Diário do Alentejo

Escolas de Odemira e Mértola referências nacionais

26 de junho 2019 - 11:20

Texto Aníbal Fernandes

 

“Nós somos mais do que uma escola, somos um projecto de intervenção na comunidade”. É assim que Isabel Campos, directora-geral da Escola Profissional Alsud, em Mértola, apresenta a sua instituição. Fundada em 2008, para substituir a Escola Bento de Jesus Caraça, a missão da Alsud vai muito para além de dar formação às quatro dezenas de jovens vindos, na sua maior parte, de fora do concelho e até de Portugal, nomeadamente, de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe).

 

O Espaço Capacitar Mais, da santa casa da misericórdia local, para dar apoio a pessoas com deficiência; a escola de música Mértola tem Melodia; a universidade sénior (com duas centenas de alunos); a escola de Caça, Pesca e Natureza (um modelo de ensino não formal destinado aos profissionais do sector); e o projecto Hortas Floresta, virado para os alunos do primeiro ciclo e para a promoção de uma agricultura adaptada às alterações climáticas, são exemplos de intervenção junto da comunidade.

No que diz respeito à oferta formativa, o ADN da escola é o património, mas, “infelizmente, esta é uma área que está adormecida”, diz Isabel Campos, explicando que, por exemplo, no caso da arqueologia, o Sistema de Antecipação das Necessidades de Qualificação (SANQ) não tem comtemplado esta opção, o que, a juntar ao “abrandamento da procura social e ao problema demográfico”, tem inviabilizado a criação de turmas desta área.

 

Acresce que o número mínimo para a abertura de uma turma é de 22 alunos, a nível nacional, e de 18 nos territórios de baixa densidade, como é o caso de Mértola, no entanto, a professora diz que este critério é penalizador para a sua escola, uma vez que a zona onde está implantada devia ser considerada de “muita baixa densidade”. Assim, no último ano, foram três os cursos ministrados: Técnico de Apoio à Gestão Desportiva, Animador Sócio Cultural e Técnico de Gestão Cinegética, este último único no País e actualmente a principal aposta da escola.

 

Quanto à empregabilidade dos cursos, os números apontam para uma taxa de 90 por cento, ao fim do primeiro ano, sendo que, no ano lectivo de 2017/18, cerca de 50 por cento dos finalistas seguiram para o ensino superior, quer em Beja, quer no Algarve, região a que, por razões de proximidade, a Alsud está muito ligada. Quanto ao corpo docente, Teresa Santos, directora pedagógica, apresenta algumas queixas, principalmente no que se refere à componente socio cultural e científica: “Os professores têm de ser profissionalizados”, o que diminui a base de recrutamento e “torna muito difícil contratar professores para muitas disciplinas”.

Já na componente técnica, os professores são provenientes de diversas áreas profissionais, o que contribui de forma muito positiva para que os alunos – que têm formação em contexto de trabalho durante os três anos do curso – adquiram as ferramentas necessárias para uma fácil integração no mundo laboral. No que se refere ao estigma que marca as escolas profissionais, Teresa Santos diz que “há uma evolução positiva, mas não é tão generalizado quanto seria merecido. O sistema conseguiu bons resultados, ao nível social e profissional, mas agora assistiu-se a uma apropriação do modelo de ensino [por parte das escolas públicas] sem reconhecer o trabalho visionário que nasceu na sociedade civil”.


“Não podemos exigir exclusividade, mas era importante que houvesse esse reconhecimento, e que se pudesse trabalhar mais em parceria, e menos em concorrência”, especifica Teresa Santos.

 

Em Odemira, os números também são muito satisfatórios. No último ano 87 por cento dos ex-alunos iniciaram a actividade profissional, 12 por cento prosseguiram os estudos e apenas um por cento continua desempregado. Acresce que 53 por cento conseguiram emprego em Odemira e 65 por cento dentro da área da sua formação. Segundo Paulo Barros Trindade, presidente do conselho de administração da Escola Profissional de Odemira, estes resultados devem muito ao “acompanhamento feito pelos professores junto do tecido empresarial e aos estágios, que, apesar de começarem no segundo ano, não impedem que desde o início os alunos tenham um contacto estreito com o público e as empresas”.


Estamos a falar do curso de restauração, “a âncora da escola” e muito reconhecido em todo o País. As solicitações de estagiários chegam de todo o lado, da Quinta do Lago a Porto Santo, no arquipélago da Madeira.

Mas a aposta da Escola Profissional de Odemira não se fica por aqui e a oferta formativa cobre várias áreas que têm procura na região. É o caso da agricultura que necessita de chefias intermédias, administrativos ou técnicos de manutenção. Mas o portfólio de cursos de nível IV desta escola é vasto: Técnico de Animação Sociocultural, Técnico de Ação Educativa, Esteticista, Manutenção Industrial – Eletromecânica; Técnico de Comércio, Restaurante e Bar, Cozinha e Pastelaria e Produção Agropecuária.

 

No último ano estiveram inscritos 260 alunos, 12 por cento dos quais nepaleses e indianos, fruto da alteração demográfica que se observa no litoral alentejano, mas também búlgaros, romenos e alemães.
Quanto à “concorrência” com o ensino público, Paulo Barros Trindade defende que “cada escola se deve especializar naquilo que faz sentido” e que “o ensino público não está vocacionado para o ensino profissional”.

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