Diário do Alentejo

Venezuela

17 de janeiro 2026 - 08:00
A partir de Beja, três venezuelanos discorrem sobre o episódio histórico mais recente do seu país
Ilustração | Susa MonteiroIlustração | Susa Monteiro

Ao terceiro dia do novo ano o mundo acordou com a notícia da intervenção militar dos Estados Unidos da América (EUA) em várias cidades da Venezuela, através de ataques ditos “cirúrgicos”, pela especificidade dos alvos, nomeadamente, o que decorreu em Caracas, capital do país, que levou à detenção e transporte do presidente Nicolás Maduro e da sua mulher, Cilia Flores, para Nova Iorque, onde aguardam julgamento por acusações de narcoterrorismo, conspiração para tráfico de cocaína e crimes relacionados com armas de guerra. Caído o presidente, não caiu, contudo, até agora, o Governo venezuelano, estando este a ser interinamente liderado pela anterior vice-presidente, Delcy Rodríguez, ainda que Donald Trump, presidente norte-americano, tenha afirmado que serão os EUA a gerir a Venezuela e a extrair petróleo das suas enormes reservas, durante anos. Persistindo a incerteza quanto ao futuro do país, o “Diário do Alentejo” falou com três venezuelanos a viver em Beja, que nos revelaram os seus sentimentos face aos últimos acontecimentos registados na sua pátria e a perceção que têm sobre os caminhos que esta deverá seguir.

 

Texto  José Serrano

 

Em Beja, desde há cerca de quatro anos, Edgar Montero, trabalhador numa empresa agrícola da região, saiu do seu país em 2019, como consequência, sublinha, das ações perpetradas pelo regime ditatorial de Nicolás Maduro, que “trouxe à tona o pior da humanidade”. A primeira paragem, de uma fuga em procura de uma vida condigna, foi no Peru, onde chegou, percorrendo trilhos ao longo de seis dias, em 2019, pagando, para tal, “a guerrilheiros colombianos que controlam as fronteiras”. Na capital, Lima, esteve como motorista num escritório de advogados, profissão que bem conhecia. “Na Venezuela trabalhei como empregado durante muitos anos, mas depois consegui comprar um camião e abri a minha própria empresa de transporte de produtos. Durante 10 anos o negócio prosperou, tudo corria bem”. Mas, após a eleição de Hugo Chávez, em 1998, as expectativas de sucesso “diminuíram bastante” e quando “Maduro tomou o lugar presidencial”, em 2013, “as coisas pioraram”, refere. “Porque os seus irmãos e amigos compraram 30, 40, 50 mil camiões e colocaram soldados das forças armadas a transportar mercadorias – na marinha mercante, na indústria petrolífera, na indústria cimenteira, em todo o lado – e deixaram-nos [empresas de transporte privadas] sem emprego, não tínhamos trabalho em lado nenhum. Basicamente, afundaram-nos”, sublinha, sumarizando o legado do agora presidente detido: “Após Chávez ter entregado, antes de morrer, o poder a Maduro, a crista do tsunami atingiu o país, como uma onda de corrupção radioativa composta por todos aqueles que o rodeavam”, destruindo, imparável, tudo à sua frente.A onda destrutiva de que Edgar Montero fala, para além de corrupção, trouxe, enfatiza, a insegurança e o medo, através das ações de “um ditador perigoso que mandava prender, matar e violar”, e a miséria – “o povo sem comida, a passar fome, sem medicamentos, sem luz, sem água. Uma vida perigosa e necessitada para a maioria”.Por todas as razões explicitadas, o trabalhador agrícola venezuelano afirma ter festejado, como um dia há muito desejado, a notícia da detenção de Nicolás Maduro. “Ainda estou emocionado. Tenho recordado muito o meu irmão – Chávez despediu-o ao fim de 17 anos de serviço, sem lhe pagar um tostão – e o meu pai, que morreram sem ver este dia tão importante, em que a Venezuela se livrou