Diário do Alentejo

No Pomarão, de olhos postos no Guadiana

13 de fevereiro 2026 - 08:00
A ansiedade de quem esperou, sem saber se o rio lhe entraria em casa

Dias de espera, vidas de espera, enquanto se olha um rio, entre a água que chega e a que parte, mas com especial atenção à que teima em ficar. O “Diário do Alentejo” (“DA”) esteve em reportagem no Pomarão, no concelho de Mértola, no passado dia 6, entre depressões – “Leonardo” e “Marta” –, num momento em que se esperava que o Guadiana subisse mais do que já havia subido, pela chuva intensa e persistente, pelas descargas de Pedrogão e Alqueva e pela água que chegava de Espanha. Até ver, os piores momentos da subida do rio haviam passado. No entanto, para memória futura, fica o sobressalto de uma aldeia ribeirinha que se recorda bem do que é ter a água a invadir-lhe a vida.

 

Texto Marco Monteiro CândidoFotos Ricardo Zambujo

 

A 6 de fevereiro de 2026, as memórias e os ecos de 3 de março de 1947 e de 6 de novembro de 1997 refletem-se nas preocupações de uma pequena povoação do concelho de Mértola, à beira rio plantada. No Pomarão, freguesia de Santana de Cambas, a margem do Guadiana já esteve mais longe, bem mais longe. Por estes dias, os cerca de 30 habitantes da aldeia já viram o grande rio do Sul chegar perto demais, ganhar-lhes terrenos, invadir-lhes algumas habitações, galgando as margens esculpidas pelo correr do tempo e da água. Por agora, a situação está controlada, apesar dos sobressaltos que águas barrentas do Guadiana trouxeram nos dois dias anteriores. A água vem e vai. A preocupação permanece.Dois curiosos de Santana de Cambas observam o rio. Caminham junto à margem, subida, parando, olhando, arrancando de novo. A chuva vai caindo. Estugam o passo. Aqui e ali, abrigam-se, esperando uma aberta. Comentam como na véspera, aqui, no Pomarão, a água lhes subiu quase junto aos pés numa questão de poucos minutos. A barragem do Chança, espanhola, paredes-meias com o Pomarão, abriu as comportas de superfície e de fundo. Juntando a Pedrogão e Alqueva, que também têm estado a descarregar. E à chuva, que teima em não dar tréguas, sob o nome de “Leonardo”. Ou “Kristin”, antes. Ou “Marta”, depois. Por agora, espera-se. Entre depressões, ou tempestades, aguarda-se que a água siga o seu curso, mas que esse não leve à frente mais do que aquilo que encontra no caminho do rio. Um caminho bem largo e farto, que o leito, esse, há muito que foi transbordado.

 

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Na rua principal da aldeia, a única, na verdade, onde peões e carros podem aceder, paralela ao rio – a pouquíssimos metros, por agora –, numa das casas, como todas, defronte para o Guadiana, Bárbara (52 anos) e Jorge Reis (54) observam o rio. Um gesto ainda mais persistente nos últimos dias, mesmo para quem está habituado a contemplar o rio há uma vida, a conhecer-lhe as manhas e os humores. “Tenho vivido estes últimos dias com o coração nas mãos. Sobe, desce, depois os espanhóis abrem as comportas com força, o Alqueva abre... A sorte é que a câmara e a proteção civil vão avisando se sobe ou desce. É dia e noite com os bombeiros… As noites têm sido sem dormir. Esta noite ainda descansei duas ou três horas porque os bombeiros estavam aqui à porta. Depois levantei-me, fui ver os barcos, chamei o meu primo...”. Enquanto Bárbara Reis manifesta o cansaço dos últimos dias, das últimas noites, Jorge Reis vai ouvindo, assentindo ao que a prima diz, mas sempre a olhar o rio, num estado de alerta permanente. E acrescenta, usando a mão para dar lastro ao que diz, como que a afastar a água imensa do rio: “As barragens deviam estar um pouco mais abertas para ir desaguando e dar mais espaço. Tenho estado aqui… Não estou firme! Só fico descansado quando o vir [o rio] daqui da muralha para baixo, à volta de dois metros, dois metros e meio, porque se vier outra cheia, tipo outra tempestade, sempre dá espaço para chegar até aqui”.No entanto, não é só a água que vem Guadiana abaixo que preocupa os moradores do Pomarão. A que é libertada do Chança, presa na barragem espanhola ao lado da aldeia, de onde o paredão e as comportas se veem da povoação, também causa preocupação. Jorge Reis continua: “As barragens controlam, mas a certa altura já não conseguem e abrem as comportas no máximo. Espera-se outra tempestade amanhã. Era bom que deixassem um metro de reserva para encaixar o que viesse. Mas os espanhóis – e nós – têm medo de deixar uma reserva. Se vier outra tempestade, abrem a toda a força outra vez e faz aqui barreira [no encontro de águas do Chança com o Guadiana]. E a água acumula toda aqui no Pomarão”.Da porta de casa, a mãe de Bárbara Reis, com 82 anos, também observa o cenário. Emociona-se ao ver o rio assim, ao reviver as cheias de há quase 29 anos, na madrugada de 6 de novembro de 1997, relembrada na parede dos balneários públicos da aldeia por uma placa aí colocada, ficando, mesmo assim, quase meio metro abaixo da cheia que, 50 anos antes, havia chegado na noite de 3 de março de 1947, como outra placa, afixada no mesmo local, também o comprova.Uns metros mais à frente, Elsa Mestre, de 56 anos. Caminha, mais uma vez, pela rua paralela ao rio, tentando perceber-lhe a vontade, antecipar-lhe a fúria ou a acalmia. “Estou há duas noites sem dormir. Não temos nada em casa, tentámos tirar o máximo que pudemos, estamos na casa da minha sogra. Está tudo espalhado: os eletrodomésticos foram para um armazém. A arca, as máquinas, o frigorífico, principalmente, os eletrodomésticos grandes, levámos logo”. E continua, em tom de desabafo, como a torrente de água do rio que, por agora, começou a correr com maior velocidade, trazendo com ela um som sibilante que ecoa entre margens: “Não tenho cabeça para nada, não faço nada. Ando para cima e para baixo a olhar o rio, vamos ver a barragem, ver se fecharam… não sei se é bom ou mau. Voltamos para baixo, para cima… Estamos nisto. É uma vida de espera. E hoje é outro dia de espera”.

