Diário do Alentejo

Rita Marreiros: “Gostaria de um dia ter uma história na Costa Vicentina”

12 de fevereiro 2026 - 08:00

Tem 31 anos, nasceu em Beja, mas foi por terras do Mira que se fez menina e moça e mulher. E é por essa mesma geografia, Odemira, que continua a estar e a viver. O ensino secundário fez-se com um curso profissional de técnico de turismo. Um percurso académico que desaguou no ramo da hotelaria, atividade na qual já conta com vários anos de experiência.Sobre a sua ligação às letras feitas texto, refere que, desde muito pequena, sempre gostou de ler e que, a fazer fé nas palavras maternas, a vontade de ser escritora a acompanha desde essa fase.Da sua bibliografia principal fazem parte duas obras: A Lucidez da Loucura, o seu primeiro livro publicado, e Lisboa Rosa, o seu romance mais recente. Eis Rita Marreiros na primeira pessoa!

 Quando e como foi descoberta a afinidade com a escrita?

A descoberta e afinidade para escrever surgiram em sites e fóruns de fanfics, que são plataformas onde leitores e autores partilham histórias escritas por fãs, geralmente inspiradas em livros, séries, filmes ou outras obras já existentes. São como comunidades criativas, em que qualquer pessoa pode escrever, publicar e ler narrativas alternativas, continuações, universos paralelos ou novas interpretações das personagens originais.

 De onde vem a inspiração para a criação literária?

A inspiração surge de muitos lugares: de observar as pessoas à minha volta, de situações do quotidiano ou até de uma música que desencadeia uma emoção ou uma imagem.

 Lisboa Rosa. Que livro é este?

Lisboa Rosa é um romance que mistura memórias, identidade e crescimento, seguindo o percurso de uma jovem que tenta encontrar o seu lugar num mundo que nem sempre a compreende. A história nasce do meu interesse pelas relações humanas, pela inclusividade e pelas contradições e amizades tóxicas da adolescência, tendo uma Lisboa dos anos 90 como pano de fundo. O objetivo principal desta obra foi criar um livro emocional, honesto e próximo, que permita ao leitor entrar na intimidade das personagens e através delas reconhecer em si o desejo pela liberdade, o desejo de pertença, ou conhecer as feridas que cada um carrega em silêncio. É um livro pensado para leitores que apreciam histórias com paixões intensas, sensíveis e humanas e, claro, sem preconceitos.

 

E já foi experimentada mais alguma valência da literatura?

Não. O romance é o formato narrativo em que me sinto mais confortável e em que consigo explorar as histórias e as personagens com melhor profundidade.

 Que papel desempenha o Alentejo na escrita de Rita Marreiros?

Na verdade, o Alentejo não tem um papel direto nos meus livros, porque nenhum deles se passa aqui… ainda. Gostaria de um dia ter uma história na Costa Vicentina. Já pensei nisso, mas ainda não poli a ideia com a devida dedicação. Porém, é o lugar onde nasci, cresci e vivo, e isso faz parte de quem sou. Odemira foi a vila que me deu a oportunidade de apresentar o meu primeiro livro. O Alentejo acompanha-me na forma como cresci, nas memórias que trago e no caminho pessoal que fiz e, de alguma forma, tudo isso viaja comigo para a escrita, mesmo que não apareça de forma explícita nos livros.

 

Alguma situação inusitada vivida ao longo do percurso ligado à literatura?