deste enorme flagelo, desta doença terrível que foi Nicolás Maduro”.Também a família de Edgar Montero que se encontra na Venezuela “está feliz”, diz, tendo, no entanto, “medo de celebrar”, porque “as ruas ainda precisam ‘de ser limpas’”, frisa, e, até lá, a prudência aconselha a poucas manifestações de rejubilação. “Veem-se, ainda, nas cidades, muitos guerrilheiros e civis armados, apoiantes de Maduro”, pagos ainda, expõe, pelo regime. “Quem apoia o ditador não o faz de coração, não o faz por gostar dele, isso é mentira! Apoiam-no por lucro, por dólares, por comida”, elucida, transmitindo estar à espera que, com os EUA a “assumir o controlo” do país, “os últimos bandidos deponham as armas”.Relativamente à anunciada libertação da totalidade dos presos políticos – até quarta-feira, dia 14, organizações não-governamentais e o principal grupo de oposição da Venezuela contabilizou a saída em liberdade 73 presos políticos, dos cerca de um total de 800 referenciados –, Edgar Montero, ainda que dizendo ter “esperança” de tal suceder brevemente, “pois a Venezuela está no caminho da libertação”, teme que “muitos deles já tenham sido mortos, de tanta tortura”, uma vez que os seus verdugos “nunca pensaram que a lei, um dia, cairia sobre eles próprios”.Para o futuro do seu país, o ex-camionista é perentório na opinião que tem sobre qual o caminho que deve ser seguido. “A Venezuela tem um presidente eleito, que é Edmundo González Urrutia, eleito pelo povo, nas eleições presidenciais de 2024, por mais de 73 por cento – imagine-se o resultado se se tivesse permitido exercer o direito de voto aos oito milhões de venezuelanos que estão fora do país”. Este escrutínio – garantindo Maria Corina Machado, líder da oposição e Prémio Nobel da Paz de 2025, ter como prová-lo – foi ignorado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, que proclamou Nicolás Maduro vencedor das eleições presidenciais com 51,2 por cento dos votos contra 44,2 por cento de Edmundo González, o que levou a um grande movimento de contestação, com “manifestações reprimidas pelas forças de segurança, registando-se cerca de duas mil detenções e de mais de duas dezenas de vítimas mortais”, divulgava o “Público” na sua edição de 16 de agosto de 2024.“Não precisamos de eleições outra vez”, reitera Edgar Montero. “Temos um presidente eleito que fará a transição do cargo para Maria Corina Machado [inabilitada para ocupar cargos públicos, numa decisão do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela sob a acusação de vínculos com o “imperialismo” dos EUA], a nossa verdadeira líder democrática da Venezuela, com que a grande maioria do povo está”. Sobre o presidente dos EUA e das suas reais intenções acerca do futuro da Venezuela, muitas vezes questionadas pela contínua referência àquelas que são as maiores reservas petrolíferas do mundo – “Vamos reconstruí-la de uma forma muito lucrativa. Vamos usar petróleo e vamos extrair petróleo. Estamos a reduzir os preços do petróleo e vamos dar dinheiro à Venezuela, que precisa desesperadamente dele”, disse Donald Trump em entrevista ao “The New York Times”, no passado dia 7–, Edgar Montero discorre: “Estão a sugar o petróleo – Rússia, China, Cuba, principalmente – até à última gota, há 26 anos. E que benefício trouxe? Nenhum, a não ser para as elites do poder. Trump disse, agora, muito claramente, ‘eu quero o meu petróleo’, e tem razão, porque todas as refinarias de petróleo da Venezuela foram construídas por empresas dos EUA, que, depois de estarem prontas, Chávez expulsou do país. E eu acredito, tenho a certeza, que com a entrada, novamente, de petrolíferas norte-americanas, Trump fará algo pela Venezuela… já fez”.

 

Enquanto Maduro dançava…

 

 

Sobre Portugal, Betzabeth Rincon, de 30 anos, operadora fabril numa fábrica de descasque e processamento de amêndoa, próxima da cidade de Beja, ouve falar desde “muito pequena”, uma vez que o seu avô materno é natural de Porto Moniz, Madeira, tendo emigrado para a Venezuela com o objetivo de fugir à guerra colonial. “A minha mãe tem, também, nacionalidade portuguesa e tudo isso contribuiu para a minha vinda, desde Barcelona, uma das cidades mais importantes da Venezuela, para este país”, nomeadamente, para Beja, cidade que a acolhe, juntamente com o marido, trabalhador numa empresa agrícola da região, e os dois filhos, a frequentarem um dos agrupamentos escolares da cidade, desde há dois anos, de forma “hospitaleira, muito tranquilamente”. Do seu país, onde estudava Engenharia Civil, “quase a terminar o curso”, saiu por motivos da “miserabilidade” instalada. “A falta de trabalho, de alimentos, de medicamentos – tenho pessoas com epilepsia na minha família e era incrivelmente difícil conseguirmos os medicamentos necessários para prevenir as convulsões… E, por vezes, ficávamos mais de 20 dias sem água, três e quatro dias sem qualquer eletricidade, serviços básicos que o Governo se esquecia de disponibilizar ao povo. A nossa vida na Venezuela era um exercício diário muito difícil de sobrevivência. E nós não aguentávamos mais”. A par das dificuldades em aceder às necessidades fundamentais do quotidiano, Betzabeth Rincon refere a desumanidade de um “sanguinário” ditador, pragmaticamente explanada, diz, na sua reação após a autoproclamação, através do CNE da Venezuela, como Presidente da República, nas eleições de 28 de julho de 2024, consideradas fraudulentas por uma miríade de países e instâncias internacionais. A exemplo do Parlamento Europeu, que rejeitou “a fraude eleitoral orquestrada pelo CNE, controlado pelo regime, que se recusou a tornar públicos os resultados oficiais”, considerando dever-se “envidar todos os esforços para assegurar que Edmundo González Urrutia, presidente legítimo e democraticamente eleito da Venezuela”, pudesse assumir funções. “Enquanto Maduro comemorava a sua fraudulenta eleição, dançando num palco, para a televisão nacional, em Caracas, prendiam-se e matavam-se estudantes, políticos da oposição, donas de casa, crianças e pessoas comuns que simplesmente saíram à rua para defender o seu voto”, defende Betzabeth Rincon, tendo a Human Rights Watch, organização internacional de direitos humanos, comunicado, a 30 de abril de 2025, a “repressão brutal” existente após as eleições presidenciais, por parte do Governo venezuelano, que “assassinou, torturou, deteve e fez desaparecer à força pessoas que procuravam mudanças democráticas”. Por tudo isto, diz a operadora fabril, “quando Donald Trump anunciou que tinha detido Maduro” ficou “muito feliz”, celebrando o acontecimento, ansiando agora por ver o que acontece, “pois ainda há muitas pessoas más no poder que devem ser responsabilizadas, que devem pagar pelo que fizeram. Não é só Maduro”.Sobre o futuro próximo da Venezuela, Betzabeth Rincon considera a importância da transição de poder através de novas eleições, sendo que “será aí que Maria Corina Machado, que se tem mantido firme e inabalável na sua posição ao longo dos anos, enquanto outros acabaram por se vender ao Governo, poderá livrar-se, se Deus quiser, desta ditadura que há tantos anos está instaurada no nosso país, para que a Venezuela se possa reerguer. É isto que a grande maioria do povo deseja”. Sobre as intenções do chefe de estado dos EUA para como seu país, a operadora fabril corrobora a opinião de Edgar Montero. “A Venezuela tem uma dívida antiga para com os Estados Unidos da América e é preciso pagá-la. O que Trump fez, e irá fazer, não será simplesmente porque quer ser boa pessoa e nos quer ajudar, sem mais. É obvio que quer beneficiar da Venezuela. Mas se outros países nos roubam o petróleo há tantos anos… Pelo menos agora, com a entrada dos EUA na Venezuela, há uma nova expectativa de progresso. O que estamos a assistir é a um avanço e isso é algo que não conseguíamos desde 2014, quando os protestos para derrubar o Governo começaram. Claro que o futuro é, realmente, incerto, porque é dita muita coisa nas redes sociais, é divulgada muita informação em entrevistas, mas não sabemos, a 100 por cento, o que pode acontecer. Mas temos a esperança de que o que se está a passar leve o país a uma mudança positiva. Porque temos sofrido durante muitos anos”.

 

Respirar, de forma diferente

 

Tal como a sua conterrânea Betzabeth, também Isabel (nome fictício), de 28 anos, frequentava “a parte final” do curso de Engenharia Civil quando decidiu emigrar da Venezuela, há oito anos, primeiro para o Peru, depois para Espanha e, finalmente, para Portugal, juntamente com o pai e os dois irmãos, por questões políticas e sociais que observava e experienciava diariamente no seu país. “A cada dia, as coisas complicavam-se mais. Havia desemprego e havia fome, era difícil arranjar comida, a que é vendida nos supermercados tem um custo muito elevado comparativamente à média dos salários, era difícil arranjar medicamentos, filas enormes junto às farmácias, os hospitais não funcionavam devidamente, muitos não tinham água… E vivíamos, permanentemente, com medo. Medo de falarmos uns com os outros, medo de sermos presos, torturados nas cadeias venezuelanas”. Assim, Isabel considera que a detenção de Nicolás Maduro foi o “melhor, pelo que ele nos fez viver, que podiam ter feito”, uma vez que, diz, desde a sua ascensão ao poder, “desde a morte de Chávez”, que a situação se agravou no país. “Claramente, são as mesmas pessoas que mandam, mas com Maduro o país foi conduzido a uma situação extrema, ao pior do pior. Ainda que haja pessoas que apoiam o Governo, a verdade é que terem-no prendido foi um alívio para a maioria dos venezuelanos, o povo ficou feliz”.Tendo esperança num novo rumo, profícuo para a sociedade venezuelana, através da proclamada ingerência norte-americana nos seus destinos – “espero que sim, que tudo melhore” –, Isabel, há três anos a viver em Beja e a trabalhar numa empresa agrícola da região, considera que é Maria Corina Machado quem deverá presidir aos destinos da Venezuela, no intuito de, futuramente, o seu país poder ser livre, democrático e próspero. Até lá, vai observando-o – “o medo ainda existe, tudo está ainda muito incerto” – desde o Alentejo, terra onde se pode “respirar de forma diferente”.

 

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