Longe vão os tempos em que, por esta altura, os holofotes mediáticos do País pousavam sobre Barrancos. No fim de agosto sempre decorreu a tradicional “fêra”, em que os touros de morte, devido à ilegalidade da prática, suscitavam interesse, protestos e tumultos na pequena vila raiana. Passados 22 anos desde a legalização dos festejos taurinos, como lhes chamam os locais, os olhares sobre a terra diminuíram a pique. Por agora, é a construção dos tabuados que requer atenção. Com cada vez menos pessoas que saibam construir a estrutura de madeira que ocupa a praça central de Barrancos, por estes dias, assegurar o futuro, mantendo a tradição, é fundamental para a continuidade da “fêra”.
Texto | Marco Monteiro Cândido Fotos | Ricardo Zambujo
São 08:30 horas de sexta-feira, 22 de agosto. Falta menos de uma semana para a “Fêra” de Barrancos ter início. Na praça da Liberdade, lugar central da vila raiana, o dia, para os trabalhadores da câmara municipal encarregues de construir os tabuados, começou a par com a raiar do sol, por volta das seis da manhã. É o quinto dia de construção e montagem da estrutura em madeira que servirá de arquibancada para os visitantes, de proteção, mas também onde estarão os curros dos touros que participarão nos festejos taurinos. A praça, que serve de “sala da visitas” da terra, ainda não tem muito mais pessoas do que aquelas que ali estão a trabalhar, em prol da grande festa que começará daí a menos de uma semana. Entre a agitação do transporte das peças de madeira, dos bancos, do som rítmico do martelar dos pregos na madeira ou do corte da mesma com as serras elétricas, o que à partida poderá parecer algo sem uma ordem específica, obedece, na verdade, a um preceito bem oleado. Para quem está a construir os tabuados, todos os movimentos fazem sentido, tudo tem uma ordem, um preceito.
Com a “Fêra” de Barrancos a ter lugar entre os dias 28 e 31 deste mês [aquando da publicação desta reportagem do “Diário do Alentejo” (“DA”) o evento já começou], a construção dos tabuados na praça da Liberdade é um dos momentos mais importantes das Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição, o nome oficial das festividades.
A construção dos tabuados teve início na segunda-feira anterior, dia 18, à visita do “DA”. A particularidade deste ano tem que ver com o facto de, à equipa de mestres construtores, se ter juntado um grupo de jovens integrados no projeto-piloto “Formação de aprendiz de mestre construtor”, promovido pela Câmara Municipal de Barrancos, com a aprendizagem, em “contexto real”, a decorrer na montagem dos tabuados na praça da Liberdade e na desmontagem a partir de 2 de setembro, assegurando a continuidade desta prática cultural.
“O projeto-piloto levado a cabo pela câmara municipal teve como objetivo principal transmitir os conhecimentos necessários, aos mais jovens, a uma nova geração, sobre como montar (construir) os ‘tabuados’, sendo estes a infraestrutura principal que acolhe todos os festejos taurinos”. Segundo a vereadora e vice-presidente da autarquia barranquenha, Cláudia Costa, o propósito de criar esta “formação em contexto real” surgiu da necessidade de assegurar a continuidade do saber construir os tabuados, algo quase tão importante como a “fêra”, propriamente dita. “A importância cultural e de afirmação da identidade de Barrancos estão intimamente ligadas às nossas festas e tradições e, nesse sentido, a construção dos tabuados é mais uma manifestação cultural da nossa identidade que merece ser preservada e transmitida de geração em geração. Assim, os atuais mestres construtores disponibilizaram-se para transmitir todo o seu conhecimento e saber fazer a uma nova geração de aprendizes, evitando, desta forma, correr o risco do seu desaparecimento, isto é, o desaparecimento da técnica e dos saberes da arte de construção dos tabuados”.
