fernando está com Luís e Fábio no porto de pesca. E todos assentam os pés no tabuado por onde deslizam as embarcações quando chegam da faina. No mesmo tabuado que agora se apresenta queimado. Estão em terra e sem data prevista para todos voltarem a sair para o mar.

 

Conta solidária para ajudar pescadores

 

A Associação Cultural de Desenvolvimento de Pescadores e Moradores da Azenha do Mar, tendo em conta o incêndio que afetou a comunidade piscatória, criou uma conta solidária, para onde podem ser feitos donativos, nomeadamente, através do NIB 0045 7021 4031 3699 3159 0. Em vários estabelecimentos comerciais do concelho, e não só foram ainda instalados mealheiros, com o intuito de se angariarem fundos para a recuperação das embarcações. Para além de iniciativas que se estão a organizar. Os pescadores lembram que “em Azenha do Mar o oceano é respeitado, praticando-se um tipo de pesca considerado dos mais sustentáveis, designadamente, pesca local, artesanal e com barcos de pequenas dimensões e artes de pesca seletivas”.

 

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