Diário do Alentejo

Moçambique

29 de março 2025 - 08:00
Cinquenta anos depois do 25 de Abril o “Diário do Alentejo” dá a conhecer as memórias de ex-combatentes no Ultramar
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Integrado nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, a Junta de Freguesia de Santiago Maior e São João Batista, em parceria com o Núcleo de Beja – Liga dos Combatentes, lançou em meados de outubro de 2024, nas redes sociais, o projeto “Memórias de Guerra”, que visa celebrar e valorizar o papel dos ex-combatentes da guerra do Ultramar. O projeto apresenta 22 histórias de ex-combatentes bejenses “que foram arrancados da sua cidade e das suas aldeias, obrigados a partir para os antigos territórios ultramarinos, sem saber em nome de quê ou quem, nem o que os esperava ou se algum dia voltariam a ver as suas famílias”. O “Diário do Alentejo”, ao longo de três edições (em janeiro, fevereiro e março), dá a conhecer alguns destes depoimentos. Para encerrar este ciclo, nesta semana apresentamos as histórias de João Sousa, José Carvoeiras e Vital Guerreiro, combatentes em Moçambique.

 

Texto Marco Monteiro Cândido Fotos Ricardo Zambujo

 

Abril de 1969. No dia 12 desse mês, véspera de se assinalarem oito anos desde que António Oliveira Salazar havia anunciado que se haveria de ir “para Angola, rapidamente e em força” – tendo partido os primeiros soldados para o ultramar a 21 de abril de 1961 a bordo do paquete “Niassa” –, José Carvoeiras e Vital Guerreiro, ambos com 77 anos nos dias de hoje, estavam em Lisboa. À época com 21 anos, o destino comum de ambos estava traçado e preparava-se para começar a ser cumprido: iriam embarcar rumo a Moçambique, fazendo parte dos contingentes de milhares de soldados portugueses que combatiam nas colónias ultramarinas. José Carvoeiras partiu do cais da Rocha do Conde de Óbidos e Vital Guerreiro de Alcântara, locais que voltariam a pisar no regresso à metrópole, dois anos depois. No entanto, mal sabiam que o destino de ambos, igual à partida, acabaria por ser tão diferente, a cerca de 7500 quilómetros de distância, em linha reta, nas terras longínquas de Moçambique. Nem João Sousa, um pouco mais velho, hoje com 78 anos, calculava que havia de estar ligado a José Carvoeiras, que o foi render. Mas isso, perceber-se-á mais à frente.

Os destinos de José Carvoeiras e de Vital Guerreiro começariam a traçar-se de forma distinta logo à saída de Lisboa. Se o primeiro embarcou no paquete “Império”, o segundo fê-lo no “Niassa”. O regresso haveria de ser ao contrário. Mas não só. O cenário que iriam encontrar, a própria experiência que teriam e a forma como a Guerra do Ultramar os marcou seriam substancialmente diferentes, quase opostas. Mas, voltemos dois anos atrás, a 1967, quando João Sousa partiu.

 

Marcado para o resto da vida

 

Nesse ano, João Sousa havia embarcado para Moçambique, no paquete “Vera Cruz”, a 11 de outubro. Antes, assentou praça em Beja, em janeiro de 1967, no Regimento de Infantaria 3 [atual Regimento de Infantaria 1], tendo, dois meses depois, ido para Campolide, em Lisboa, tirar a especialidade de Transmissões, nos Caçadores 5. Daí segue para Évora e é no Regimento de Infantaria 16 que virá a receber a notícia de que estava mobilizado para Moçambique. “Foi uma tristeza, como eu costumo dizer. Já tinha quase 11 meses de tropa quando fui mobilizado. Já estava com aquela coisa assim: ‘No fim sou capaz de me safar…’”. Não se safou e em outubro desse ano embarcou. Depois de uma viagem no “Vera Cruz”, assim que coloca os pés em África começa a perceber como será a sua vida nos próximos dois anos. “Desembarcámos em Nacala, no norte de Moçambique [província de Nampula], no dia 1 de novembro de 1967. Fomos logo... Entregaram--nos logo uma G3 [metralhadora de tiro automático e semiautomático] a cada um e fomos de coluna militar por aqueles matos fora até chegar a Nangololo [província de Cabo Delgado]. Levámos quatro dias e quatro noites. Vejam bem a receção, quando um gajo lá chega, não é? Com aquele ambiente que vi, o ambiente africano, muito diferente do nosso, as condições de vida e tudo, e sem saber o que é que se ia passar… Comecei a pensar assim: ‘Já não volto para a metrópole’”. Haveria de voltar.

Em Moçambique, o conflito armado tinha começado no verão de 1964, cerca de três anos antes de João Sousa colocar os pés pela primeira vez em continente africano. E foi precisamente a norte do país, nas províncias de Cabo Delgado e do Niassa, que tudo começou e onde a guerra seria mais intensa e sangrenta. Se em agosto de 1964, precisamente, em Nangololo, um padre holandês foi assassinado por guerrilheiros da Mozambique African National Union (Manu, algo como a União Nacional Africana de Moçambique), dissidentes da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no mês seguinte, a 25 de setembro, teriam lugar os primeiros ataques da Frelimo, precisamente, em Cabo Delgado (Chai) e Niassa (Cobué). Nesse mesmo dia, os líderes da Frelimo declararam: “A luta armada é a única via que permitirá ao povo moçambicano realizar as suas aspirações de liberdade, de justiça e de bem-estar social”, assumindo a “liquidação total e completa do colonialismo português”.

 

 

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“Ah, custa muito, custa muito… E às vezes até... Já tenho acordado a sonhar naquilo. Aquelas coisas que lá passei… [Aquilo] marcou-me para o resto da vida. Às vezes tenho pesadelos. Tenho, tenho, tenho… Por volta das duas e meia, das três da manhã, até às cinco...”.

 

João Sousa

João Sousa, hoje com 78 anos, recorda bem a dureza desses dias. “A guerra mais dura era em Cabo Delgado e Niassa. Mas na parte de Cabo Delgado, quando nós passávamos de Montepuez para cima, era tudo zona de intervenção”. E continua: “Era só o mato, de um lado e outro. Era só o que se via das picadas. Lá chamavam-se picadas, nós aqui chamamos estradas velhas. Eram só picadas, mas o mato cerradíssimo, não se via nada. Mal a mal para passarem as viaturas. Ia tudo com medo que, de repente, rebentasse logo alguma mina ou qualquer coisa”.

Com especialidade em Transmissões, João Sousa esteve desde novembro de 1967 até fevereiro de 1969 num quartel que havia em Nangololo. Dentro do “arame farpado”, como recorda, mais de 50 anos passados. “A gente não podia sair de lá”. Os abastecimentos, esses, eram feitos por avionetas ou helicópteros. “Eu era primeiro cabo de Transmissões. Nós fazíamos as seguranças às colunas, para Muidumbe e Miteda. Tínhamos que fazer aquelas batidas todas ali à roda do acampamento, aquelas picadas todas. E quando havia uma coluna... Tínhamos de fazer a proteção à coluna. Mas tínhamos de a fazer antes de passar, por causa das minas”. Numa dessas batidas viveu um dos momentos mais complicados durante a guerra. “Foi uma emboscada que eles fizeram quando fui fazer uma segurança... Eu fazia uma segurança para Muidumbe. Fomos para lá, não tivemos problema nenhum, tudo bem. Quando regressámos, fomos emboscados. Aquilo, ou deram por a gente passar, ou qualquer coisa. Quando voltámos para cá... Eu tive mais de meia hora no chão. Os tiros por baixo, os tiros por cima. Depois o rádio… Aquilo eram tudo rádios velhos, custavam a transmitir. Ah, uma carga de trabalhos! Foi o pior momento que passei”. Apesar de não ter havido baixas nesse dia, longínquo na cronologia do tempo, mas bem recente no relembrar da memória, esse era um risco constante, concretizado noutras ocasiões. “Felizmente, nessa vez não houve baixas. Quando havia qualquer colega que falecia ou que ficava ferido... Nós ficávamos extremamente traumatizados! A gente ouvia dizer: ‘Houve isto, houve aquilo com fulano’. Um gajo metido ali no meio daquilo, sem saber onde é que havia de...”. E continua, ao relembrar um dos momentos que mais o marcaram: “Houve dois colegas, dentro do acampamento… Rebentou uma armadilha. Não sei se eles [guerrilheiros moçambicanos] foram lá pô-la ou qualquer coisa... Não sei o que foi. O furriel ficou sem a mão direita. E o cabo ficou sem uma vista. A malta correu logo toda, como estava lá tudo quase dentro do acampamento. Fomos logo buscar umas macas, umas coisas que foram improvisadas para trazer os corpos. Foram evacuados de helicóptero. Isto também me marcou. E a gente já não podia pensar em certas coisas, senão depois ainda era pior”.

