Diário do Alentejo

Manual de uma solidão que se entranha na pele

24 de dezembro 2022 - 10:00
Em São Barnabé, no concelho de Almodôvar, a população, envelhecida, encara o isolamento como algo inevitável
Fotos | Ricardo ZambujoFotos | Ricardo Zambujo

Com o medronho, o mel e a cortiça como cartões-de-visita, São Barnabé, freguesia do concelho de Almodôvar, é território de montes e cerros, bem a Sul, a tocar o Algarve. Terra envelhecida e despovoada, é, segundo os dados definitivos dos Censos 2021, a freguesia do Baixo-Alentejo que mais população perdeu, onde os agregados e núcleos familiares mais diminuíram, e onde estes são mais pequenos. Mas também onde o índice de envelhecimento é maior. Tudo isto, numa freguesia com uma área de 142 quilómetros quadrados, onde a maioria da população vive em montes isolados.

 

Texto Marco Monteiro Cândido

 

Na estrada sinuosa que leva até São Barnabé, nada se ouve. Apenas o vento, o silêncio e o rodar compassado das enormes hélices das torres eólicas, que corta o vento. Um som cíclico, repetitivo, hipnotizante. E o silêncio. De quando a quando, um carro. Em volta, cerros, cerros e mais cerros. E vales e corgos. E estevas, sobreiros, erva e vento. Um eterno sobe e desce de verde e castanho, por esta altura, que parece não ter fim, pintalgado, a espaços, por casas dispersas. Montes com, pouca, gente dentro. Montes vazios, sombras cadavéricas do que já foram.

 

As nuvens correm a uma velocidade estonteante, criando a ilusão de que são empurradas pelo ar das ventoinhas gigantes. Em volta, contam-se 13 torres, olhadas a partir do Pico do Mú, um dos pontos mais altos de todo o Alentejo. De todos os ‘Alentejos’, com os seus 574 metros. São Barnabé, sede da freguesia do concelho de Almodôvar com o mesmo nome, é uma aldeia de pouca gente. Cada vez menos. Por agora, não há cafés na aldeia. Nem mercearias, nem qualquer comércio.

 

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A população está envelhecida, dispersa, com muita gente sozinha, espalhada pelos cerca de 142 quilómetros quadrados de montes e vales da freguesia. Por estes dias, agora que o Natal se aproxima, António Amaro, presidente da junta, desdobra-se com a sua equipa para levar bolos-rei a todos os habitantes. Entre idas e vindas, curvas, contracurvas, subidas, descidas, muitas vezes em caminhos de terra batida, gastos e solitários, a volta, para chegar a toda a gente, obriga-os a percorrer 80 quilómetros.

 

“Nós temos 364 habitantes. A aldeia tem 28, 30. Os restantes estão espalhados pela freguesia, que é bastante extensa, em montes. Ainda há poucos anos [a freguesia] tinha 1200 habitantes, enquanto as outras tinham 600, 700. Agora somos a que temos menos [do concelho]. A faixa etária de toda a população está fixada com que as pessoas partam cada vez mais. A juventude, ou mesmo pessoal da minha idade, tem saído daqui. Não há postos de trabalho, todo o pessoal teve que ir à procura de trabalho. E quem ficou cá… muitos deixaram os pais, os avós”.

 

António Amaro, com 56 anos, cumpre o segundo mandato como presidente de junta de freguesia. Homem da terra, regressou à sua aldeia depois de muitos anos a trabalhar em Beja. Tem investido em duas das maiores riquezas que a terra dá. Que a sua terra dá: o mel e o medronho, cujo licenciamento aguarda. No entanto, nem esses produtos conseguem estancar a saída das pessoas, contrariar o envelhecimento e rejuvenescer a freguesia.

 

“O medronho não veio alterar. Legalizados, estávamos com três produtores, estamos com dois agora. As burocracias de legalização são mais do que muitas. O pessoal, por muita vontade que tenha… Antigamente pagava-se à câmara, chamava-se a aferição, e São Barnabé tinha 60 e tal alambiques de medronho. As pessoas viviam disso. Hoje não. Para aprovarmos um alambique chega a levar três anos e isso tira a vontade toda. O pessoal mais velho não quer. E há a falta de mão-de-obra para apanhar medronhos. Até os alambiques vão desaparecendo. Estavam em casas, armazéns, isolados, junto a linhas de água…”.

