As referências a Azinhal Abelho, nestas crónicas, são frequentes. Porém, nunca se aprofundando quem foi este homem que, sendo do Alto Alentejo, natural da freguesia de Orada, no concelho de Borba, repetidas vezes se menciona associando-o ao cante. Ora porque esteve em diversos desfiles de grupos corais em Beja, ora porque desenhou os diplomas dos grupos de cante premiados em Lisboa, no II Concurso de Cante organizado pela Casa do Alentejo, em 1952, ora por outras e muitas questões. Azinhal Abelho, nascido na já referida freguesia do distrito de Évora, em 1911, foi homem do teatro, poeta, ficcionista e investigador de etnologia rural, sobretudo do Alentejo. “Os seus levantamentos etnológicos caíram por vezes no folclorismo tradicionalista e no pitoresco, sem substrato efetivamente científico, na esteira de muitos dos apologistas do Estado Novo, em busca de raízes históricas, pretendidamente assépticas, sem ideologia”1. Filho de proprietários, Azinhal Abelho estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fundou o Teatro Rural em Elvas, o Teatro do Arco da Velha e o Teatro d’Arte em Lisboa. Do vasto currículo desta figura incontornável da cultura do Alentejo há ainda a sublinhar que o mesmo realizou vários filmes para cinema, destacando-se “O Alentejo, não tem sombra” (Prémio Paz dos Reis). Também em 1936 foi distinguido com o Prémio Antero de Quental com “Confidências de um rapaz provinciano”. Escreveu na “Revista Mensagem” e dirigiu o jornal de poesia popular “A Voz de Portugal”, para além de outras participações pontuais noutros periódicos. Amante da sua terra, o seu nome aparece ainda associado aos famosos títeres (vulgo Bonecos de Santo Aleixo). Foi organizador dos Cortejos do Trajo e Históricos da Cidade de Évora, integrados na Feira de São João, onde vários grupos de cante tomaram parte. Por diversas vezes, gravou com som e imagem grupos de cante, como já referenciado noutras crónicas. Presença assídua e atenta nos Concursos de Cante de Beja, onde, regra geral, gravava alguns grupos, escreve detalhadamente, no “Mensário das Casas do Povo”, em outubro de 1949, na rubrica “Roteiro Lírico do Alentejo”, um texto intitulado “Vai alta a noite por Beja”, onde descreve o “despique dos Corais”, na noite de São Pedro desse ano.Da longa descrição do dito concurso, toda ela muito interessante, ressalta um vasto conjunto de informações sobre os grupos e alguns preceitos da organização do evento percecionados “da rua apinhada de gente,por onde passam os ranchos, em frente ao edifício onde estadeia o júri que há de classificar os cantadores”. Classificando o coletivo de jurados como “eruditos”, referencia e identifica o poeta Mário Beirão, “com os olhos cheios de deslumbramento” e o “atentíssimo” padre Marvão. Afinal, o poeta não pertencia ao júri, soube-o depois. Entre o tecimento de considerações várias, o texto lá flui até à primeira referência aos grupos de cante participantes no desfile, “cujas vozes começam agora a ouvir se (...). Não sei de que terra são. Alguém me diz que desfilam por ordem alfabética. Talvez Aljustrel, Almodôvar ou Alvito. Os mineiros impressionam toda a gente pelo trajar característico dos chapéus das minas e as lanternas acesas. Eu fico mais cativado com ‘os de Almodôvar’. (...) Os de Peroguarda, de samarra e seifões, trazem mulheres com rostos embiocados. A estes oiço-os bem: ‘Ó Beja, mãe dos poetas / Segura fama te dão’”. Continuando a sua narrativa, o autor segue escrevendo e identificando outros grupos que entretanto tinham já desfilado, “os de Beja, de Serpa, de Cabeça Gorda, Vidigueira... todos em passo firme, cadenciado”. Entre notas e opiniões enaltecedoras sobre os poetas populares, o cante e a cidade de Beja, Azinhal Abelho faz ainda um périplo literário sobre tradições portuguesas e seu património, terminando nos cantos entoados “Rosa Branca desmaiada/Onde deixaste o cheiro? (...) Depois é o Lírio Roxo. A moda nova do ano de 1949, foi o Viva o Rei! / Viva a Rainha! /Vivam todos com prazer /Uma festa como esta /Já Beja não torna a ver. Alguém a desenterrou e a lançou para esta noite de S.Pedro”. Passados 77 anos deste texto riquíssimo, de que hoje se partilham trechos, termina-se esta crónica com duas frases do autor que em muito continuam a caracterizar e a definir todos aqueles que amam, vivem e se entregam ao cante. “Sortilégio, sonho, aventura, punhos cerrados e lágrimas secas – são as palavras que evoco quando oiço estes homens por esta noite que eu gostava que não tivesse fim! (…) Que felizes são os homens que cantam. Os que não fazem consomem-se em nada!”.
Florêncio Cacete
Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt
1 Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997