Diário do Alentejo

Cervejas artesanais “brindam” ao desconfinamento

08 de abril 2021 - 17:05

Alberto e João Rosa são os nomes por detrás da cerveja Alvoreada, nome que deriva de uma popular expressão alentejana e que, asseguram, lhes assenta “quem nem uma luva”. A ideia começou por “arriscar produzir a nossa própria cerveja, para consumo caseiro”, por ser uma área de interesse para ambos. “Saiu melhor do que esperávamos e, incentivados pelos nossos amigos, resolvemos avançar de forma mais profissional, montando a fábrica”.

 

Nasce assim a Alvoreada, a cerveja bejense 100 por cento artesanal e de puro malte. Entre os estilos produzidos encontram-se o ‘premium lager’, ‘dark lager’ e ‘weiss’ [nada como provar para se reconhecerem as diferenças], contudo podem também ser apreciados o ‘Indian pale ale’, ‘stout’ com cacau e ‘premium lager’ com romã produzida no concelho de Beja [recomendação idêntica à anterior].

 

Alberto Rosa explica que a produção passa por várias etapas, da brassagem [mistura de cevada com a água] à fervura, da fermentação à maturação, o que se prolonga por cerca de um mês e meio. Só depois é que estará pronta a consumir. “A nossa cerveja é feita a pensar, sobretudo, no nosso gosto e no gosto dos que nos rodeiam. Optámos por produzir cervejas leves e refrescantes que nos auxiliassem a suportar o calor estival do Alentejo”. Desta forma, sublinha, a Alvoreada não só é direcionada “ao habitual consumidor de cerveja artesanal, mas também aos apreciadores de cerveja mais leve e industrial. Temos um nicho de clientes muito heterogéneo”.

 

Com presença no mercado cervejeiro desde 2015, Alberto e João Rosa produzem cerca de oito a dez mil litros por ano. Os meses mais “fortes” são, obviamente, os de verão, de junho a setembro, em concordância com um estudo da Marktest realizado em 2018 onde se conclui que 40 por cento das vendas anuais neste mercado é realizada nestes quatro meses do ano. “Pensámos que o ano de excelência seria 2020. A ideia era que iriamos estabilizar, produzir mais e obter mais vendas... foi precisamente o contrário”, desabafam os mestres cervejeiros. “A nossa estratégia passou por baixar preços, entregar ao domicílio sem custos, criar um serviço de ‘take away’ e gerir os poucos apoios do Estado”. Aproximar a Alvoreada do consumir final, através de uma presença mais forte nas redes sociais, foi também uma aposta neste período de confinamento. Num futuro próximo, as metas passam “pela ampliação e melhoramento da fábrica”, para que nos seja possível aumentar a produção a pensar num futuro pós pandemia”, conclui Alberto Rosa.

 

ESTROINA DE MÉRTOLA

 

Nuno Rodrigues (40 anos) e o irmão David Rodrigues (13 anos mais novo) são os fundadores da Estroina, a marca de cerveja artesanal nascida em Mértola em 2018. “Produzir cerveja era um ‘hobbie’ com mais de 10 anos e que começou pela realização de experiências, em casa, numa panela de 20 litros”, conta Nuno Rodrigues, explicando a origem do negócio. Já o nome, esse, confidencia, não foi a exatamente a primeira escolha, mas sim aquela que melhor os caracterizava: “Tantas vezes nos chamaram estroinas, que assim ficou”.

A Estroina é produzida a partir de maltes de cevada e trigo, lúpulo e levedura cervejeira, oriundos de diversos países com longas tradições cervejeiras, como a Alemanha, República Checa, Inglaterra e Estados Unidos. “Um dos nossos objetivos, agora adiado devido à pandemia, era a produção de edições especiais com a introdução de produtos regionais”, continua. Dos cinco estilos atualmente produzidos em Mértola, o mestre cervejeiro avança ao “DA” que são todos diferentes, destacando a ‘stout’, que define como “uma cerveja preta com bastante corpo e um aroma a café torrado e chocolate negro, ideal para desfrutar numa noite de inverno”. Já a conhecida ‘american pale ale’, apresenta-se bastante diferente: “leve e fresca, com um amargo inicial de boca e um aroma final muito frutado que remete para frutas tropicais, como a manga e o maracujá. Para saberem mais vão ter que provar [já tínhamos avisado!]”.

 

Quanto ao perfil de consumidor, a Estroina dirige-se tanto ao genuíno consumidor de cerveja artesanal, “que sabe o que procura e valoriza o produto de excelência”, como ao consumidor que ainda está a conhecer o produto artesanal e que escolhe por curiosidade.

 

Com o pico de vendas a registar-se entre março e outubro, período em que o consumo é alavancado pelas feiras e festivais, a expectativa de Nuno Rodrigues é “que as vendas diminuam, embora o período de maior consumo se mantenha. Antes da pandemia participávamos em eventos sempre que possível, maioritariamente a nível regional, embora podendo marcar, pontualmente, presença noutras outras zonas do país. Estivemos também em Espanha, num festival dedicado à cerveja artesanal… agora será difícil retomar”, acrescenta, garantindo que a empresa continuará igualmente a apostar numa presença no “canal horeca”, formado pelo conjunto dos hotéis, restaurantes e cafés, especialmente na região sul do país.

 

Com uma capacidade de produção de 24 mil litros anuais, 2020 trocou-lhes as voltas. “Saímos para o mercado no final de 2018. Depois, 2019 foi um ano de aprendizagem e posicionamento e em 2020 tudo apontava para ser um bom ano, mas… . De todos os canais onde estávamos presentes só nos restou o consumidor final. Apostámos mais no mundo digital, com a criação da loja ‘online’ e maior presença nas redes sociais. É difícil criar estratégias num mercado que ainda é novo para todos. Tivemos que nos reinventar e adaptar”.

 

SACARRABOS EM SINES

 

Perspicaz, inteligente e persistente são características habitualmente aplicadas ao sacarrabos, um pequeno mamífero que habita em território alentejano e que Carlos e Paula Schneider, um casal luso-brasileiro, quiseram homenagear, adotando-o como nome e logótipo da sua marca de cerveja artesanal. Paula está ligada à área do cinema e da produção de conteúdos, trabalhou canais como a Globo e o Wanner Channel, rumou a Portugal há seis anos, por motivos profissionais, e fixou-se na cidade de Sines. Foi aqui, num projeto de mudança de vida, que fundou com o marido a Sacarrabos Beer&Co.

 

Tudo começou num supermercado, e com o desejo por uma cerveja. “No Brasil a indústria da cerveja artesanal está muito mais desenvolvida, mas naquele supermercado a escolha era muito reduzida”, recorda Paula Schneider. Nasceu assim a ideia de Carlos tirar um curso de mestre cervejeiro, com a finalidade de produzir cerveja para consumo doméstico. “Acontece que a cerveja foi ficando boa, as pessoas e os bares foram-nos desafiando a vender. Éramos os únicos produtores na zona. Foi aí que me deu o clique, era uma verdadeira oportunidade de negócio”.

 

Cansada da rotina de vida e das viagens pelo mundo, Paula Schneider decidiu mudar de vida e arriscou na produção da cerveja artesanal, inicialmente em casa, onde nos conta que permaneceu até não ter mais espaço onde colocar barris. Mudaram-se para o Sines Tecnopolo, que visa dar “a poio à criação de novas gerações de empresas inovadoras e que ajuda à modernização e à inovação de empresas existentes, contribuindo para a melhoria do ambiente territorial onde operam”. Já com melhores condições e melhores equipamentos de produção, o casal abriu, em 2016, o seu primeiro bar, que serviu como teste: “Foi necessário ensinar o cliente a apreciar a cerveja artesanal, tudo é um processo de educação, mas deu certo e foi uma experiência muito interessante”.

Não tardou a que o sentido de oportunidade da empresária voltasse a falar mais alto. “Candidatámo-nos ao Portugal 2020 e vimos a candidatura aprovada”. Expandida a fábrica, o casal negociou um novo espaço em Sines, “o único bar com vista para o mar”. Oferecendo experiências e programas diversificados, desde ‘sunsets’ a espetáculos de música ao vivo, assim como uma ementa que acompanha a sazonalidade turística. “As pessoas aderiram e participaram bastante”.

 

Faltava apenas expandir, mas para onde? “Pensámos em Évora, Portimão, Faro… mas, a meio caminho, percebemos que seria Lisboa, queríamos ‘o lugar’… que encontrámos”. Fica na Rua da Moeda, no Cais do Sodré. Tudo corria a bom ritmo, não fosse a pandemia adiar para junho a abertura inicialmente prevista para março do ano passado. Ainda assim, apesar dos contratempos e condicionantes, os proprietários dizem que o espaço foi um sucesso nos poucos meses que foi possível permanecer aberto ao público.

 

“Uma dos fatores que nos diferencia é que a venda da nossa cerveja é apenas feita nos nossos bares. É necessário ir até lá para a conhecer. Mas não vendemos apenas cerveja, vendemos uma experiência inteira”. Em Sines, por exemplo é possível conhecer o mestre cervejeiro e a cervejaria, já em Lisboa a proposta passa por uma carta de petiscos e ‘finger food’ cientificamente estudada para que possa acompanhar cada um dos estilos de cerveja disponíveis e proporcionar uma experiência única de degustação.

 

Apesar de otimista e confiante, Paula Schneider não esconde a apreensão face aos problemas decorrentes da pandemia: “foi necessário reduzir a equipa, arcar com o prejuízo, colocar a vida e os sonhos em ‘standby’, aprender a viver no sufoco da incerteza constante e pensar no quanto as pessoas que comigo trabalham precisam de mim”.

 

UMA HISTÓRIA MILENAR

 

A fermentação espontânea e acidental de um cereal imerso em água terá estado na origem de uma das mais antigas e apreciadas bebidas do mundo. A produção da primeira cerveja terá ocorrido entre há mais de oito mil anos, estando intimamente relacionada com a sedentarização dos povos e o desenvolvimento da agricultura, nomeadamente da cultura de cereais. Registos arqueológicos, referentes a diferentes civilizações e momentos históricos, permitem assegurar a sua presença no seio de diferentes culturas, associada à produção familiar, tendo, a partir do século VII, a produção e comercialização da bebida atingido maior escala, muito por conta da atividade cervejeira nos mosteiros espalhados pela Europa. Não é, por isso, de estranhar que um número considerável de marcas de cerveja tenha tido origem junto de comunidades religiosas, como a dos monges franciscanos. Mas é com a Revolução Industrial que a produção da bebida ganha novas proporções e se inicia em grande escala. A industrialização, a bom ritmo, do processo de produção da cerveja, dita que, no final século XIX, a produção artesanal entre em declínio e se torne residual. Já na década de 80, nos Estados Unidos, nasce um movimento que se insurge contra o domínio das grandes cervejeiras e da sua clássica e massiva ‘american larger’, que vem dar origem à “revolução” artesanal. Em Portugal, as primeiras empresas na área são criadas em 2010 começando a comercializar em 2011. Hoje há mais de 120 marcas de cerveja artesanal em território nacional, numa ascensão anual de novos empreendedores e produtores, mas também de novos consumidores e inovadoras formas de consumo.

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