Diário do Alentejo

Documentário mostra multiculturalidade que habita nas escolas

03 de julho 2019 - 15:30

A diversidade cultural é o ponto de partida. Alunos de diferentes nacionalidades que estudam no Agrupamento de Escolas n.º 1 de Beja. Que, depois de uma viagem, que teve como ponto de partida a saída dos seus diferentes países, da Índia à Guiné-Bissau, chegaram a Portugal, à cidade de Pax Julia, em busca de uma vida melhor. E foi na escola que encontraram um ponto de ligação com a comunidade que agora os acolhe, mas também uma forma de integração, quebrando, assim, barreiras linguísticas e fronteiras. A história deles, destes alunos, na verdade, deu um documentário, que se chama “Eu sou…”. E o que ele mostra são as suas dificuldades, as suas conquistas, as suas ambições e os seus sonhos. Porque é muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.

 

Texto Bruna Soares

 


Quantas nacionalidades cabem numa cidade? Ou quantas mais, concretamente, cabem num agrupamento? No n.º 1 de Beja? E quantas culturas se cruzam numa escola? A resposta chega por culpa de um documentário, intitulado de “Eu sou…”, que foi recentemente apresentado e que é o culminar de um projeto que se focou na diversidade cultural.


A data remonta a 3 de janeiro deste ano. Início do segundo período escolar. E num só dia chegam à Escola Secundária Diogo de Gouveia mais três crianças oriundas da Venezuela. “Mais três que se juntam a um universo de crianças e jovens cujas origens são tão distintas, como do Paquistão, do Brasil, da China, da Guiné-Bissau, entre outras nacionalidades”. Quem o recorda é Cláudia Martins, docente do agrupamento e uma das responsáveis por este documentário, que, segundo revela, “pretendeu refletir sobre o papel da escola na vida destes alunos, como agente de inclusão e promotor de igualdade e equilíbrio social de todas estas culturas”.

“A multiculturalidade é uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade, consequentemente, nas escolas portuguesas, que, como instituições sociais, não escapam a este fenómeno. Não há como fugir aos efeitos resultantes de conflitos e crises emergentes num e noutro ponto do globo ou às consequências do fenómeno da globalização". 

“Cheguei a Portugal a 21 de novembro de 2018. E a verdade é que, para mim, foi fácil adaptar-me”. Quem o diz é Sonny dos Santos, de 17 anos, venezuelano. Já Hildafonsa Barai, de 18, vinda da Guiné-Bissau, parece contar os dias no calendário desde a sua chegada. “Vim para Portugal em 2013. Há cinco anos e sete meses. Morei em Lisboa, depois o meu pai foi transferido e vim para Ferreira do Alentejo. No 9.º ano cheguei ao liceu [Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja], onde estou até agora e estou a gostar muito”.


“A multiculturalidade é uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade, consequentemente, nas escolas portuguesas, que, como instituições sociais, não escapam a este fenómeno. Não há como fugir aos efeitos resultantes de conflitos e crises emergentes num e noutro ponto do globo ou às consequências do fenómeno da globalização que, para além da mobilidade de bens e produtos, também desloca a força do trabalho humano e jovens e crianças que acompanham os seus progenitores”, considera a docente. Que lembra ainda: “Fomos e somos um país que entende muito bem o fenómeno da emigração. Daí, não ser difícil perceber as dificuldades que encontra quem chega a uma terra estranha. Para as crianças e jovens é tudo muito mais difícil”.


“Tem sido muito difícil para mim adaptar-me à realidade portuguesa, porque a língua é muito difícil. Sinto falta da cultura do meu país, da família, dos amigos”, explica, agora, Shahzeb Khan, de 13 anos, da Índia. E Hildafonsa Barai corrobora esta opinião: “Não tem sido fácil, e embora a língua oficial no meu país seja o português nós não falávamos português diariamente. Sinto falta praticamente de tudo. Da minha família, da minha mãe e da minha irmã que nasceu, e que não tive tempo de a conhecer melhor, mas também dos meus amigos, da comida…”.

“Aos problemas que a família expatriada encontra, somam-se outros que são sentidos pelas crianças e jovens na sua abordagem à nova escola, a um novo grupo de amigos que ainda não existe, a um conjunto de paredes e edifícios que fazem a baliza onde vão ocupar o seu tempo a aprender, e cuja organização se lhes apresenta um tanto ou quanto impercetível, de tão diferente que é. Tudo tem de começar do zero”, prossegue a professora.


E embora a adaptação esteja a ser fácil para Sonny, não esconde que sente falta, sobretudo, do ambiente de alegria que sempre existe no seu país, a Venezuela. “Sinto falta do ambiente de carnaval, de festa, mas também da família que ficou e das comidas tradicionais, de sempre”. No entanto, rapidamente diz: “Mas sinto-me privilegiado por vir para cá, por ter esta oportunidade de melhorar a minha vida, porque a situação na Venezuela não está muito bem. E estou aqui graças ao esforço do meu pai e da minha mãe”.


Como pode, então, a escola ajudar nesta chegada a um novo país para que o possam chamar de “casa”? “Esta escola foi uma das coisas mais fantásticas que já aconteceu comigo. Desde que entrei cá sinto-me realmente em ‘casa’, fiz muitos amigos”, responde Hildafonsa.