 

São Barnabé está a cerca de 30 quilómetros da sede de concelho, Almodôvar. Distância que, mais do que a lonjura, mede-se em tempo. Tudo está longe de tudo, pela distância, mas, sobretudo, pelas estradas sinuosas, pela geografia acidentada dos terrenos. Pelo tempo que demora a fazer os caminhos de sempre. Também por isso, o facto de estar encostada ao Algarve, faz com que muitas pessoas tivessem partido para essa região.

 

“Antigamente, as pessoas viviam das terras, dos recursos que a terra dava. Hoje, já pouca gente quer trabalhar as terras. Mesmo noutras zonas, quanto mais nesta, onde são trabalhosas. Ainda é mais complicado com os acessos, longe de tudo. E as pessoas, quando vão, na maior parte das vezes já não voltam. Muitos emigraram. Uns continuam por lá e os outros, quando voltaram, já não fizeram casa por aqui. A maior parte está no Algarve. Só visitam isto de vez em quando”.

 

Os que partem são uma preocupação para a freguesia, assim como os que morrem, cada vez mais frequentemente, pela idade da população. Mas os que ainda resistem, e por ali vivem, são a grande preocupação de António Amaro e da junta a que preside. Ou não fosse, São Barnabé, a freguesia do Baixo-Alentejo que, segundo os dados definitivos do Censos 2021, divulgados recentemente, mais população perdeu em relação a 2011: menos 30, 13 por cento em 10 anos. Ou onde o índice de envelhecimento é superior: 1700 por cento (número de idosos por cada 100 jovens). Ou onde os agregados e núcleos familiares mais diminuíram: menos 25, 53 por cento. E, ainda, onde a dimensão média dos agregados domésticos é mais pequena: 1,93, ou seja, menos de duas pessoas.

 

“Temos muita população isolada. Muita gente que vive sozinha ou em casal. Visitamos essas pessoas frequentemente e a GNR também, já que temos muita gente em montes, muitas vezes só uma pessoa. E pessoas de idade”. António Amaro refere que a vida dessas pessoas é feita do que ainda semeiam na horta. “Entretêm-se ali no dia-a-dia e pouco convivem. É uma alegria quando veem uma pessoa. Muitas vezes não querem ir para a casa dos filhos, querem- se manter, enquanto podem, nas suas casas. E vão estando sozinhos”.

 

Sem qualquer comércio, as compras fazem-nas aos padeiros e mercearias ambulantes que passam, nas voltas semanais, na sede de freguesia e nos montes. Consultas médicas, acontecem à segunda-feira, na aldeia, para quem tem marcação. A junta vai buscar as pessoas e levá-las aos montes. A medicação também é aviada pelas funcionárias da junta, na farmácia de Almodôvar, a 30 quilómetros, e entregue às pessoas nas suas casas. Consultas no hospital, em Beja, o mesmo cenário. “Não é fácil e não conseguimos chegar a tudo. A junta é o suporte dessas pessoas, mas, mesmo que queiramos fazer mais, as juntas não podem. Ainda para mais à distância a que estamos de tudo”.

 

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A CASA NOVA QUE É VELHA

António Amaro percorre os montes isolados da freguesia, como sempre. Nos três montes que há de visitar neste dia, demorar-se-á uma boa parte da tarde de fim de outono. Dia nublado, em contraste com a “chuva boa” que caiu na semana anterior e que motivou uma série de visitas às pessoas mais isoladas, para “ver se estava tudo bem”.

 

A carrinha cinzenta da junta de freguesia, com tração às quatro rodas – a única forma de chegar a muitos destes sítios –, muito tem rodado por estes caminhos de terra batida. Quase como se os conhecesse em piloto-automático. “Grande parte da verba da junta é gasta nos caminhos. Se não houvesse estes caminhos [em condições], era uma desgraça”.

 

No caminho para o monte de José Manuel Rodrigues, António Amaro sente que, apesar de tudo, não estão abandonados à sua sorte. “Estamos distantes, mas não estamos esquecidos”. Ao longo do caminho, o chiar da carrinha, entre curvas e o desviar de algum buraco, é disfarçado por uma qualquer música de Natal no rádio.