Os aprendizes À medida que o dia avança, a praça da Liberdade vai ganhando vida. Ao frenesim da construção dos tabuados junta-se a agitação dos muitos curiosos que por ali já vão passando e parando, enquanto observam os trabalhos. Por volta das 09:00 horas, uma pausa daqueles que estão a trabalhar na estrutura que irá servir a “fêra”. Ao mesmo tempo, nota-se que o número de pessoas que atravessam a praça e por ali ficam vai gradualmente aumentando. Sendo um concelho com cerca de 1500 habitantes, por estes dias são muitos aqueles que regressam à sua terra, a propósito dos festejos. E isso nota-se. Como também se nota a importância que os barranquenhos atribuem a este momento, seja no orgulho com que falam da “fêra”, seja no brio com que caiam e pintam as suas casas a poucos dias da vila se encher de gente.
Entre as duas dezenas e meia de homens que têm por missão levantar os tabuados para a festa está Salvador Perfeito, de 20 anos. O jovem, que é meio barranquenho – o pai é de Safara e a mãe é de Barrancos – fez um curso profissional de cozinha, trabalhou num restaurante e tem estado desempregado. Até que surgiu a oportunidade de frequentar esta formação. Juntou-se com alguns amigos, foi aceite e começou a aprender “a fazer os tabuados”. Uma espécie de aprender, fazendo. “Muita malta mais velha daqui uns anos já cá não está e se não houver malta nova que aprenda, depois não há continuidade disto”.

O estar desempregado motivou-o a inscrever-se na formação, no entanto, a especificidade da “Fêra” de Barrancos também contribuiu para o fazer. “Eu gosto disto, é uma festa engraçada. É única. Não tem nada a ver com as outras coisas. Só aqui em Barrancos é que há disto”. E continua: “Temos aprendido e feito de tudo um pouco. Os mais velhos ensinam-nos a fazer as coisas da melhor forma, que é para não termos de arrancar as coisas. Por exemplo, se há algo mal feito, não temos de arrancar [o que está feito] por causa de uma coisa”.
Visivelmente satisfeito com o tempo que tem passado na construção e na montagem dos tabuados, Salvador admite que só uma coisa lhe tem custado mais: “Pregar os pregos grandes. É mau. Não vê como tenho as mãos?”. Mas, mesmo assim, tem valido a pena o esforço. “Isto é também um motivo de orgulho, participar aqui na construção disto, chegar ao dia da festa e sabermos que fomos nós que fizemos”.Apesar de o número de pessoas envolvidas na construção dos tabuados ter vindo a diminuir ao longo dos anos, a criação da formação – que terminará com a desmontagem da estrutura, depois do final das festas, já nos primeiros dias de setembro – é algo inédito. “O projeto surgiu neste ano e esperamos que a bolsa de futuros mestres de construção dos tabuados continue como projeto identitário nos próximos anos até alcançar um número suficiente de mestres construtores”.
A vereadora da autarquia assim o espera, até porque o saber associado a esta arte corre o risco de desaparecer, se nada for feito. “Foi exatamente esse receio de que a médio prazo, num futuro próximo – talvez bastante próximo –, o risco de falta de artesãos (mestres construtores) conhecedores da técnica tradicional da construção dos tabuados, e que é uma herança ancestral, pudesse colocar em causa a sua construção, tal como a conhecemos”. O facto de muitos dos que sabem construir e erguer a estrutura estarem em idade de reforma, ou perto dela, leva a que a Câmara de Barrancos tenha optado por criar um projeto de transmissão do conhecimento. Neste momento, 10 formandos/aprendizes juntaram-se aos 15 operacionais da autarquia, conhecedores desta técnica, recebendo uma bolsa de formação durante a sua frequência.
“Tendo em conta que a construção dos tabuados decorreu com bastante entusiamo e cooperação entre os novos aprendizes e os mestres construtores, sendo o feedback bastante positivo, certamente no próximo ano poder-se-á contar com a mesma equipa de entusiastas e com outros que se queiram associar ao projeto garantido o futuro desta arte e técnica ancestral “, sublinha Cláudia Costa. Entusiasmo, esse, que fez com que toda a estrutura fosse montada em seis dias, ficando pronta cinco dias antes dos festejos.
“Há sempre o peso de se querer que esta festa não se perca. Nos anos anteriores, há vezes em que eu chego à festa, vejo os tabuados já construídos e não dou o devido valor à construção. Nem sequer penso que existe esta parte da construção, mas, efetivamente, existe. Não aparecem aqui de um dia para o outro e também temos de pensar que sem os tabuados, e sem estas pessoas que os constroem, a festa não existiria. Portanto, eu acho que também é uma parte importante, no geral, para Barrancos”. Com 19 anos e natural de Barrancos, António Ruivo é, também ele, um dos formandos que está a aprender com os mais velhos. Estudante universitário, em Biotecnologia, achou que seria interessante aprender esta arte, até por incentivo da mãe, agora que está em período de férias, assumindo-o como um trabalho de verão. Ou de verões. “Já pensei nisso, mas acho que vai ser, efetivamente, uma coisa muito complicada de conciliar no futuro. Provavelmente, enquanto estiver a tirar o curso – ou se por acaso não conseguir entrar num emprego na minha área – tentarei encaixar”.

No que diz respeito ao entrosamento com os mais velhos, António não poderia estar mais satisfeito. “Eles têm-nos recebido super bem. Não nos têm excluído de quaisquer tarefas. Têm tentado integrar-nos, o que conseguem, ao máximo. E, acima de tudo, têm-nos ensinado para um dia em que tenham de sair e que estejamos cá nós para dar continuação”. No entanto, há uma coisa que lhe custa. E não, não são os pregos, como ao seu colega Salvador. “O mais difícil, para mim, é acordar de manhã. Acordar às 05:30 horas da manhã é o mais complicado”.
Os mestres São 10:00 horas e a manhã de trabalho já vai a mais de meio. O horário de quem constrói os tabuados é das 06.00 às 12:00 horas, aproveitando o tempo mais fresco do início dos dias. Continuam a ser atraídos, pela azáfama dos trabalhos, a presença e os olhares dos curiosos que por ali chegam. Haverá até quem, entretido que está, coloque uma pequena almofada no poial de uma das portas de uma habitação que dá para a praça, de forma a assistir, de forma confortável, ao que se vai desenrolando por ali.
Sentando num outro poial, no caso, o da igreja, está Alexandrino Reguenha, de 61 anos, enquanto trata da lâmina da motosserra que, daí a instantes, voltará a cortar madeira. Com 40 anos de trabalhador da câmara municipal, há 20 que está envolvido na construção dos tabuados, onde faz de tudo um pouco: “Abro buracos, racho madeiros, coloco pregos, faço cortes em madeiros. Faço de tudo”. Otimista quanto ao futuro das tarefas que desempenha, lá vai dizendo que sempre se arranja pessoal para o fazer, que há sempre interesse, relembrando, em simultâneo – a propósito dos aprendizes que por ali andam –, como se sentiu quando começou: “Não sabia nada, não, o que era normal. Vai-se aprendendo com os anos. E com os velhotes, os mais velhos, que iam ensinando a gente”.

Com a motosserra quase pronta, antes de recomeçar a cortar madeiros, ainda diz: “Isto pertence tudo à festa. Isto já é o começo da festa. É um momento de orgulho. Estamos durante o ano esperando por este momento, para fazer a festa. E depois continuamos a festa. Começa na praça e é tudo assim”. E lá segue, ligando a motosserra.
Para Cláudia Costa o importante é dar continuidade ao projeto. Independentemente de quem esteja na câmara municipal no futuro, tendo em conta as eleições autárquicas do próximo dia 12 de outubro. “Esteja quem esteja no executivo, o importante é garantir que a nossa tradição se mantenha, e isso envolve a construção dos tabuados, ícone da nossa cultura, que se erguem anualmente na praça principal da vila de Barrancos, praça da Liberdade, com a finalidade de aí criar uma ‘praça de touros’ improvisada onde o público assiste aos encerros dos touros (de manhã), às corridas de touros (de tarde) e aos espetáculos musicais (de noite), no âmbito das tradicionais Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição, ‘Fêra’ de Barrancos. Tudo em prol da nossa cultura e das nossas tradições”.
Do lado oposto da praça, de frente para a igreja e junto ao edifício dos CTT, António Rodrigues, de 58 anos, está a pregar aos tabuados as chapas de madeira dos curros. Auxiliado por dois elementos mais novos, António Rodrigues é o carpinteiro da Câmara Municipal de Barrancos e responsável por toda a construção dos tabuados. Foi em 1988 que começou nesta arte, há 37 anos. “Isto no princípio não levava metade da madeira que leva agora. Era menos pessoal, menos coisas. Há muitos madeiros que não levava. Por exemplo, estes que vão para a frente não levava, levava só para trás que é para fazer mais força. Quando houve a polémica de que não se podia matar os touros, apareceu muita gente, de todo lado, houve uma enchente. Então, isto começou a levar madeira para receber mais pessoas”.

Bisneto, neto e filho de carpinteiros, António Rodrigues considera que a formação que está a decorrer é uma boa maneira de assegurar o futuro da construção dos tabuados. “Agora, claro, esperava bem que para o ano fossem os mesmos, porque, como se tem feito daqui para trás, vão e vêm, tiram a vontade até à própria pessoa. Começam a querer aprender e depois ficam em casa ou vão para o outro lado. Chega a um ponto em que as pessoas perdem a vontade, perdem o ânimo”. As palavras do único carpinteiro dos tabuados denunciam, apesar de tudo, a satisfação pelos trabalhos que os aprendizes têm vindo a desenvolver. “Esta malta tem estado toda a trabalhar bem. Do que tenho visto, tenho adorado, tenho gostado. Senão não estava isto adiantado como está. Somos meia dúzia de pessoas que sabemos, o resto não sabe. Eles estão gostando, estão fazendo as coisas bem. E se a pessoa não vê como está feito, chega-se a um ponto em que ninguém sabe, com um a reformar-se e outro e outro…”. No entanto, refere que não é fácil cativar os mais novos a ficar na função, mas também na terra. “Mas é a tal coisa, aqui não se ganha, não há mais nada. É assim que as pessoas vão fugindo, de Portugal em si, porque o que passa aqui se passará em todo o Portugal”.
A preparação dos tabuados, propriamente dita, segundo António Rodrigues, começa três a quatro meses antes da sua construção e montagem. O que faz parte da festa, como foi sendo referido ao longo da manhã. “A festa já vem de há muito tempo e já não é ela metade do que era, que o pessoal vai perdendo as tradições…”. No final, o que resta é um misto de orgulho e alegria. “A sensação é que me sinto com muita alegria quando vejo que está bem, que tudo corre bem. Se há qualquer coisa que se parte, a pessoa fica com o coração nas mãos, imediatamente. É normal, mas é um motivo de orgulho para todos”.
A jornada de trabalho do dia está quase a chegar ao fim. O preceito das madeiras que servem de cunha, para fazer força e pressão, como se fossem um jogo de pesos e contrapesos sustentam a estrutura que está praticamente montada. António Ruivo está confiante – sublinha-o mais uma vez – no futuro desta arte. “Pelo que tenho visto, mesmo nós, a malta mais nova, temo-nos portado bem. Acho que daqui a uns anos temos isto sabido e acho que o futuro está garantido”. E, mesmo que a carreira por via do curso de Biotecnologia lhe corra bem, não dá este tempo de formação nos tabuados de Barrancos por perdido ou mal-empregado: “O saber não ocupa espaço!”.