Diário do Alentejo

“Com a participação no ‘Got Talent’ consegui fazer prosperar a minha carreira”

14 de janeiro 2026 - 08:00
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Texto | Luís Miguel Ricardo

 

Introduz-se como “um rapaz normal, que gosta de um bom convívio e de um bom petisco.”À parte disso, consta que nasceu no hospital de Évora, em março de 2007, mas a naturalidade é atribuída a Vendas Novas. Sobre a escola, refere que nunca gostou de estudar, nem levou “aquilo à séria”, mas que adorava a instituição, porque via nela um lugar de convívio e de passatempo. Frequentou uma turma de Humanidades para se “safar à maldita da Matemática”. Escapou à Matemática e atracou-se a amizades que ficaram para a vida, amizades de colegas e de professores. Aos 10 anos entrou para o grupo de Teatro das Artes, em Vendas Novas, e com a mesma idade pisou o palco pela primeira vez. E no grupo de teatro já leva oito anos. Oito anos em que viu colegas a entrar e a sair, mas ele permanecendo e tornando-se no ator com mais tempo de grupo. Nos espetáculos a solo, estreou-se quando contava 15 anos de idade, levado a palco anedotas e músicas do Quim Barreiros. Aconteceu numa terra chamada Silveiras, dista oito quilómetros de Vendas Novas. Dos vários projetos em que já participou, destacam-se: as peças de teatro realizadas na terra; os vídeos de TikTok a narrar anedotas; e as participações em programas de televisão, nomeadamente, “Casa Feliz”, da “SIC”, e o concurso “Got Talent – Portugal”, da “RTP”. Eis João Caçoilas na primeira pessoa!

 

Quando e como surge esta ligação à arte de palco?Isso sempre esteve presente em mim, sempre gostei de fazer os outros felizes. Lembro-me de andar na escola primária e de me oferecerem livros de anedotas, que ainda hoje guardo com todo o gosto e admiração. Quando era mais novo, lembro-me de ver, com a minha avó, as novelas da Alexandra Lencastre, e vivia aquelas histórias intensamente. Talvez isso tenha feito com que o meu bichinho da representação fosse cada vez maior. Atualmente, quando me lembro de algumas das novelas mais marcantes que vi da Alexandra, sinto uma enorme nostalgia.

 

Dos vários trabalhos já realizados, há algum a destacar?Não. Para mim todos os trabalhos têm o mesmo valor e são executados com o mesmo entusiasmo, desde uma simples atuação numa festa de aldeia até à minha participação no “Got Talent”. Fazer rir é o meu trabalho, por isso tenho de executá-lo sempre de igual maneira.

 

Como é constituído o seu reportório de anedotas?Ora muito bem, as anedotas não são minhas, são do povo. Agora, há que lhe dar um cunho pessoal, contar de maneira diferente. A maioria delas, ouço-as nos cafés, com aquelas pessoas antigas que têm aquela maneira singela e engraçada de as contar. Por vezes, quando tenho tempo, sou capaz de estar num café, ou noutro sítio qualquer, duas horas a aprender anedotas e sempre com um bloco de notas a apontar. Por exemplo, tenho uma que é a da “Rapariga na varanda”, que foi uma vizinha minha, já falecida, que me a contou, em 2023. Achei-lhe uma graça enorme e pensei: tu ficas comigo! Contei-a já em televisão e só mais tarde descobri que é uma adaptação de uma anedota do nosso Bocage. Mas também há aquelas que se “casam” umas com as outras e depois, com o tempo, acabo por compilar.

E a poesia picante. Que tipo de poesia é essa?A poesia picante é a poesia popular. É aquela à estilo Quim Barreiros, são quadras, onde o segundo verso rima com o quarto, e que tem sempre ali “qualquer coisa” com duplo sentido, normalmente alusivo ao sexo, ou, pelo menos, levar as pessoas a pensarem no assunto, porque é algo que toda a gente gosta e que não ofende ninguém. A maldade dos meus poemas pode ser entendida através das frases, como por exemplo o da mulher da lego: “fui montá-la àquela hora”; ou da cacofonia, que faz com que duas palavras ditas juntas, formem um segundo sentido, como é o caso da ourivesaria: “eu não sei se tem fio”.

 

Como é o processo criativo da sua poesia picante?Fazer a poesia picante não é fácil. A minha principal ajuda é o dia a dia, de onde posso retirar alguma brincadeira, com segundas intenções, através do diálogo com as pessoas, sejam elas ditas de forma consciente ou não. Depois de ter aquilo que é o duplo sentido, tenho de me sentar na minha secretária e arranjar uma história para levar as pessoas à brincadeira pretendida. A minha grande fonte de inspiração para o segundo sentido das palavras vai ser sempre o meu mestre Quim [Barreiros].

