A Entidade Regional de Turismo do Alentejo lançou, recentemente, um novo produto promocional que convida à descoberta da região através de cinco itinerários inspirados no cante. Da brochura publicada ressaltam percursos que “cruzam paisagem, património, tradição e a identidade única do cante alentejano, constituindo um verdadeiro convite a explorar o destino “ao ritmo da sua cultura”, tendo o cante alentejano como fio condutor. Na apresentação da iniciativa participou o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, sublinhando, assim, a forte, e estratégica, ligação existente entre o turismo e o cante alentejano. Relação esta que não é nova e muito menos estranha para o Grupo Coral de Serpa, já referenciado, e cujos arquivos, em tratamento pelo Arquivo Digital do Cante, documentam a participação deste grupo coral no VIII Congresso Internacional de Turismo de 1953, que decorreu em Lisboa, na segunda semana de outubro. Desta participação no VIII Congresso e Assembleia Geral da União Internacional de Organismos Oficiais de Turismo (Uioot), precursor da atual Organização Mundial do Turismo (ONU Turismo), encontramos nos arquivos do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa referências em alguns documentos preparativos da deslocação. Uma primeira menção à participação no evento surge em 4 de outubro de 1953, num ofício dirigido ao senhor Nunes, dando conta da deslocação do grupo a Lisboa, a fim de colaborar no espetáculo folclórico e etnográfico que se iria realizar no Casino do Estoril, estando prevista a chegada a Lisboa, no dia 9, pelas 13:00 horas. Pelo que, em caminho para a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) se previa uma apresentação de cumprimentos na Casa do Alentejo.Na perspetiva de tirar maior proveito da ida a Lisboa, a uma sexta-feira, o grupo coral tenta elaborar um programa cultural para os seus próprios elementos. Pelo que escreve à administração da Feira Popular de Lisboa, disponibilizando-se para ali atuar no sábado à noite, dia 10 de outubro, mediante algumas condições. Nomeadamente, a garantia de dormida, refeições e 500$00 para compensação de salários dos componentes do referido rancho, “em número de vinte, serem pessoas pobres e na sua maioria chefes de família, não lhes permite ficar em Lisboa, a fazer despesas, sem qualquer compensação das mesmas”. Condições com as quais a feira popular concordou, conforme informado em telegrama datado de dia 7 de outubro. Paralelamente, no dia 5 de outubro, o grupo coral envia uma outra carta a Azinhal Abelho, de quem se falou na última crónica, dando igualmente conta da deslocação a Lisboa e dos trajos que iriam apresentar, ganhões, almocreves, pastores, porqueiros, boieiros, entre outros. Nesta carta solicita-se a intervenção do destinatário junto da administração da Feira Popular de Lisboa, de forma a que fosse aceite a proposta apresentada pelo grupo coral. Visto que, só assim, seria possível satisfazer o desejo dos “rapazes” ficarem em Lisboa, no domingo, para “assistirem a um jogo de futebol”. O grupo terá regressado a Serpa, de comboio, no domingo, dia 11, depreendendo pelo teor das missivas. Graças à documentação arquivada, é possível partilhar esta história real da participação do cante num evento de extrema importância para o Turismo. Segundo os arquivos da “RTP”, a representação portuguesa foi liderada por Jorge Felner da Costa e contou com discursos de figuras como José Manuel da Costa, secretário Nacional da Informação (SNI), à qual assistiram delegações de 45 países, neste congresso que tinha como objetivo demonstrar a “tranquilidade” e o potencial turístico do País a uma audiência global, afirmando-se como um marco relevante para a projeção internacional de Portugal no período pós-Segunda Guerra Mundial, consolidando o País como um destino turístico emergente.A julgar por documentação avulsa, ainda não tratada, esta poderá não ter sido a primeira atuação do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa no Casino do Estoril e até outros grupos terão por lá passado nesta década, mas a história que nos contam os documentos logo nos dirá… Até lá, seguimos a reconstrução deste grande puzzle, com o empenho que temos tido até aqui, de todos os grupos e muitos amigos que nos fazem chegar regularmente novas fontes.
Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt