Diário do Alentejo

Francisco Guerreiro: o eurodeputado “rebelde”

22 de julho 2020 - 15:00

Nasceu em Santiago do Cacém, em 1984, mas aos três anos foi adotado e abalou para a “grande” Lisboa. Para trás ficaram dois irmãos de sangue que só o reencontraram em 2016. A partir daí tem voltado ao Alentejo com regularidade, mas, agora, passa a maior parte do tempo entre Cascais, onde reside, e Bruxelas onde é deputado europeu eleito pelo PAN. Há uns dias, foi notícia de capa nos jornais e de abertura dos telejornais: entrou em rutura com a direção do partido e demitiu-se. No entanto, Francisco Guerreiro vai manter o mandato como independente, sempre com os olhos nas questões ambientais, um tema que, desde muito novo, faz parte do seu ADN.

 

Texto Aníbal Fernandes

 

A mãe, Maria de Lourdes Vicente, ex-professora de biologia e o programa da BBC Vida Selvagem são os responsáveis pela sua sensibilidade ecológica. “Recordo com carinho os domingos, antes do telejornal da uma, em que víamos os documentários e a minha mãe me incutia a urgência de proteger o ambiente, todos os ecossistemas e os restantes seres deste planeta”, diz Francisco Guerreiro ao “Diário do Alentejo”. No entanto, ao contrário do que se poderia esperar, a sua formação académica não é nesta área. A escolha recaiu em comunicação social e no Instituto Superior de Educação de Coimbra, tendo, depois de terminada a licenciatura, trabalhado como ‘project leader’ e analista de estudos de mercado.

 

Além disso, desde que se lembra de ser quem é, faz limpezas em praias, serras e outros locais. “Incomoda-me, mas sobretudo entristece-me, ver lixo espalhado por todo o território”. Ainda antes de aderir ao Partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza (PAN), e por causa de “um documentário sobre maus-tratos a animais”, tornou-se vegano, garantindo, assim, segundo a sua filosofia de vida, e de acordo com as suas possibilidades, “que o princípio da não-violência era cumprido”.

Depois, em 2012, com 28 anos, filiou-se no PAN, tendo integrado a comissão política nacional (em 2013) e coordenado a comunicação do partido (em 2014). Entre 2015 e 2019 foi assessor parlamentar, acompanhando, particularmente, a Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação. Em 2019 foi eleito eurodeputado integrado no Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia e assegura a vice-presidência da Comissão da Agricultura e do Desenvolvimento Rural no Parlamento Europeu. Participa, ainda, nas comissões dos Orçamentos e das Pescas.

 

O reatamento das relações familiares perdidas fá-lo, agora, regressar à região mais vezes, nomeadamente a Santo André, à aldeia de Deixa-o-Resto, local de residência do irmão, onde aproveita para fazer “ações de limpeza” na lagoa, “pois os resíduos presentes nas dunas são inúmeros e as limpezas escassas”. A campanha eleitoral para o Parlamento Europeu também lhe deu “a oportunidade de conhecer melhor o distrito de Beja”, um território que considera “pouco dinamizado e pouco acarinhado”.

 

“Tenho apoiado ativamente vários movimentos locais, nomeadamente o Beja Merece+ e as suas justas reivindicações”, tal como “o uso comercial do aeroporto de Beja ou o investimento em infraestruturas rodoviárias e ferroviárias”, diz Francisco Guerreiro.

 

A agricultura superintensiva é outra das suas preocupações, defendendo o modelo de agricultura “extensiva em modo biológico” e a “proteção dos solos e recursos hídricos”. Conta para isso com Alqueva, que deveria ser “aproveitado para [as referidas] explorações extensivas”.

 

“Com o crescente impacto das alterações climáticas, sobretudo no interior do País, e sem esquecer a devastação crescente da biodiversidade, devemos conceber que os recursos hídricos serão cada vez mais escassos e preciosos pelo que o seu uso deverá ser estratégico e integrado numa visão de longo prazo para regenerar os solos, os ecossistemas e o mundo rural”, defende.

Na Europa, “considerando os mais recentes desenvolvimentos sociais, económicos e ecológicos”, é defensor da concretização de projetos-piloto para atribuição de rendimentos básicos incondicionais, “de modo a garantir uma reestruturação do tecido social e económico, caminhando para um modelo de decrescimento que possa garantir que mais pessoas voltem para o interior do País”.

“Sabendo-se que a concentração de investimentos, do emprego e de infraestruturas está centrado no litoral, é incompreensível que não exista uma real estratégia para o interior do País que contemple também mais independência para os cidadãos, municípios e incentivos empresariais sobretudo em áreas tão fundamentais como as tecnologias ligadas às energias renováveis”, afirma.

 

VERDE INDEPENDENTE

Francisco Guerreiro anunciou, no passado dia 16, que saía do PAN por “divergências políticas” com a direção do partido pelo qual foi cabeça de lista nas europeias do ano passado, mas garantiu que continuará a defender no Parlamento Europeu os ideais pelos quais foi eleito. A “falta de identificação política com várias posições relevantes tomadas pelo partido no parlamento nacional, bem como com a linha política global que tem caracterizado a atuação do PAN nos últimos meses”, e que tem “limitado” a sua “independência política em Bruxelas”, foram as causas apontadas para o abandono. “Tem existido um constante afastamento de alguns princípios fundadores do partido que fazem com que, em consciência, não me reveja em várias das decisões tomadas”, afirmou na altura em comunicado.

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