Diário do Alentejo

Nuno Maulide: “Quero descomplicar a química”

16 de outubro 2023 - 09:00
Foto | D.R.Foto | D.R.

José Valente | Professor

 

Nuno Maulide é o químico português mais falado na atualidade. Ele diz que quer descomplicar a química. Quem presenciou a sua conferência na Biblioteca Municipal de Beja, em maio, garante que ficou a gostar de química pelos exemplos cativantes que são tratados e pela linguagem clara falada que nos leva a acreditar que a química é fácil de compreender. É um ótimo comunicador e irradia simpatia.

Terminou o ensino secundário com uma boa média de 18 valores, mas havia de brilhar ainda mais quando se tornou professor catedrático com apenas 33 anos de idade. Nuno Maulide está atualmente ligado à Universidade de Viena onde leciona e investiga. Hoje tem uma coleção de prémios acumulados. Em 2018 ganhou o prémio Cientista do Ano na Áustria e pouco depois foi eleito para a Academia de Ciências da Áustria. Em jovem pensou abraçar uma carreira de música, tendo iniciado um curso de piano na Escola Superior de Música de Lisboa. No entanto, percebeu que dedicar-se à música todos os dias seria aborrecido e acabou por envolver-se com o estudo da química, onde se representavam reações químicas por meio de uma simbologia que o fascinou. Descobriu que era isso que queria fazer ao longo da vida: dedicar-se à investigação em química e trabalhar com esses símbolos divertidos.

Quando chegou à biblioteca cumprimentou-me com um grande sorriso. Tirámos fotos para registar o encontro. Quando viu uma pequena exposição sobre ele e a sua investigação agradeceu. Nessa exposição estavam, além de pósteres, alguns modelos de moléculas de compostos químicos, pertencentes à minha coleção e que foram construídos pelos meus alunos do Liceu, do 10.º ao 12.º ano, na disciplina de química. Nesse momento ele perguntou-me: “Quer saber como se faz um químico feliz?” Eu respondi: “Sim, quero”. Então ele afirmou, apontando para os modelos: “É mostrando-me estas magníficas moléculas. São lindas! Parabéns aos seus alunos!”.

Na sua conferência, “Química descomplicada”, explicou o que é a química orgânica, onde se aplica e porque é tão importante nos dias de hoje.

Nuno Maulide falou da sua ideia de aproveitar a água de lavagem dos tremoços e extrair dela um composto que tem um valor económico comparável ao ouro: a esparteína. A esparteína é usada na indústria farmacêutica como catalisador e noutras aplicações industriais. A esparteína inspirou-o a dar o nome à empresa que criou, a Spartax, com o objetivo de obter esse composto e produzir outras substâncias químicas.

Ele disse-nos que tem investigado a molécula de quinino que é utilizada no combate à malária e alterações a essa molécula, com a possibilidade de criar um medicamento mais eficaz e que possa ser certificado pelas agências do medicamento.

A química também tem muito de belo para ele, e para provar isso mostrou uma imagem de uma aurora boreal com a sua luminosidade fascinante, e plena de cor, no céu dos países nórdicos, a contrastar com o escuro da noite. A aurora boreal produz-se devido às partículas com carga elétrica do vento solar, que fluem para as zonas polares da atmosfera, influenciadas pelo campo magnético terrestre. As auroras boreais podem produzir cores desde verde, vermelho, violeta, azul ou outras.

Como curiosidade o químico perguntou ao público: “Pensam que os camarões são cor de laranja no seu habitat do fundo do mar e enquanto vivos?”.

Em seguida deu a resposta surpreendente: “A cor laranja dos camarões só se manifesta depois de cozidos. Os pigmentos carotenoides que os constituem estão ligados a proteínas que impedem a cor laranja de se manifestar e o calor altera essas proteínas que depois os libertam”. Mais uma coisa interessante que se ficou a saber.

Nuno Maulide informou-nos que o número de variedades de moléculas com propriedades farmacologicamente ativas é um seguido de 60 zeros, um valor realmente astronómico! Isto permite-nos uma quantidade quase infinita de possibilidades.

Todos os dias os químicos orgânicos criam novos tipos de moléculas que nunca existiram antes na natureza nem nos laboratórios.

E foi por isso que nas perguntas tentaram assustar o Nuno Maulide, questionando se não poderia surgir uma molécula “Frankenstein”. Mas ele não ficou com medo e respondeu que existe uma grande segurança, não sendo absoluta.

Nuno Maulide também tem preocupação com as alterações climáticas. E gostaria de dar possíveis pequenos contributos com a sua investigação química para a solução do problema. Segundo ele, a química também deve ser desmitificada e desmontar algumas fake news (falsificações), como a informação de que todos os produtos químicos de código E são perigosos. Ora um desses “Es”, o E-300, é, no final de contas, a vitamina C. Foram mostradas imagens do seu laboratório com uma simples experiência, em que se corta um abacate ao meio e se coloca, sobre este, algumas gotas de sumo de limão, enquanto noutros colocam-se outras soluções ou mesmo nada. O abacate cortado sem adição de soluções sofre oxidação e estraga-se rapidamente, enquanto o abacate em que é colocado o sumo de limão se conserva. O sumo de limão contém vitamina C e ácido cítrico que são antioxidantes.

O público da Biblioteca Municipal de Beja ficou encantado com a palestra do Nuno Maulide.

Escreveu também dois livros de divulgação sobre química que são sucessos: Como se transforma ar em pão? e Como desvendar o quebra-cabeças da origem da vida. Eu já li o primeiro livro e confesso que adorei. E quanto à sua conferência, tenho a certeza de que vai ficar nas nossas cabeças cheias de química aprendida, de forma descomplicada e divertida.

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