 

A primeira paragem é no Monte da Cruz, onde José Manuel Rodrigues, 72 anos, tem uns porcos. Está sem transporte, no mecânico a arranjar. Seguimos até ao monte, a Casa Nova, onde vive e sempre viveu. Primeiro com os pais, agora sozinho. E onde vivia tanta gente outrora. “É velha mas é Casa Nova”, diz entre risos, numa piada mais do que pensada, ensaiada e dita tantas vezes a quem aparece para a ouvir.

 

“Cheguei a conhecer 11 fogos. Agora está um”. José, ao longo do caminho que conhece como a palma das suas mãos, vai apontando, nomeando e descrevendo cerros e montes. Invariavelmente, para dizer: “Aquele está vazio; ali não mora ninguém; aquele não está cá”. “Toda a vida aqui vivi. Só não estive cá quando fui para a guerra, para Angola. Lá, faltou-me dois meses para 50 (meses). Faz anos agora que ia no alto-mar. Abalei no dia 14 de dezembro, do Cais da Rocha do Conde de Óbidos. Chegámos lá na véspera de Natal, em 1971. Depois cheguei cá em 1974”.

 

José, apesar de viver sozinho, passa os dias quase por inteiros fora, na aldeia, no café mais próximo ou no monte de alguém conhecido. Em casa, quase só para dormir. “Estive nove anos sem porem luz, nove anos! Veio aqui o topógrafo, para medir isto, esteve nove anos para meter isto aqui”, exclama, num misto de incredulidade e indignação.

 

“As pessoas depois foram embora. Vieram pôr luz quando já não estava aí ninguém”. Entre uma história e outra, continua a apontar e a falar sobre quem já morreu, quem partiu ou de quantas pessoas por ali moravam e mantinham os terrenos limpos. “A minha casa é a última”.

 

Como ele é o último habitante, olhando em volta a paisagem e a observasse pela primeira vez ou passados muitos anos desde a última, como um postal pálido do sítio que foi. “Isto era o coração do medronho, a Casa Nova. Agora é o que se está a ver. O meu avô teve cinco filhos, ficaram aqui todos. Agora nem cinco pessoas cá estão. Estou eu e nem é sempre. Se tivesse condições de ir embora daqui…agora, enquanto eu puder, estou. Quando não puder… vou para o cemitério ou o caraças! Já está lá o chão comprado…”.

 

“É aqui que mora o artista”. Chegou-se ao monte da Casa Nova. José vive sozinho, num monte sem ninguém. Sucata, casas abandonadas, restos de vidas passadas que não existem mais. Entretém-se com a terra e os animais. Ao sair da carrinha que o levou até ali, quase no fim de mais um dia, chama pelas três porcas, arraçadas de javali. Trata-as como cães de companhia. Seguem-no, esperando comida, habituadas que estão. Duas grandes, uma pequena. Enquanto fala, falando sempre, José dirige-se ao curral onde lhes irá dar milho. As porcas continuam a segui-lo, tal é o hábito. Fala com elas, também. José não tem problema em falar. Parece até de que necessita disso como de respirar.

 

A sua casa não está em ruínas, mas quem passa ao largo decerto que ficaria na dúvida se é habitada ou não. Algumas partes do monte precisam de arranjo. Água canalizada não tem e gás pouco usa. “Viver aqui sozinho faz-me diferença, mas vou para onde? Para onde é que vou? Não tenho dinheiro para comprar, nem para arrendar. Enquanto isto não cair… dinheiro, para arranjar isto, não tenho. Vou arranjando os bocados onde durmo, para não chover”.

 

José é um dos casos, na freguesia, de pessoas que estão completamente sozinhas no mundo. Sem pais, filhos ou sobrinhos. Muito mais sozinho do que quando nasceu ou andou por terras de África. Apesar de o poder sentir, essa condição não a deixa transparecer. Ou pelo menos assim parece.

 

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“Há outro que está igual a mim: nem sobrinhos, nem nada. Mas não me sinto sozinho. Estou habituado, é normal para mim. A minha vida foi esta, assim… Quando vim da tropa, vim para aqui. Os velhotes, o meu pai e a minha mãe, não tinham mais ninguém. Vivíamos da agricultura, vivia-se bem… tínhamos comida!”

 

A solidão não faz mossa visível na vida de José. Até porque, como faz questão de sublinhar, passa pouco tempo no monte. “Aqui, só quando está a chover, ao pé do fogo. À noite, acendo uns madeiros e depois deito-me. Tenho um rádio, televisão não. Isto é a vida do penante!”. No entanto, é onde sempre regressa. “Regresso sempre aqui. Para mim não é solitário, é o paraíso”, diz, rindo. “Oiço a coruja cantar, estou no meio da natureza. As corujas são lindas e cantam em cima das sobreiras”.

 

Na despedida, José volta a falar de África e dos tempos que por lá passou. Não são todos os dias em que aparece alguma cara nova. E disposto a ouvir as suas histórias, menos ainda. “Do Ultramar, vim porque calhei a vir. Ficaram lá alguns, eu não fiquei porque não calhou. Os operacionais ficaram lá uns poucos, 10 ou 11. Ainda ontem estive a ver as fotografias deles e o livro desse tempo, que pensei que tinha perdido. Agora encontrei-o, fiquei tão contente”.

 

Levanta-se prontamente e vai mostrar as fotografias dos seus tempos de guerra. E, como que a adiar a despedida, novo assunto: mostrar onde toma banho, ao ar livre, de verão ou inverno, sempre com água fria da serra, trazida por uma mangueira, junto ao lavatório que está na parte da frente da casa, na rua também. Desta vez, é a despedida definitiva. De que forma? Com umas quadras da sua autoria:

 

“Neste cantinho acolhedor

 onde costumo pernoitar,

 é um privilégio para mim

ouvir a coruja cantar. 

A coruja, ave noturna, 

que eu adoro o seu cantar.

 Canta para eu adormecer 

e o sino para eu acordar”.

 

“BEM… E QUER BEBER UM COPINHO DE AGUARDENTE?”

Mário Francisco Guerreiro e Maria da Conceição estão casados há 53 anos. Ele, com 83 anos, e ela, com 78, mantêm uma boa disposição inusitada para a idade que têm e que não aparentam ter. Independentemente de viverem os dois sozinhos, no monte do Zebro de Cima, não se arrependem disso mesmo.

 

“Viver aqui sozinhos? Diga lá, o que é que a gente há de fazer? Vão morrendo todos. Deus queira que a gente vá para aí vivendo”. Mário diz que não trocava o sítio onde vive por nada. E apesar do casal viver relativamente perto do filho e da filha, em Ourique e São Bartolomeu de Messines, e receberem as suas visitas regularmente, não há nada como o monte onde sempre viveram juntos.

 

“Às vezes vou para os meus moços, mas aborreço-me logo daquilo. Aqui estou à minha vontade. Lá é como um pássaro numa gaiola”.

 

O casal, apesar da idade, é o exemplo de que, viver sozinhos, nem sempre é sinónimo de solidão. Não tendo carro, as suas voltas são dadas numa das motorizadas que possuem. Vão a São Barnabé, onde precisam, e até chegam a ir a Almodôvar a funerais, como refere o presidente da junta.

 

“Damos umas voltas por aí, para passar o tempo. Só temos ‘bicicletes’ [motorizadas]. E os meus filhos vêm muitas vezes. Mas temos aí vizinhos… Está ali uma vizinha que há 21 anos que está sozinha num monte”. E reforçam, quase em uníssono: “A vida é muito solitária? Ah… em havendo saúde, estamos aqui bem”.

 

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Donos de uma boa disposição que, à partida poderia não existir, Mário e Maria da Conceição, como gente da serra que são, um pouco reservados ao princípio, depressa mostram a vontade de conversar e o bem receber a quem passa pelo seu monte, “cada vez menos”.

 

Quase no fim da visita do presidente da junta, Maria da Conceição vai acabar de preparar um prato com bolo, dispondo uns copos em cima da toalha plástica colorida às flores, sobre a mesa da cozinha do quintal, onde as chouriças e os paios já estão a secar ao lume. Rapidamente, Mário pergunta: “Bem… e quer beber um copinho de aguardente?”.

 

É hora de ir visitar a última pessoa do dia. Novamente dentro da carrinha, António Amaro desabafa, recordando um passado pouco longínquo: “Na altura do covid, foi difícil. O padeiro deixava o pão na junta e depois nós é que fazíamos a distribuição às pessoas. E até a alimentação. A gente é que correu o risco de andar por aí”.

