Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt
Na crónica passada, a partir de um documento que consta dos arquivos do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, foi referenciada a sua participação no I Festival do Algarve em 1964, sendo referidos também, transversalmente, o nome de outros grupos folclóricos e artistas participantes. Foi então referida a participação do, atualmente designado, Grupo Folclórico de Faro, grupo de soberba representatividade e rigor técnico e artístico que tem levado o nome do Algarve e de Portugal aos quatro cantos do mundo. Fruto da longa, e recíproca, relação de amizade entre o autor destas crónicas e o diretor do Grupo Folclórico de Faro, Amabélio Pereira, com quem foi partilhada a documentação referente à sua participação no referido certame, recebemos em troca documentação vária sobre referências aos grupos de cante na imprensa regional do Algarve. Contributo que o Arquivo Digital do Cante muito agradece. De entre a documentação partilhada, ressalta à vista um episódio, envolvendo o Grupo Coral Os Vindimadores da Vidigueira, no ano de 1967, que mereceu chamada à capa do “Semanário Provincial, Jornal do Algarve”, de 25 de março de 1967, sob o título “À volta de uma aventura…. e de uma desventura”.Desenvolve-se todo o episódio em torno de uma crítica do jornalista (também alentejano) publicada no jornal algarvio sobre a apresentação do Grupo Coral Os Vindimadores da Vidigueira no programa “Folclore”, da “RTP”, no dia 4 de março de 1967, em que, muito sinteticamente, o cronista se refere ao desempenho do grupo como “simplesmente desolador”, adiantando a narrativa: “Nunca supusemos que, um dia, há relativamente pouco tempo, um grupo de cantadores de certa vila daquela grande província viesse a apresentar, frente às câmaras da Radiotelevisão Portuguesa, um folclore dito alentejano (aludimos tão somente aos cantadores) que não pertence, de modo algum, ao Alentejo. Nem por sombras! E nem ao Alentejo, nem a qualquer outra província nacional ele pertence. Umas modinhas onde se fala do mar (mar, muito mar, num folclore alentejano!) de D. Dinis e de não sei quê mais… E foram umas modinhas como essas que serviram para significar o Alentejo!... Não. Afinal, não é o Alentejo”. Não bastando o já transcrito, o autor da dita crónica que espoletou todo o episódio que se estendeu pelas edições de 15 de abril e de 13 de maio de 1967 avança ainda com uma comparação, de forma a defender a sua visão de folclore alentejano, em tudo consonante com o estereotipado pelo regime, escrevendo: “Estamos agora a lembrar-nos de uma exibição feita (há anos, quando a RTP era ainda uma criança, e para os primeiros telespetadores embasbacados com a novidade) por um grupo de ceifeiros de uma terra alentejana, que dista uma dúzia e poucos quilómetros desta que apresentou presentemente o seu grupo. Que diferença entre essa atuação do passado e esta dos dias que passam. Na outra, aquilo não enganava ninguém! O Alentejo estava lá todo inteiro! Será que o folclore alentejano muda como o vento? Ou melhor: Será que o folclore alentejano morreu?”. E termina o autor daquela crónica pedindo “mais uma oportunidade! Embora saibamos que a infeliz demonstração feita naquela noite nunca se esquecerá tão depressa como possa esquecer-se, por exemplo, um infeliz jogo de futebol…”.Ora, perante esta tentativa de ridicularização da prestação do Grupo Coral Os Vindimadores da Vidigueira, e mediante tamanha exposição pública e mediática que chegou ao grupo visado, naturalmente que o então diretor do grupo, Manuel António Mansos, de imediato, tomou posição pública e pede ao jornal “a fineza de ordenar que seja publicada nesse jornal uma carta de resposta ao artigo”. Carta essa que foi publicada em 15 de abril de 1967 e cujo teor partilhamos na imagem. Este episódio, sobretudo, infeliz para o suposto crítico e não para o grupo, permite-nos então, mais uma vez, entender a forma como, na altura, se olhava para os grupos de cante e sua utilidade, ou não, como promotores da mensagem do Estado Novo. Passaram 60 anos deste episódio. Porém, à luz dos dias de hoje, continuam a ouvir-se ecos deste pensamento o que, não raras vezes, nos leva a refletir sobre de que Alentejo falam os outros. É o mesmo que o nosso, que cá vivemos, que cá trabalhamos? Ou é uma versão romantizada de um Alentejo idealizado? E o que nos diz a paisagem hoje? Sobre este território? Quem canta? O que canta? E porque se canta? Deve ou não usar-se indumentária ou trajes tradicionais nos grupos? Porquê? Para quê? Reflexões fundamentais, importantes, e que todos e cada um possam fazer no quadro da sua liberdade de pensamento e ação, com recurso à capacidade crítica e analítica e espírito criativo.
