Diário do Alentejo

Crónicas do cante: voltamos ao Sarau “Alemtejano” de 1937

12 de maio 2026 - 08:00
Filarmonia e cante alentejano juntos!

Os arquivos dos grupos de cante não precisam de ser grandes para serem ricos em história e valor patrimonial. As histórias que contam são inúmeras e todas elas interessantes, e quantas mais não haverá para desvendar?! Lá chegaremos! Na senda do trabalho de campo do Arquivo Digital do Cante em curso, também na sede do Grupo Coral Os Arraianos de Vila Verde de Ficalho, no concelho de Serpa, deparou-se esta equipa com um documento original, totalmente desconhecido até então. Trata-se da folha de sala do grande espetáculo de 1937, aqui abordado na primeira “Crónica do Cante”. Muito provavelmente o primeiro grande espetáculo do cante em Lisboa, cuja organização esteve a cargo do Grémio Alentejano e da Emissora Nacional e que ocorreu em 22 de março do ano já referido. Participaram neste espetáculo o Rancho Coral de Mértola, o Rancho Coral de Vila Verde de Ficalho, o Rancho da Vidigueira e o Rancho de Aldeia Nova de São Bento. Numa altura em que tanto se discute, na praça publica, as novas abordagens ao cante, temendo que o mesmo se desvirtue da prática cultural matriz do próprio, e num momento particularmente periclitante em que se apontam dedos a esta ou àquela participação num ou outro evento/programa cultural, eis que o documento trazido hoje às páginas do “Diário do Alentejo” nos revela que já em 1937 (há quase 100 anos) os grupos de cante participavam em espetáculos em que não havia só cante, mas também orquestra. Confirmando-se, assim, uma relação extraordinária de partilha de palco entre as filarmonias e o cante alentejano que resultavam em programas culturais riquíssimos. A brochura, composta por 12 páginas A5, tinha então o valor de 1$00 (um escudo) e para além de referir as modas que os grupos interpretariam, e as peças que a orquestra executaria, revelam-nos todo o alinhamento do espetáculo e artistas envolvidos. Do vasto programa, dois nomes de ilustres personagens chamam a atenção, Manuel Ribeiro e Luís de Freitas Branco, por durante muitos anos serem referenciados em documentação vária encontrada nesses acervos que vamos visitando.Manuel Ribeiro, escritor, poeta, natural de Albernoa, filho de sapateiro e que foi uma figura política de relevo na Primeira República Portuguesa, ficou conhecido na história de Portugal pelo seu papel enquanto fundador da primeira organização bolchevista nacional (Federação Maximalista Portuguesa), assim como dinamizador da fundação do PCP.Luís de Freitas Branco, músico, maestro e compositor de prestígio, é autor da famosíssima peça “Suite Alentejana n.º 2”, composta em 1927, na herdade dos Perdigões, propriedade rural da família Freitas Branco, situada em Reguengos de Monsaraz. Peça esta que foi apresentada pela primeira vez em outubro de 1929 na Exposição de Sevilha, num concerto dirigido pelo maestro Pedro de Freitas Branco, irmão do compositor. Em 1952 integrou o júri do II Concurso de Cantadores Alentejanos, já organizado pela Casa do Alentejo.A vinda a público deste documento constitui novidade e assume particular relevância histórica, artística e documental, o que é revelador da importância dos arquivos dos grupos de cante. O projeto do Arquivo Digital do Cante continua a ser implementado e a alargar, geograficamente, a sua área de intervenção, na certeza de que muitos mais tesouros estarão por aí, perdidos ou nem por isso, e que esperamos ter a oportunidade de partilhar com o público. Até lá, seguimos com a determinação que nos caracteriza enquanto projeto!

Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt

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