 

Mais alguma expressão artística que tenha experimentado?Não, a minha vida tem sido sempre o teatro e o humor, mas estou aberto a novos desafios, pois sempre gostei muito de aprender e sempre fui muito curioso.

 

Que importância teve a sua passagem por programas de televisão para a promoção da carreira de humorista?Foi a minha ascensão. Sabemos que a televisão continua a ser o meio mais poderoso de divulgação. As pessoas começaram a conhecer-me depois das minhas idas à televisão. E com a participação no programa/concurso “Got Talent” consegui fazer prosperar a minha carreira. Às vezes vou na rua e há pessoas que ficam a olhar para mim e a fazer gestos umas às outras. Outras vezes abordam-me e perguntam-me: “Você não é o rapaz das anedotas?” Depois da minha confirmação, acabamos quase sempre por tirar uma fotografia. Algumas também me pedem para contar uma anedota, mas eu às vezes tenho tanta pressa, que conto aquelas chamadas “rapidinhas”, as pessoas ficam muito felizes, algumas até filmam. É bom saber que as pessoas gostam.

 

Que papel desempenham as plataformas digitais na promoção da carreira artística?As plataformas digitais são outra grande ajuda, principalmente o TikTok e o Facebook, onde tenho milhares de seguidores e vídeos com mais de três milhões de visualizações. Costumo publicar por lá algumas anedotas que conto na televisão, e essas fazem muito sucesso. No entanto, o pessoal mais jovem que me aborda conhece-me apenas do TikTok.

 

Uma ligação à rede social TikTok que começou por acaso. Quer partilhar?Em 2023, dois colegas da minha turma deram-me a ideia de fazer vídeos para o TikTok a contar anedotas. E eu, como nunca fui muito adepto das novas tecnologias, disse que não queria. Mas a minha prima Débora reforçou o pedido e lá me convenceram a gravar o meu primeiro vídeo para o TikTok, no período do almoço, na escola. Em poucas horas o vídeo chegou à centésima de milhar de visualizações e isso fez com que continuasse a gravar mais. Qualquer vídeo publicado tinha sucesso, recebia mensagens com elogios de várias zonas do país, mas eu, na verdade, nunca gostei de ser elogiado.

 

Alguma situação inusitada experimentada ao longo do percurso artístico?Lembro-me de uma vez estar no Centro Comercial Colombo e vir uma senhora inglesa ter comigo e começar a falar para mim. Eu como não entendo inglês, pensei que a senhora estava a pedir indicações, e só quando a ouvi falar em “Got Talent” é que percebi que se tratava de um reconhecimento. Mais tarde, depois de estar ali a tentar perceber o que ela me queria dizer, lá descobri que a senhora afinal também arranhava no português.

Onde é que se vê, como artista de palco, daqui por 10 anos? Não sou muito de pensar no futuro, gosto de viver o presente intensamente, mas, como qualquer homem, imagino-me um bom chefe de família. Sempre gostei muito de mulheres, são a melhor coisa deste mundo, mas enquanto não encontro a certa, vou-me divertindo com as erradas. É preciso arranjar uma grande mulher para estar ao meu lado, aceitando a vida agitada que tenho. Eu pouco paro em casa. Já em termos profissionais, enquanto o meu barco for andando, vou fazendo rir os outros. Um dia, se ele naufragar, arrumo o estojo e continuo a ser o simples João de Vendas Novas. De qualquer maneira, que Deus me ajude a ter sucesso, como tenho tido até agora, pois toda a gente sabe que as anedotas são a minha praia.

 

O que está na manga?Vou lançar o meu novo livro de poemas picantes que se chama O Bouquet, acabei de o escrever, conta com 80 poemas novos, uns com duplo sentido, outros dedicados a pessoas que marcaram a minha vida. Vou enviá-lo para a editora e esperar que o editem. Tenho lá poemas que vão promover muitas gargalhadas, como é o caso do “Creme Návizinha”, que tem muita maldade por lá espalhada. Mas também convido as pessoas a verem o meu lado mais sentimental, embora haja ali pelo meio alguma pimenta, podemos ver um dos novos poemas chamado “Gostas de me amar”. Não esquecendo aqueles que têm quadras soltas, para a brincadeira, quadras que são do povo e que metem graça, algumas que já estavam escritas há alguns anos. Acho que podemos dizer que o livro está simpático.

 

Quer terminar a nossa conversa com estrofe publicável? Obrigado pelo reconhecimento, obrigado pela admiração. Para o “Diário do Alentejo”, um grande abraço do vosso João.Mas já agora, sabem como se chama as partes íntimas de uma inglesa? El Corte Inglês.

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