 

Multimédia1A ansiedade dos habitantes do Pomarão é constante por estes dias. O não saber como irá reagir o rio à água que as chuvas intensas trazem e às consequentes descargas das albufeiras. Se há conforto perante o desconhecido, esse surge pela presença constante da Câmara Municipal de Mértola no terreno – seja através do executivo ou dos serviços de proteção civil –, da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, dos bombeiros ou da polícia marítima, em constante monitorização do rio e comunicação com a população.Uns metros acima da rua principal da aldeia – na estrada que leva os viajantes de Portugal a Espanha, passando pela Ponte Internacional do Baixo Guadiana, que liga, precisamente, o Pomarão a El Granado, inaugurada em 2009 –, situa-se o único restaurante da povoação. Lá dentro, por trás do balcão, a sua proprietária, Noémia Pinto, de 67 anos, tem uma vista privilegiada para o paredão da barragem, a poucas centenas de metros. Mas também para o rio. Se o restaurante está bem acima da linha de água, a sua casa já se situa mais abaixo. E por isso, mas também pelos seus conterrâneos, a preocupação está sempre presente. “Temos que dar graças aos bombeiros, à proteção civil, que eles informam-nos. E em 1997 não havia ninguém a informar, não havia ninguém a acudir a nada, nada! Éramos sozinhos deitados ao nosso destino. Agora não temos essa queixa: da parte da câmara municipal, da junta de freguesia, dos bombeiros, da proteção civil... Pronto, estamos acompanhados com essa gestão toda. Só que agora a água é muito mais. Tem muito mais corrente. O rio leva muito tempo cheio”. E sublinha: “Antigamente, o rio corria, por exemplo, a cinco nós, agora corre a 10. Corre o dobro, porque a água vem com muita força… Tem uma força diferente, muito maior”.Pouco depois, na casa paredes-meias ao Café do Cais – que a água inundou, trazendo a lama do Guadiana barrento para junto da porta do estabelecimento, tomando-lhe o interior –, Bárbara e Jorge Reis entram com a polícia marítima. Vão observar o rio e mostrar os vestígios da água e da lama que invadiram a casa. De galochas e uma simples vassoura em punho está Oliver, um alemão que chegou do seu país no dia anterior. Jorge Reis trata da casa que pertence à família da mulher de Oliver e alertou-o para a água que havia entrado na habitação dois dias antes. Atordoado, ainda, pelo cenário do rio em fuga, depois de vir à pressa da Alemanha na véspera, mostra-se incrédulo pelo que aconteceu, pelo metro de altura de água que lhe entrou em casa, nas breves e parcas palavras que partilha com o “DA” – “Foi catastrófico. Espero que o rio não suba de novo” –, antes de continuar a limpar as canas e o lixo que o Guadiana lhe trouxe, numa imagem quase inglória do esforço humano face à vontade da natureza.No final desse dia, a depressão “Marta” chegaria ao território nacional e, com ela, muita água ao Sul do País. No entanto, entre a chuva, as descargas das barragens a montante do Pomarão e do lado espanhol, o Guadiana não voltou a subir. E os habitantes da aldeia talvez tenham podido ter, finalmente, uma noite descansada de sono.

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