Já a escola, para Sonny dos Santos, tem o ajudado a melhorar o idioma e tem-lhe dado a oportunidade para aprender coisas que até então desconhecia. “E tenho conhecido amigos que têm-me ajudado com a língua, mas também com as vivências em Beja e com as tradições de Portugal”, confessa.

"Sinto-me privilegiado por vir para cá, por ter esta oportunidade de melhorar a minha vida, porque a situação na Venezuela não está muito bem. E estou aqui graças ao esforço do meu pai e da minha mãe”

Este documentário, do qual estes intervenientes são protagonistas, encontra-se integrado no projeto pedagógico-educativo “Diversidade Cultural”, que foi desenvolvido no Agrupamento de Escolas n.º 1 de Beja durante este ano letivo. O objetivo é tornar a inclusão um tema cada vez mais presente.


“Este projeto, que se propõe focalizador da diversidade cultural existente nos estabelecimentos escolares, pretende refletir sobre o papel da escola na vida destes alunos, como agente de inclusão e promotor de igualdade e equilíbrio social de todas as culturas. O impacto que se espera do projeto é grande. Dando voz a estes atores, permanentemente em cena nas suas vidas, pretende transformar o espaço escolar num espaço vivo de interações, aberto à diversidade e às suas múltiplas dimensões”, explica, por sua vez, o Agrupamento de Escolas N.º 1. Que garante que, “sendo um agrupamento de escolas inclusivo, assegura que os seus múltiplos grupos deem vida e voz às suas culturas e diferentes vivências, sendo respeitados e aceites no que concerne à sua identidade, enquanto sociedade que se pretende igualitária e democrática nos direitos”.


Camila Rojas, de 12 anos, venezuelana, é outras das protagonistas desta produção-artística não ficcional, e não tem dúvidas em afirmar: “Aqui toda a gente me trata muito bem, todos os professores têm-me ajudado. Mas o meu sonho é voltar à Venezuela, aos meus costumes. E para poder também voltar a encontrar-me com os meus avós, os meus primos, os meus tios e os meus irmãos que ficaram lá e dos quais sinto muita falta”.

“Um dos grandes objetivos do nosso agrupamento foi, é e será sempre, assegurar o princípio da igualdade. Assim, em conjunto, a comunidade escolar reflete, diariamente, sobre o papel da escola, como agente de inclusão e promotor do princípio da igual dignidade de todas as culturas”

Hildafonsa, porém, só já pensa no futuro e já tem os seus objetivos traçados. Depois de terminar o ensino secundário, rumará até Lisboa, pois é lá que irá tirar o seu curso superior de Análises Clínicas. Ambiciona mais tarde regressar à Guiné- -Bissau, porque, como diz, “há muita falta de especialistas na área da saúde”. Mas não fica por aqui. “Quero ainda candidatar-me à presidência do meu país. Quero ser a primeira mulher presidente, porque as mulheres, lá, não têm quase direito a nada”. Faz uma pausa, e a futura presidente de Guiné-Bissau prossegue: “Apesar de não ver a minha mãe há quase seis anos, sinto-me muito sortuda por estar cá, porque aqui a educação e a saúde são muito melhores. Sinto que as crianças no meu país não têm tanta sorte”.


Já o futuro programador informático, que ambiciona criar jogos de computador e de formar a sua própria empresa, Sonny dos Santos, quer desempenhar a sua carreira profissional “com amor”, porque quer fazer “uma coisa de que gosta”. E Shahzeb Khan que diz já ter feito, em Beja, “muitos amigos prestáveis e amistosos”, no futuro quer ir tirar o seu curso de Gestão Hoteleira em Londres, Inglaterra.
“Um dos grandes objetivos do nosso agrupamento foi, é e será sempre, assegurar o princípio da igualdade. Assim, em conjunto, a comunidade escolar reflete, diariamente, sobre o papel da escola, como agente de inclusão e promotor do princípio da igual dignidade de todas as culturas”, conclui.


E o resultado está aí. Um documentário, que saiu de um projeto maior em nome da diversidade. Numa escola de todos e para todos.

 

“Eu sou…” no Festival Internacional de “Curtas” de Vila do Conde


O documentário “Eu sou…”, para além da realização, direção e edição de Cláudia Martins, contou também com a participação do professor Rui Pestana, nomeadamente, na direção, captação de imagem e edição. E passou, recentemente, à pré-seleção do “Curtas” – Festival Internacional de Cinema de Vila do Conde. Recorde-se que este festival, segundo a organização, “apresenta um programa repleto de propostas que procuram destacar o que de mais relevante acontece no cinema internacional, o que de mais criativo e inovador está a acontecer neste momento com a linguagem cinematográfica, em permanente diálogo com outras formas de expressão artísticas e culturais”. Este festival decorre entre os dias 6 e 14 de julho, em Vila do Conde, e em competição estão diversas categorias: “Internacional”, “Nacional”, “Experimental”, “Vídeos musicais”, “Curtinhas – filmes para crianças e jovens” e “´Take one – filmes de escola, com a duração máxima de 30 minutos”.

Comentários