Diário do Alentejo

Beja é o comboio adiado

09 de maio 2026 - 08:00
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Jorge Serafim

 

Às vezes não me perdoo gostar tanto desta terra. Esta história das raízes que nos amarram às entranhas de onde nascemos e somos criados sobrecarrega os sentimentos. Amarra-nos a uma esperança longínqua de acontecer. Como se o futuro fosse um projeto adiado. Mas dói gostar de Beja, amá-la, porque possui dois mil anos de história. De uma riqueza que deveria ser intemporal… E que teima em concretizar-se, materializar-se no coração das pessoas, na cabeça das pessoas, na responsabilidade das entidades, quer sejam locais, regionais ou nacionais.Vem este sentimento, confesso melancólico, a propósito dos factos ocorridos no dia 5 de maio do presente ano. Mais uma vez, como acontece regularmente, as atribulações vividas por quem usa o comboio como transporte regular foram negativamente surpreendentes. Estrondosamente malignas para o bem-estar dos cidadãos.Passo a explicar… Hoje [terça-feira] todas as automotoras que fazem o trajeto Beja-Casa Branca-Beja avariaram. Cansadas de mais de cinquenta anos de atividade estoiraram! Há muito que avisam, que dão sinais de que todo o corpo tem um tempo de vida e que há uma fase em que só o repouso as permite, de quando em vez, voltar a respirar o ar das planícies que atravessam. As peças e as engrenagens que as compõem, como os ossos e as articulações das pessoas, desgastam-se. Nem óleo, nem cálcio, lhes renova a vitalidade.Hoje bloquearam a sua própria função de locomoção. Houve uma que ficou parada a cinco quilómetros de Casa Branca, teve de ser rebocada por uma locomotiva que veio da lonjura de Lisboa. Os utentes ou pacientes da patologia ferroviária tiveram de aguardar algures num campo de nenhures pelo socorro. Contam que nem a GNR e a proteção civil os conseguiram alcançar nas suas viaturas. Ainda bem que inventaram as moto 4, pois foi só desta forma que a autoridade conseguiu atravessar campos agrícolas vedados, veredas e demais propriedades privadas para prestar auxílio e levar garrafas de água a quem há muito suspirava por um futuro manifestamente enevoado. Também contam que devido às obras na estrada na zona de Casa Branca, quem veio da capital do império periférico (Lisboa) quando chegou a esta estação intermediária foi obrigado a terminar a viagem em Évora, e aí chegados apanharam um autocarro que para chegar até Beja teve de parar, por estrada, em todas as estações que constam do trajeto estipulado para o comboio. Resultado: duas horas de atraso. Mas a pior epopeia viveram os tais que tiveram direito a reboque, que tinham partido às 10:45 horas com destino a Lisboa e ainda às 16:00 aguardavam na estação de Casa Branca o regresso a Beja. Desistiram do seu destino, pois quem vai com consulta marcada, ou outro qualquer compromisso agendado, escusa de programar previamente a vidinha, porque nunca se sabe a que horas se parte, muito menos a que horas se chega. Resultado: cansados de se sentirem perdidos no meio do campo e do atraso prolongado regressaram quase todos à rainha da planície. Eram 17:45 horas quando os que foram e os que vinham desembarcaram na cidade. Para uns foram sete horas de nada, sete horas de angústia, sete horas de revolta, mais sete horas de descrédito a juntar a tantos de manifestações, de petições, de idas à Assembleia da República, de recolhas de assinaturas, de entrevistas e, no fim, só me vem à cabeça um poema de Fernando Pessoa, “Alentejo, nada com nada à volta”.E recordo-me que foi no ano de 2010 que a população criou o movimento Beja Merece para reivindicar o mais elementar dos direitos que qualquer cantinho deste país merece pertencer a este território à beira-mar plantado. Passaram 16 anos, o professor Florival Baiôa, grande impulsionador e aglutinador de vontades e esperanças deste movimento já faleceu… E o que mudou? Surgem promessas de novas automotoras, apesar de a ligação direta a Lisboa não ser um dado adquirido. Surgem novas promessas de eletrificação da linha e surge em nós a necessidade de voltar a acreditar.Mas pelo que vivi e senti hoje, pelos episódios dramáticos contados pelos meus colegas utentes, sei que 16 anos depois de termos iniciado a defesa intransigente da eletrificação da linha e das ligações diretas a Lisboa o Baiôa já não está entre nós e, por enquanto, nada mudou e nada vai mudando. Este gerúndio da vida dói muito em quem ama Beja. Aguardemos então…

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