Relembrar o que se passou não é fácil para João Sousa. O que o jovem de vinte e poucos anos viveu marcou e marca o homem de 78 anos, ainda hoje, custando-lhe a relembrar. “Ah, custa muito, custa muito… E às vezes até... Já tenho acordado a sonhar naquilo. Aquelas coisas que lá passei… [Aquilo] marcou-me para o resto da vida. Às vezes tenho pesadelos. Tenho, tenho, tenho… Por volta das duas e meia, das três da manhã, até às cinco...”. Quase como se lá estivesse. “Aquela excitação… sobressalto…”.

 

Coincidências do destino…

 

Em fevereiro de 1969, João Sousa sai de Nangololo para a segunda parte da comissão, mais a sul, e é colocado em Mocuba, na província da Zambézia. “Aí, quer dizer, já era uma vilazinha grande, já tinha alguma população branca, nós já nos sentíamos mais... seguros. Não havia aquela zona, como era lá em cima, que era só guerra. Costumava-se dizer, naquela altura, a nível militar: ‘Agora viemos descansar’”. A 15 de dezembro desse ano desembarcaria em Lisboa.

As vidas de João Sousa e José Carvoeiras tiveram algo em comum, nesse ano de 1969, mesmo sem o saberem. Quando o primeiro foi para uma zona mais a sul, mais tranquila, o segundo haveria de chegar, precisamente, a Moçambique e seria destacado para a mesma região, a cerca de 40 quilómetros de Nangololo, em Mueda. Coincidências do destino…

 

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“Ele só pedia que o matassem: ‘Deem-me um tiro, acabem-me com isto. Eu não aguento isto’. Estava sem pernas, ‘tomates’, tinha ido tudo à vida. E preto [das queimaduras]. E só pedia: ‘Se está aqui algum amigo, dê-me um tiro’. Mas quem é que faz isso?”.

 

José Carvoeiras

Quando José Carvoeiras segue no “Império” rumo a Moçambique já leva 18 meses de tropa. Em Moçambique estaria dois anos. Quando saiu da tropa já tinha quase 25 anos. “Eu fiz 24 meses no mato. Dois anos e cinco dias de zona de 100 por cento [de intervenção] em Mueda. Fomos dois pelotões para o Cabo Delgado. Ficou um em Mueda e o outro em Mocímboa da Praia. Ao fim de um ano trocámos. Mocímboa da Praia já era melhor. Já tinha dois restaurantes. Era uma aldeia, na mesma. Havia guerra, mas era quando se saía de lá. Lá não havia nada. Havia um cinema. Já tinha outras condições. Tinha praia, a malta dava um mergulho, e Mueda só tinha mato, era só mato. Era a 100 quilómetros de lá e era no interior. E foi onde começou a guerra em Moçambique e quando ela acabou ainda lá havia guerra. A gente saía do arame farpado e estava levando porrada, quando não as levava dentro do arame farpado. As morteiradas de noite, de vez em quando, eram para acordar a gente. Mas... essa parte fica para mim. Ainda hoje, quando falo...”. As palavras ficam suspensas no desfiar da memória.

José Carvoeiras sublinha que, normalmente, ao longo dos dois anos de comissão, era normal ficar-se um ano numa zona de maior intervenção e o segundo numa zona mais tranquila, para “descansar”. Com ele não foi assim. No entanto, a sua chegada começou bem. Nessa altura, em abril de 1969, tinha um irmão e um cunhado mobilizados, precisamente, em Moçambique. E assim que desembarca vê o cunhado. Uma cara conhecida no meio do desconhecido. “Assim que o vi, pronto, aquilo foi uma alma nova, não é? Estou a descer, estou a sair do barco. Olho assim para a frente e vejo aquele gajo à minha frente. Quando eu saí daqui ele estava na Beira e tinha o meu irmão no Niassa. O meu irmão vi-o porque conseguimos marcar férias [mais tarde] e fomos para a ilha de Moçambique passar 15 dias em grande. Este [o cunhado], tivemos um ano juntos, porque ele foi também para Mueda”. Coincidências do destino…

Mas, voltemos com a linha do tempo atrás. José Carvoeiras assentou praça em Elvas, a 30 de outubro. Passada a recruta, vai para Cavalaria 6, no Porto, onde tirou a especialidade de Atirador, da “autometralhadora Daimler”. Depois de três meses, é destacado para Cavalaria 7, na Calçada da Ajuda, em Lisboa, já como primeiro cabo. E é aí, onde esteve cerca de um ano, que viria a ser mobilizado, num ato que lhe passou pelas próprias mãos, como se verá mais à frente.

Já em Cavalaria 7, e com o irmão há seis meses em Moçambique, José Carvoeiras vai passar um fim de semana a casa. A mãe, figura constante nas suas memórias, pergunta-lhe se ele acha que se “safa” à mobilização para África, uma vez que já tinha 17 meses de tropa. “E eu digo-lhe: ‘Se me safar a próxima semana, safo-me mesmo. Agora, tenho a próxima semana ainda’. Isto porquê? Porque no final dessa semana, da semana seguinte, havia uma nova camada de soldados que acabavam a sua instrução. E, portanto, se esses indivíduos passassem a pronto, acabassem a sua formação e eu não fosse mobilizado até ao fim dessa semana, que era quando eles ficavam à minha frente, eu safava-me. Eu estava na altura em Cavalaria 7, na Calçada da Ajuda, e trabalhava na secretaria regimental e era eu que passava à máquina as ordens de serviço. [Na segunda-feira seguinte] cheguei e comecei a preparar a ordem de serviço e começo a escrever, a escrever, a escrever... ‘Quem? Zé António? Então, este gajo sou eu!’. Estava lá o meu nome e já não o escrevi”.

Coincidências do destino…

O seu mundo desabou. Não queria acreditar. “Desaparece tudo. Cai tudo abaixo. Porque, naquela altura, à medida que iam passando os anos, a gente ia cimentando aquela... ‘Se calhar vou-me safar, se calhar vou-me safar, se calhar vou-me safar...’ Porque toda a gente sabia que aquilo não era nada. A gente sabia que ia para lá, mas não sabia se voltava. E então aquilo era um peso muito grande. E a gente contava os dias a ver se se safava. ‘E agora como é que eu digo à minha mãe?’ Que já lá tinha um filho. Que lhe tinha morrido o pai havia três, quatro anos, e ela não tirou o luto porque... Não quis tirar o luto enquanto os filhos não saíssem da tropa!”. Apenas contou à sua mãe no fim de semana seguinte. “Ela já chorava todos os dias. E foi mais um fim de semana a chorar”.

Menos de um mês depois embarcou. Pelo meio ainda foi ao Porto fazer a instrução de aperfeiçoamento operacional (IAO): “Uma espécie de semana de campo, para preparar nada, porque aquilo que aprendemos [no terreno, em África] não existia. Dão-me 10 dias para vir a casa despedir da família. Volto ao Porto, pego nas malas e vou para o cais de Alcântara”. Rumo a Moçambique. Voltaria a 18 de junho de 1971.

Chega a Mocímboa da Praia e parte rumo a Mueda, seis horas de caminho. Relembra que nas últimas duas vezes que fez esse percurso demorou sete e nove dias. “Tínhamos dias de andarmos 500 metros, um quilómetro, dois. Eram as minas, pessoal ferido, tínhamos que esperar, limpar o terreno para poder ir um helicóptero fazer a evacuação. De noite não se andava, onde estávamos, tínhamos de ficar. E, portanto, nove dias. Era uma coisa de um gajo dar em doido. E na primeira vez que isso nos aconteceu saímos com uma ração de combate para um dia e foram cinco”.

