Diário do Alentejo

Tintos alentejanos de topo: entre o clássico e o moderno

08 de fevereiro 2021 - 14:45

O Alentejo é a região líder no mercado nacional na categoria de vinhos engarrafados de qualidade com Denominação de Origem (DOC Alentejo) ou Indicação Geográfica (Regional Alentejano), tendo uma quota de mercado de cerca de 40 por cento. Nos vinhos de topo a concorrência é maior, mas mesmo assim, é no Alentejo que se produzem alguns dos vinhos ícones portugueses.

 

Texto Manuel Baiôa

 

Nos últimos 30 anos, a área de vinha no Alentejo passou de cerca de 13 mil hectares para quase 23 mil hectares e de cerca de 40 produtores/engarrafadores passou-se para quase 360, tendo a produção de vinho crescido de cerca de 40 milhões de litros para mais de 100 milhões de litros. Esta situação foi uma consequência do crescimento da procura do vinho alentejano, o que provocou uma autêntica revolução na região.

 

O êxito continuado dos vinhos alentejanos, desde o final da década de 80 do século passado, levou a que inúmeros agricultores e investidores, alguns externos e outros da própria região, quisessem investir num negócio que estava a ser de grande êxito. Nesses anos, um quilo de uva chegou a valer mais de um euro.

 

Nesta história de crescimento para o estrelato merecem destaque, para além dos produtores e das cooperativas alentejanas, a Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo (Ateva), criada em 1983, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), criada em 1989, e as instituições de ensino superior do Alentejo. Deve-se ainda sublinhar que em 1988 foram regulamentadas as primeiras denominações de origem alentejanas.

 

Estas instituições revelaram-se mais dinâmicas, modernas e profissionais que as suas congéneres de outras regiões do país, apostando claramente na inovação, na tecnologia e na ciência, tornando possível que o vinho alentejano fosse um caso de sucesso. A partir do final dos anos 80, a maioria dos produtores de vinho comprou cubas de inox com sistemas de frio, entre outros equipamentos modernos, e contratou técnicos especializados que tinham saído há pouco tempo das universidades e politécnicos, tornando-se alguns deles enólogos famosos, passados alguns anos.

 

O vinho alentejano tornou-se uma marca de qualidade porque foi a primeira região a eliminar os vinhos com defeito e passou a proporcionar ao consumidor vinhos jovens, frutados, com aromas e sabores que nunca tinham experimentado. Os amantes do vinho passaram a ter plena confiança no vinho alentejano, pois sabiam que não iam ficar dececionados. Os produtores de vinho alentejano conseguiram colocar no mercado um vinho moderno, pronto a beber, cheio de fruta, quente e alcoólico, qualidades muito apreciadas nesses anos. A região passou a ser conhecida como o “novo mundo” de Portugal, devido às semelhanças às novas regiões vinícolas da América, África e Oceânia, no que respeita à abertura a novas castas e a processos enológicos inovadores.

 

Durante estas três décadas, os produtores alentejanos souberam adaptar-se aos novos tempos e aos novos gostos dos enófilos e, por isso, experimentaram diversos caminhos para o sucesso, mas sem perder a identidade desta vasta região. Neste momento, os vinhos alcoólicos, potentes e demasiado frutados começaram a perder seguidores e o Alentejo já começou a adaptar-se a esta nova tendência que procura vinhos genuínos, elegantes e sóbrios, com frescura e mineralidade.

 

VINHOS DE TOPO CONSTRUÍDOS NA VINHA E NA ADEGA

 

O Alentejo é recordista nas vendas, no mercado nacional, nas gamas de entrada e média. Todavia, na gama alta tem a concorrência muito forte do Douro e do Dão, e de outras regiões históricas nacionais. Neste mercado de nicho, que ajuda a construir a marca e valoriza os outros segmentos, o Alentejo tem assim fortes competidores. Procuramos saber qual é o caminho que se deve seguir para elaborar um vinho tinto de topo do Alentejo que exalte os sentidos. Um vinho criado para dar prazer e estimular emoções, cimentando boas memórias. Aqui, como em muitas áreas, não há um caminho uniforme para o êxito, embora se encontrem alguns padrões que se devem seguir metodicamente para construir uma marca de sucesso. Criar vinhos da gama alta exige muito trabalho e atenção. A diferença está nas nuances e pormenores, que são infinitos. É a soma de pequenos detalhes que contribui para produzir grandes vinhos.

