Texto Jorge Martins
Sou das palavras.
Das escritas. Das faladas. Das sinceras. Das marcantes. Das palavras.
Não sou dos desenhos. Tampouco dos números. Sou das palavras.
Há uns tempos, num jantar de amigos, surgiu a ideia de fazermos um desafio: cada um de nós tinha de escolher uma palavra que caracterize o outro, rodando todos os que estavam naquela mesa. Chamei-lhe aqui desafio porque era essencialmente disso que se tratava: escolher uma palavra apenas não seria tarefa fácil à partida. Se há para quem tenhamos muitas e todas válidas, outros há para quem não se encontre “A” palavra.
Um dos elementos, quebrando as regras (não escritas) definidas no início, ao chegar a sua vez de me definir, disse: “Ele conhece as palavras e usa-as. Todas. E bem”.
Partilho com uma colega de trabalho um documento em que anotamos as expressões que, ouvidas aqui e acolá, compõem este manual que tem zero de sobranceria e muito de curioso. A curiosidade de descobrir cada vez mais material para este compêndio do mal falar instalado no nosso quotidiano sem que demos conta, tal a naturalidade com que se acomodou. Muitas vezes traz até atrelada a justificação de que “também se pode dizer assim” ou, mais usual, “diz-se das duas maneiras”, argumentos que não passam de tentativas de falsos álibis.
Com isto, por um lado, alimentamos a curiosidade de perceber se este registo terá fim e, por outro, redobramos a atenção ao que nos rodeia, pois as fontes podem estar em cada esquina.
Passo muito tempo de phones nos ouvidos. Alterno entre a música e os podcasts de comédia ou boa conversa. Há dias, numa sugestão do algoritmo da plataforma, surgiu um podcast que, pela descrição, me suscitou interesse. O risco não compensou e não cheguei aos cinco minutos de audição. Perdi a conta ao número de vezes que o jovem apresentador (provavelmente, nos dias de hoje, não deve ser esta a designação para o host de um podcast) proferiu a palavra “tipo”. E este foi o gatilho para sair. Porque a forma de comunicar não me cativou. Bem sei que para muitos passaria despercebido dada a familiaridade. Mas a mim apresentou-me de imediato aquela pessoa. Estereótipo? Talvez. Segunda oportunidade? Talvez não. Mas apenas e só porque não é para mim. Deverá sê-lo, com certeza, para muitos. Oxalá que assim seja, a bem de quem o produz, que também não quer lá picuinhas da comunicação como eu.
Comunicar é, ao mesmo tempo, uma necessidade e uma responsabilidade, o que, por si, deveria obrigar tacitamente a que fosse bem feito.
Vivemos na era do imediato. Do consumo rápido. Do descartável. Dos reels e das stories. Do Tik Tok e do podcast. Mas a vida é muito mais do que isso. Tem de sê-lo. Tudo é comunicação e quase tudo exige a palavra. Ela tem de ser preservada. Respeitada. E tem de ser usada para não ser esquecida.
Continuo a acreditar que a palavra certa, no momento certo, salva situações. Confere credibilidade. Mais do que falar (ou escrever) demais importa fazê-lo bem, de forma assertiva, correta e que garanta que a mensagem chega toda ao outro lado. Não será, por isso, a cortar nas palavras que chegaremos ao objetivo. Podemos consegui-lo de forma imediata, resolver aqui ou ali uma necessidade. Mas essa sensação será tão efémera quanto o momento que ela representa.
Desenvolver e aplicar o vocabulário, desde cedo, reforça o poder argumentativo e coloca quem o faz numa posição de vantagem em quase todos os contextos. Hoje, essa vantagem será tão maior quanto mais precoce for o seu desenvolvimento pois, garantidamente, “em terra de cegos, quem tem olho é rei”, e o que mais temos por aí espalhados são “cegos” dessa espécie.
Recuso-me a ceder à teoria da lei da oferta e da procura ou, pelo menos, à inevitabilidade de entregar “o ouro ao bandido”, sendo que esse “bandido” não sabe o que fazer com ele. Se é para dar palco, então que seja o palco que dita as regras de quem a ele sobe, e não o contrário. E os palcos são vários. E os canais têm necessidades diferentes e a adaptação ao meio é obrigatória. Mas subjugar o poder da comunicação a esta realidade perversa em que a última coisa que conta é a qualidade da mesma, não pode ser aceitável. Não se pretende ouvir um recital dos Lusíadas a cada aparição. Não se pretende uma declamação de poesia em cada vídeo. Não queremos voltar ao “pharmácia”.
Sou pela adequação e pela segmentação da linguagem. Mas também defendo que há mínimos dos quais não devemos prescindir. Temos pessoas e canais com alcances gigantes e isso tem, impreterivelmente, de ser sinónimo de responsabilidade.
Vamos concordar que literalmente significa isso mesmo: algo literal, levado à letra, e não pode, por isso, ser utilizado indiscriminadamente.
Vamos estabelecer que “p’aí” não é “para aí” nem, no limite, um “p’raí”.
Vamos reforçar que os verbos existem e não podem ser retirados a bel-prazer de quem não os quer aplicar e que «posso telemóvel» tem um verbo mas falta-lhe outro.
Nos dias de hoje, e com especial incidência nas gerações mais novas, “não há tempo” para ver genéricos, partilham-se áudios que se ouvem em fast forward, misturam-se vários idiomas numa só frase, abreviam-se palavras que, numa boa parte das vezes, se reduzem a letras e cometem-se um outro sem número de “crimes comunicacionais” cujo preço a pagar vai ser bem mais caro num futuro próximo do que aquele que hoje já conseguimos imaginar com maior facilidade do que travar.
Temos, todos e cada um, um papel fundamental nesta evangelização, em especial, enquanto educadores.
Digo-vos eu: não há nada mais cativante do que o uso da palavra bem feito, assim como, inversamente, o seu mau uso se traduz num turn-off irrevogável.
E mais não digo!