 

Viver-se o que se preferia não viver

 

José Carvoeiras: “Eu estava em Mueda e para irmos buscar os abastecimentos íamos para Mocímboa da Praia, que ficava a 100 quilómetros. E a malta, no percurso que fazíamos, ao fim de 25 quilómetros, parava-se normalmente ali no que chamávamos o ‘largo do aço’, porque havia ali muitas cápsulas de munições. Eu vou na viatura, era cabo, na altura era o chefe da viatura, e um indivíduo ia na Berliet [um dos veículos mais utilizados na guerra ultramarina, para transporte de carga e pessoal], mas lá atrás, ele com mais uns quantos. Aquilo que a gente chamava ‘checas’, eram aqueles indivíduos que estavam a fazer a primeira vez aquela viagem. Passámos junto a uma mangueira, uma árvore enorme, e toda a gente que lá chegava tinha uma tentação enorme de ir apanhar mangas para comer. E eu grito, quando o carro para: ‘Ninguém salta, porque isso está minado’. E este gajo diz-me assim: ‘Lá está a velhice armada em boa’. E, pumba, joga-se e conforme se joga ficou sem um pé e um bocado do outro. O gajo joga-se, cai em cima da mina, uma mina antipessoal, e depois tivemos ali quatro ou cinco horas à espera que viesse uma avioneta, um helicóptero para o levar”.

“Há uma parte que se passa numa coluna que eu vou fazer a Mocímboa da Praia e chego ao Sagal e está lá uma companhia de ‘checas’. Estava lá um quartel, era antes de chegar à ‘Curva da Morte’, que era uma curva e contracurva, no meio de uma serra em que os gajos, à pedrada lá de cima, acabavam com a gente cá em baixo. Nem precisavam de vir cá abaixo, eles lá de cima tratavam de gente. E eu estou em Sagal, com a malta que estava lá fixa, e há um gajo que me diz assim: ‘Você disse que era de Beja? O meu instrutor era de Beja’. E pergunto: ‘Então e como é que ele se chama?’ “É Chico Carvoeiras”, diz o rapaz. ‘É o meu irmão’. Ah, apanhámos uma bebedeira nessa noite. Era como aquilo que acabava. A gente não pensava: mais uma cerveja, mais uma… Eu fiquei com o moço, estivemos até às tantas da noite falando e bebendo umas cervejas. Digo eu assim: ‘Vou ver se ainda consigo dormir alguma coisa’. Diz o gajo: ‘Olha, eu não, vou para a picada, vou picar a estrada’. Porque quando vinha uma coluna, normalmente, aqueles que estavam ali, para dar uma folga àqueles que iam na coluna, eles iam picar ali quatro ou cinco quilómetros. E o moço, quando ia fazer esse trabalho, disse-me assim: ‘Zé, leva-me uma cerveja que é para a gente beber lá os dois quando nos encontrarmos’. Eles depois esperavam por a gente e seguíamos. E eu digo: ‘Está bem, fica descansado’. O gajo foi. Ao fim de um bocado, pumba! Foram-no buscar, vieram para ali, e eu olhei para o gajo e disse: ‘Foda-se, mais um preto’. Não era um preto, era um branco e era esse moço. Ele só pedia que o matassem: ‘Deem-me um tiro, acabem-me com isto. Eu não aguento isto’. Estava sem pernas, ‘tomates’, tinha ido tudo à vida. E preto [das queimaduras]. E só pedia: ‘Se está aqui algum amigo, dê-me um tiro’. Mas quem é que faz isso?”.

 

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Depois de lá estarmos, começamos a ver que aquilo era uma guerra de negócios. Porque todos queriam apanhar o que lá estava, o ouro, a minério e essa porcaria toda. Mas, todos é todos”.