Já vivi situações curiosas, quase como se a ficção e a realidade se tocassem. Às vezes, quando estou a trabalhar num livro, começam a surgir à minha volta pequenas coincidências: pessoas com o nome dos meus personagens, conversas que parecem saídas da história ou acontecimentos que espelham cenas que eu própria inventei. Por exemplo: enquanto escrevia Lisboa Rosa, inventei uma droga fictícia chamada “zenith rosa”. Um dia, estava a caminhar na rua e passei por um restaurante chamado Zenith. Logo a seguir, apareceu uma pessoa com o cabelo cor de rosa a passar ao meu lado. Outro exemplo: no livro há uma cena em que a protagonista se perde em Lisboa à noite e é “salva” por uma rapariga que a ajuda a encontrar o caminho. Curiosamente, em janeiro, quando fui lá, acabei a viver quase o mesmo. Pelo menos, estava acompanhada. Andávamos às voltas à procura de um táxi, já de noite, no meio da confusão. Um taxista foi rude e recusou-se a levar-nos e, de repente, surgiu uma senhora, também taxista, que nos chamou logo, muito querida, e disse que nos levava. Foi impossível não pensar imediatamente no livro. Para mim, são coincidências que me fazem rir e que me fazem sentir ainda mais ligada às histórias.

 

Qual a opinião sobre o universo da escrita em Portugal e no Alentejo?

Em Portugal há muitos escritores talentosos, mas publicar continua a ser difícil. As editoras recebem muitos livros e não conseguem aceitar tudo porque, legitimamente, não querem perder dinheiro. Depois há editoras que cobram aos autores e nem sempre oferecem um verdadeiro trabalho editorial ou publicitário. No Alentejo a realidade é parecida, só que com menos oportunidades. Há bons autores, mas é mais complicado chegar aos leitores ou participar em eventos, porque quase tudo acontece nas grandes cidades. A autopublicação tem ajudado bastante. Dá liberdade e permite que qualquer autor publique o seu trabalho, mesmo sem apoio de uma editora ou com editoras que oferecem serviços de gráfica e editoriais em separado, e pelos quais se pode pagar. Não é um caminho fácil, mesmo autores independentes devem certificar-se de que têm uma obra minimamente polida para colocar no mercado. Mas é uma opção que abre portas e dá mais possibilidades a quem quer ver o seu livro fazer parte do universo literário.

 

Quer partilhar a sua experiência de autopublicação?  

A autopublicação permite-me controlar todo o processo: desde a escrita e revisão até à capa, ao formato e ao momento de lançamento. Gosto dessa autonomia e da proximidade que cria com os leitores. Exige tempo, investimento e muita paciência. A divulgação também é um grande desafio, porque sem o apoio de uma editora temos de encontrar os leitores sozinhos e isso nem sempre é fácil. Ainda assim, para mim, as vantagens têm superado os constrangimentos. A autopublicação deu-me a oportunidade de ver o meu trabalho ganhar vida, no meu ritmo e sem pressões.

 

E o acordo ortográfico?

Não concordo com o novo acordo ortográfico. Sinto que, em muitos casos, retirou identidade a certas palavras. Ainda acabo por usar algumas regras do antigo acordo. É a grafia que aprendi na escola, aquela que me soa mais familiar e intuitiva. Apesar disso, respeito quem o utiliza e reconheço que há autores e leitores que se adaptaram bem.

 

Que sonhos literários moram em Rita Marreiros?

Vejo a escrita sobretudo como um hobby, algo que me acompanha desde sempre e que me faz bem. Tudo o que vier por acréscimo é bem-vindo. O meu sonho é simplesmente continuar a escrever histórias que me façam sentido e que encontrem leitores que se identifiquem com elas. Se, ao longo do caminho, surgirem novas oportunidades, abraçá-las-ei com gratidão, mas sem expectativas irreais.

 

O que está na “manga”?

Para já, estou a trabalhar numa segunda edição do meu primeiro romance, A Lucidez da Loucura. Senti que precisava de algumas revisões e de um aprofundamento das personagens que, na altura, ficaram por desenvolver, muito por falta de maturidade da minha parte e também por ter seguido de forma demasiado rígida certos “gurus” da escrita no YouTube. Além disso, estou a escrever o segundo livro de Lisboa Rosa, que será focado na história e no passado da segunda protagonista. Tenho ainda planeado um thriller nórdico para um futuro mais distante.

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