O SOLO DO ALENTEJO

 

Quando um produtor tem uma vinha que chegou à idade adulta deverá escolher em cada ano qual a parcela que irá contribuir para elaborar o seu melhor vinho. Aqui há essencialmente duas abordagens. A primeira, fruto de um grande conhecimento do solo, do microclima e do comportamento da casta, opta por ir buscar as uvas sempre à mesma parcela. Esta opção resulta de um saber aprofundado do histórico desse talhão, que tem dado provas sucessivas de grande qualidade. É o caso do vinho Incógnito, proveniente de uma parcela de Syrah, que nasce numa colina com um afloramento calcário.

 

Dentro da mesma linha, o vinho Esporão Private Selection tem sido elaborado, nos últimos anos, a partir de três parcelas: Vinha do Canto de Zé Cruz (Aragonez); Vinha do Telheiro (Syrah) e Vinha das Palmeiras (Alicante Bouschet).

 

A segunda abordagem passa por acompanhar as vinhas observando as diferenças que existem em cada ano agrícola, para assim identificar as parcelas e as castas que estão a ter um melhor comportamento nesse ano. Portanto, aqui o lote pode mudar consoante os anos, como é o caso do vinho Inevitável, o topo de gama da Casa Santa Vitória, elaborado com as melhores castas das melhores parcelas de cada ano. Outra solução habitual é fazer mais ou menos garrafas em função da qualidade desse ano, tentando manter sempre um padrão de alta qualidade.

 

O solo onde as videiras se desenvolvem tem um papel essencial na quantidade e qualidade da produção de uvas e no vinho que vai nascer. Embora não seja o fator determinante para a qualidade do vinho, é um dos fatores principais a ter em conta. Neste aspeto, as vinhas do Alentejo estão plantadas num mosaico de solos, com destaque para os derivados do granito, do xisto e do calcário, e apresentam diversas texturas: argilosa, franca, arenosa e com algumas áreas de calhau rolado. A textura do solo é determinante para dar à planta a água e os nutrientes necessários ao seu perfeito desenvolvimento.

 

No passado, os agricultores alentejanos instalavam as suas vinhas em solos de baixa fertilidade, mas com espessura e permeabilidade que permitisse a recarga hídrica durante a estação das chuvas e posterior fornecimento de água e nutrientes na época seca, pois as vinhas não eram regadas. Não colocavam as vinhas nos lugares mais produtivos, pois esses terrenos estavam destinados a outras culturas. Estava enraizada a ideia de que a “a vinha, para produzir bom vinho tinha de sofrer”.

 

VINHAS VELHAS E VINHAS NOVAS NO ALENTEJO

 

Neste momento já são poucas as vinhas velhas não regadas no Alentejo. Mesmo os produtores que possuem este tipo de vinhas situadas em 'terroirs' de excelência nem sempre conseguem produzir vinhos de topo. Hugo Carvalho, enólogo da Quinta da Terrugem, salienta que as vinhas desta propriedade têm cerca de 30 anos e estão situadas na zona sub-região demarcada de Borba, “com predominância de solos argilo-calcários. Devido à ausência de irrigação, as plantas desenvolveram o seu sistema radicular de maneira a ir buscar ao solo a água e os nutrientes que necessitam para produzir uvas”. No entanto, este 'terroir' de eleição não permite produzir todos os anos o vinho T - Quinta da Terrugem. É necessário acrescentar “mais uma combinação perfeita de dois fatores climáticos, a precipitação e a temperatura”. Nesses anos, “a vinha desenvolve o seu ciclo vegetativo para produzir uvas de grande qualidade que originam vinhos elegantes, frescos e de grande complexidade aromática”.

O mesmo enólogo supervisiona a Quinta do Carmo, uma das propriedades vitivinícolas mais famosas do Alentejo. Embora fique perto da Quinta da Terrugem, tem características distintas. A vinha está distribuída em duas parcelas. A primeira tem cerca de 30 anos e está situada no “eixo dos mármores” de Estremoz. Os seus solos argilosos, ricos em nutrientes e minerais, assentam diretamente no mármore, originando “vinhos de grande intensidade e concentração”. A segunda parcela tem vinhas com 20 a 25 anos e situam-se mais a Sul, num vale junto ao sopé da Serra D’Ossa, em solos xistosos. Este 'terroir' permite às uvas "maturações muito lentas devido à diferença de temperaturas entre o dia e a noite, originando assim vinhos muito elegantes, frescos e com taninos de grande qualidade”.

 

Já o vinho Quinta do Paral Vinhas Velhas 2018 provém de uma parcela de castas autóctones da Vidigueira (Aragonez e Tinta Grossa) com mais de 50 anos. O 'terroir' onde estas castas estão plantadas proporciona, na opinião do enólogo Luís Morgado Leão, uma “expressão única e diferenciadora”. Ainda que o Alentejo não tenha muitas vinhas velhas, deve melhorar a comunicação sobre os vinhos que saem dessas preciosas cepas, pois são vinhos distintos e singulares.