 

Vital Guerreiro

“Sorte e fé, de mão dada uma com a outra”

 

Tal como José Carvoeiras, também a 12 de abril de 1969, mas no “Niassa”, embarcou Vital Guerreiro rumo a Moçambique. Hoje, com 77 anos, recorda esses tempos, uma experiência quase rara, quando comparada com tantos outros camaradas de armas. Assentou praça em 1968, em Lagos, seguiu para o Porto, para Infantaria, e tirou a especialidade de Condutor. Depois, Viana do Castelo, para fazer a IAO. Quando recebeu a notícia da mobilização, confessa que não o impactou muito. “Quando eles deram a notícia, a gente já não se preocupava. Porque antes disso deram-me uma injeção dessas de cavalo, que um gajo perde a cabeça. Aquilo mexia com um gajo, que já não via, nem se preocupava com coisa alguma. Vais para a guerra? Vamos embora! Estava pronto para tudo. Custou-me mais antes de ir para a tropa, porque a malta que tinha vindo de lá e dizia o que fazia, o que acontecia, morria assim, morria assado. Aí custou-me mais do que custou nessa altura, porque a gente fica tão concentrado, ou seja, fica tão parvos que dizemos: vamos embora, vai”. E foi.

Quando chega a Moçambique desembarca em Lourenço Marques. Levaram “vinte e tal dias” por terra rumo a Vila Cabral [atual Lichinga, capital da província de Niassa], a cerca de 2300 quilómetros. Em Vila Cabral estiveram dois dias e, daí, seguiram para Maniamba, a 80 quilómetros, direito ao quartel onde havia de ficar estacionado. E é aqui que começa a sorte de Vital Guerreiro e dos seus camaradas. “A minha experiência foi boa e má. Má, porque logo quando íamos na viagem tivemos a infelicidade de um rapaz que caiu de cima de uma Mercedes e passaram-lhe os dois rodados por cima. Essa foi a primeira. Um condutor. E depois tivemos que ficar lá nessa noite... Era para chegar, por exemplo, na noite de hoje, e nessa noite o quartel foi atacado. E a gente não estava lá. Estavam a contar que a gente chegasse lá. Se não fosse aquela infelicidade, a gente chegava nessa noite”.

Esse foi o primeiro sinal de que a sorte, em tempos de guerra, estava do lado de Vital Guerreiro. O que se veio a verificar ao longo da totalidade da sua comissão. “Para mim, foi guerra de arame farpado. E tive sorte, também, no sítio onde fiquei”. Ficou encarregado por conduzir um Unimog 411, fazer a limpeza e levar os géneros [alimentícios] para o quartel, que estavam a umas centenas de metros. “Esse carro nunca saía para patrulhas. Porque é um carro que leva quatro pessoas. Nunca dá para fazer uma patrulha. (…) Depois eu era carpinteiro [trabalhava na construção civil quando foi chamado para o serviço militar]. Qualquer coisinha que era preciso, lá ia eu. Por um lado, tinha de ir buscar os géneros, por outro, tinha de fazer aquelas coisinhas todas”. Mais um sinal de sorte.

Vital Guerreiro conta que nunca ouviu um tiro dado por um guerrilheiro inimigo. E que o momento mais complicado, mais assustador, que viveu nem sequer foi causado por alguém. “Apanhar mais medo, foi só uma vez, que estava de serviço. Raramente fazia serviço. Mas quando os pelotões saíam, o quartel ficava diminuído. E tínhamos de fazer sentinela. (…) O meu turno foi das quatro às seis de manhã, a hora mais perigosa que a gente tinha. Os outros foram-se embora e fiquei sozinho. Vejo passar um bicho. Não dei alarme, porque aquilo passou tão de repente que eu disse: ‘Uma pessoa a correr não corre tão depressa’. E depois um gajo pensa tanta coisa. Pus-me ali ao pé da metralhadora: ‘Se houver alguma coisa, tenho de disparar’. Ela estava preparada, era só chegar e puxar o gatilho. Mas passou, até às 6 de manhã. (…) Foi um medo muito grande. Não cheguei a saber o que era. Havia ali bicheza por todo o lado. Mas não tive assim mais problemas”. Mais uma vez, mesmo no momento de maior susto, a sorte esteve a seu lado. “Sorte e fé, de mão dada uma com a outra”. Regressou a 10 de junho de 1971.

 

Uma guerra sem sentido

 

Entre tantas coisas que unem e distinguem João Sousa, José Carvoeiras e Vital Guerreiro na guerra do Ultramar, se há um ponto em comum é o propósito da guerra e em como este nunca fez sentido.