 

Com a noite a cair cada vez mais depressa e o escuro, de negritude profunda, consumir toda a paisagem em volta, António prossegue, no caminho e no discurso. “Foi muito difícil. As pessoas foram-se abaixo. Ainda hoje, há pessoas que nunca mais foram as mesmas. Houve uma altura em que as pessoas abriam-nos a porta, mas era por ser a gente. E, mesmo assim, sempre à distância. Agora já vão convivendo, mas na altura isto parecia um deserto. Não havia ninguém. As pessoas estavam todas isoladas, ainda mais! Íamos a um monte e as pessoas ficavam atrás do postigo da porta. Foi uma altura complicada. E o papel da junta ainda mais importante. As juntas de freguesia, neste meio rural, faz de conta que são o vizinho mais próximo que as pessoas têm”.

 

“PARA ONDE É QUE HEI DE IR QUE ESTEJA MELHOR?”

A luz do dia já é pouco mais que nada. O caminho de terra batida que se abre em frente é fio condutor entre as gentes de São Barnabé, como o são todos os que rasgam a freguesia, entre o alcatrão, e que atalham distâncias, mesmo assim, grandes demais. Dezembro já vai longo e a noite, entretanto, está escura. Por entre os caminhos velhos, mais velhos do que quem os pisa, por poucos que sejam, as luzes amareladas da carrinha de caixa aberta indicam o caminho, entre cerros e arvoredos.

 

O cenário é quase anacrónico. Em baixo, montes dispersos, isolados, muitos abandonados ou apenas vividos por uma pessoa, duas. Memórias e recordações de outros tempos cheios de vida. Agora, muito menos do que já foram. Lá no alto, a 80 metros do solo, o tabuleiro da autoestrada que rasga todo o Sul até ao Algarve. Em baixo, caminhos pouco pisados, de silêncio quase permanente. No cimo, o trânsito e as luzes e o barulho dos motores. Em baixo, pouco mais do que os faróis que alumiam a noite. Apenas silvas e medronheiros.

 

O silêncio é total. A escuridão ainda maior. O caminho leva até ao monte da Corte de Freixo. Um caminho, como tantos outros, que apenas conduz a esse monte, junto a uma ribeira, com um pego com mais de dois metros de fundura, sempre com água, seja verão ou inverno. E onde, até há 10 anos, o moinho de água que ali repousa, por agora, quebrava grãos de milho ou trigo. Ou cevada, para os animais. Um caminho, como tantos outros, que apenas conduz ao monte quem lá quer ir. São poucos os que por ali passam. Ainda menos os que por ali param. Quase nenhuns os que lá vão.

 

As luzes amareladas da carrinha da Junta de Freguesia de São Barnabé apagam-se. O amarelo não se funde na noite, graças à luz dos candeeiros, que iluminam o breu, a manterem vivo o tom amarelado, como uma pequena candeia alumiava as noites de outros tempos. Dezembro vai longo, assim como o fim de tarde, já noite escura, ainda mais escura do que noutros sítios. No monte, apenas dois cães e uns gatos dão sinal da presença.

 

Em frente à porta, uma romãzeira: despida de folhas, carregada de romãs. Um esqueleto vivo de frutos. Lá dentro, Adélia Guerreiro, 87 anos feitos em julho. À chamada do presidente da junta de freguesia, António Amaro, Adélia não responde imediatamente. Ele chama uma, duas, três vezes. Seja por ouvir mal ou por precaução, Adélia não responde prontamente. À voz conhecida, passados alguns instantes, atira que já não estava à espera da visita, dado o adiantado da tarde. Entre as linhas do diálogo, no breve silêncio que insiste em persistir sempre, o barulho das trancas da porta, à medida que Adélia destranca a sua casa, abre o seu pequeno mundo.

 

Lá dentro, na cozinha feita sala, de paredes de um rosa desgastado, como tantas outras no Alentejo, preparava- se para acender o lume e fazer a comida aos cães. E passar a noite. A ver televisão, ao lume, sozinha. “O meu marido faleceu há cinco anos. Fez cinco anos em outubro”, diz Adélia, com tristeza no olhar. Tem duas filhas, uma no Algarve, outra na Suíça, mas está sozinha desde que o seu companheiro faleceu. E está bem assim, porque assim se habituou. “Para onde é que hei de ir que esteja melhor?”. E ri-se, enquanto faz a pergunta sem resposta. “Estou à minha vontade. A casa é minha, deito-me quando quero, levanto-me quando quero. E vou para onde quero. E não tenho medo”.

 

O dia de Natal aproxima-se. Ainda antes, alguém da junta de freguesia há de passar por ali. Levarão bolo-rei, conversa e ver como estará, nesse dia, Adélia. Mesmo assim, a visita não poderá ser longa. “Vamos demorar dois dias e não podemos demorar mais do que 10 minutos em cada sítio”. António Amaro sublinha este ponto, para mostrar como são vastos e afastados os caminhos que percorrem na freguesia.

 

“O Natal? Estou fazendo conta de comer alguma coisinha que eu cá possa comer e tenha. E estou aqui…” Adélia não deverá estar com ninguém nesse dia, apesar de estar convidada a ir a um almoço. “O casal que me leva é mau de passar a ribeira agora. Porque é do outro lado, têm que dar uma volta grande. É muito provável que fique sozinha. Se tenho pena de ficar sozinha no Natal? Então, mas eu estou habituada. Não me faz diferença nenhuma. É preciso é ter saúde. Para mim, é um dia como outro qualquer. É igual”.

 

A vida de Adélia já vai longa, como longas são as noites no monte da Corte de Freixo. Mais longas ainda desde que ficou viúva. Mas nem sempre foi assim. “Viemos para aqui porque gostávamos de vir para aqui. O meu marido era moleiro. Primeiro estivemos no moinho [de vento] do Malhão, seis anos. Depois viemos para outro moinho que está aqui em baixo. Este aqui onde estou, os donos ‘prantaram’ em venda e a gente comprou. Viemos para aqui, temos estado aqui sempre, há 50 e tal anos”.

 

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Adélia ainda fala no plural, como se o seu marido estivesse presente, com os olhos vividos e vivos a lacrimejarem. “Quando o meu marido faleceu notei muita diferença. Logo, tinha medo. Agora estou habituada. Quando vem ao sol-posto, atarraco as portas. Faço comida para os cães e para os gatos. Acendo a televisão e vejo os bonecos. Às vezes, faço uma renda e, quando me apetece vou-me deitar”. Mesmo antes de voltar a fechar a sua porta, Adélia ainda mostra o moinho de água onde trabalhou com o marido, mas que já não tem uso por agora, apenas para arrumos.

 

“Trabalhei toda a vida com o meu marido. Mondava, apanhava mato, ceifava, cavava terra na horta. Enfim, logo era com o meu pai. Depois casei e ajudava o meu marido no que podia. E o meu marido, o mesmo. Ajudávamo-nos um ao outro”. De caminho, Adélia relembra como funcionava o moinho, explicando, exemplificando, revivendo. E os seus olhos ganham uma alegria renovada.

 

No momento de se despedir, Adélia, junto ao moinho e da ribeira cuja água corre sempre, todo ano, atira, olhando para a romãzeira que parece um esqueleto vivo de frutos: “Se quiserem e se gostarem, levem uma romã…”.

 

O fim do dia, e da volta de António Amaro, é feito no “Café Fronteira” de Manuel Silvestre. A hora do jantar aproxima-se. Lá dentro, no café vazio, apenas o dono e a sua mulher, Natália. Sentados, junto a uma salamandra cujo lume aquece a sala, com um gato riscado de branco e amarelo a dormir sobre uma cadeira de buinho, são poucos os clientes que passam por ali àquelas horas. Também é com pena que vêm a freguesia a perder gente, com os que ficam a envelhecer cada vez mais.

 

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António Amaro, o presidente da junta de freguesia do Baixo Alentejo que mais população perdeu; onde o índice de envelhecimento é superior; os agregados e núcleos familiares mais diminuíram; e a dimensão média dos mesmos é mais pequena, atira, em tom de lamento e desabafo: “O futuro da minha terra vejo-o com alguma tristeza. Acho que, a freguesia de São Barnabé, daqui a, se calhar, 15 anos, não vamos estar aqui cento e poucas pessoas. É triste para uma freguesia como esta, quando já teve tantos habitantes e agora…”.

 

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