Diz João Sousa, mais de 50 anos depois: “Não fazia sentido. Até porque a gente… Aquilo, às vezes, um gajo nem os via, eles faziam fogo contra a gente, e a gente fazia fogo contra eles. Só quando se fazia, depois, o reconhecimento: ‘Olha, morreram mais dois ou três”. Aí é que íamos dar com os corpos”. A custo, lá diz: “Sentia-me... Para me matarem a mim, matem outro. Queríamos salvar-nos, sobreviver”.

José Carvoeiras é ainda mais veemente quanto ao despropósito da guerra: “Aquela sensação de que a gente chega lá e ao fim de três dias de lá estar a gente diz assim: ‘Porra, esta porcaria é deles, não é minha. A gente não tem nada a ver com isto’. Estivemos lá 400 anos nem sequer o português lhes ensinámos. Era nosso? Era nosso? Aquilo era deles! E a gente tinha a sensação... A gente não estava lá para defender aquilo, a gente estava lá para se defender a nós. A gente sabia que aquilo, mais dia menos dia, não tinha outra saída que era eles tomarem conta daquilo e a gente abandonar e virmos embora. E quanto mais tarde fosse, pior era”. E desenvolve: “A gente vai daqui, somos imbuídos ali de uma situação em que temos de defender aquilo, nós estamos a ser atacados, temos que defender aquilo porque aquilo é nosso. E um gajo vai, que aquilo é uma data de bandidos, de malandros, que não querem trabalhar... Um gajo chega lá ao fim de três dias ou quatro dias e começa-se a relacionar com as pessoas e começa a ver que não. A gente não consegue dizer àquelas pessoas que aquilo era nosso, eles sabiam que aquilo era deles. (…) Não havia necessidade nenhuma de se fazer uma guerra naqueles moldes!”.

Vital Guerreiro também partilha a mesma ideia: “Depois de lá estarmos, começamos a ver que aquilo era uma guerra de negócios. Porque todos queriam apanhar o que lá estava, o ouro, a minério e essa porcaria toda. Mas, todos é todos. Porque as guerras são todas de negócios. Fazer sentido, não fazia. Estávamos lá obrigados. Tínhamos de lá estar aquele tempo”.

 

As marcas que ficaram

 

A maioria dos ex-combatentes veio marcada, de forma permanente, do Ultramar, independentemente do teatro de operações. Fosse por aquilo que ficou enterrado na pele, fosse pelo que ficou enterrado na memória.

João Sousa refere hoje, olhando para esses anos, que deixou um pedaço de si em Moçambique. De forma algo contida, diz: “Vim mais homem do que quando fui. A gente tem, como costumamos dizer, a experiência... Pelas coisas que passamos, vamos adquirindo uma certa experiência, não é? Eu e os meus colegas viemos mais homens, mais... Um bocadinho mais tarimbados do que quando fomos para lá”. E com o sobressalto e a excitação e os pesadelos que o fazem acordar, ainda hoje, a meio da noite, mais de 50 anos depois.

Por outro lado, Vital Guerreiro é perentório e telegráfico sobre as marcas da guerra: “Aquilo não me marcou porque não saí do quartel, praticamente. Sempre fui um homem de sorte”.

“O Zé Carvoeiras que foi não foi o Zé Carvoeiras que veio…”, assim afirma o próprio. E continua, em tom de torrente que lhe sai do peito e da memória: “A gente nunca mais é o mesmo. (…) Vim mais... mais amargurado! (…) Quando estou acordado são os [momentos] bons [que pesam mais]”. Quanto aos momentos traumáticos, de horror, que lá viveu, é à noite, sobretudo, à noite, que regressam. “Essas imagens, de vez em quando, a gente, de noite, está a vivê-las. Eu tive uma altura… Até aqui na própria Liga [dos Combatentes] e nas consultas que havia aí, porque eu me via um bocado desorientado. Foi um bocado duro. (…) O que é certo é que foram momentos ótimos em termos de camaradagem... Amizades que se criam, que ainda hoje existem... Mas houve muita coisa má...”.

 

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