 

Nos últimos anos houve um crescimento na diversidade de castas plantadas no Alentejo. Mas esta tendência já vem de há muitos anos, pois a região sempre foi muito aberta à introdução de novas castas, ao ponto de uma delas ter sido adotada e considerada como sua (Alicante Bouschet). O tema das castas será desenvolvido num próximo artigo, pois é um tema complexo e polémico, e necessita de uma reflexão aprofundada.

 

As novas vinhas do Alentejo foram instaladas com rega gota a gota, tentando combater o 'stresse' hídrico e contribuir para uma produção mais homogénea. No entanto, na produção de vinhos de qualidade a água deve ser usada com muita parcimónia, pois há o perigo de a videira ficar preguiçosa, isto é, de criar apenas uma raiz superficial. Tendo alimento e água em abundância à superfície, não necessita de "sofrer" para descer à rocha-mãe.

 

A maioria dos vinhos de topo do Alentejo já provêm de vinhas regadas, mas a rega é usada em situações pontuais para maximizar a qualidade. É o caso do vinho Esporão Private Selection 2014 que resulta do conhecimento profundo que os enólogos David Baverstock e Sanda Alves têm das vinhas da Herdade do Esporão. O vinho é um 'blend' de três parcelas distintas, com características diferenciadoras, mas que juntas, em lote, dão harmonia ao conjunto. O Aragonez tem origem numa vinha plantada em 1980, onde o solo é franco-arenoso. O Syrah é proveniente de uma vinha plantada em 1998 em solo xistoso, pedregoso e esquelético. Já o Alicante Bouschet tem origem numa vinha plantada em 1996, onde os solos são argilosos e profundos.

 

O CLIMA E A MORFOLOFIA DO ALENTEJO

 

O clima do Alentejo é essencialmente mediterrânico, mas com algumas zonas de influência continental e atlântica. É tendencialmente seco, com invernos frios e verões extremamente quentes. Ainda assim, existem diferenças regionais vincadas no clima, dos concelhos alentejanos que vão desde Nisa, no interior Norte, a Mértola, no interior Sul, e a Odemira, no litoral Sul. A paisagem também tem alguma diversidade, muda da planície para a serra, das colinas para os vales, embora a paisagem predominante seja a planície ondulada. O clima e a morfologia do Alentejo são propícios à cultura da vinha, mas em cada zona o viticultor deverá escolher as parcelas que realcem as potencialidades de cada zona. Em Mértola poderá optar por instalar a vinha numa encosta umbria, portanto virada a norte, para proteger as videiras do tórrido sol e em Vila Nova de Milfontes numa encosta soalheira para a proteger do excesso de humidade. Cabe ao produtor mostrar os diferentes matizes do seu 'terroir'.

 

A ideia enraizada de um Alentejo uniforme e com características estereotipadas tem de ser combatida. Por exemplo, a Herdade do Freixo localizada no sopé da Serra d'Ossa tem um 'terroir' único que se revela nos seus vinhos e que se afasta de algumas ideias feitas sobre o Alentejo. As vinhas estão localizadas a mais de 450 metros de altitude em solos de origem granítica. O enólogo Diogo Lopes defende que este “ambiente influencia o perfil dos seus vinhos”, pois distinguem-se pela “elegância e longevidade”.

O RENDIMENTO DA VINHA E O MODO DE PRODUÇÃO BIOLÓGICO

 

Um aspeto determinante na elaboração de um vinho ícone é o rendimento da vinha. Neste tipo de vinhos não se pode ultrapassar normalmente as cinco/seis toneladas por hectare. Nas vinhas velhas essa produção surge espontaneamente, mas nas vinhas jovens ou adultas, o produtor tem de fazer uma monda de cachos, para assim melhorar a qualidade das uvas que ficam na videira, tornando-as mais homogéneas.

 

Esta opção é essencial em algumas castas, como o Alicante Bouschet, que quando é deixada à revelia produz muito, mas essas uvas não podem ser encaminhadas para vinhos 'premium'. O enólogo Paulo Laureano revela que para elaborar o vinho Herdade do Moinho Branco Alicante Bouschet 2015 teve de realizar “uma monda severa para que a produção não excedesse as 4,5 toneladas”.

 

A maioria dos produtores alentejanos está inserida no sistema de produção integrada. Contudo, alguns começaram a dar passos para o modo de produção biológico. Estes produtores acreditam que alterando as práticas da agricultura convencional irão desenvolver um solo com vida, capaz de alimentar corretamente a videira, e transmitir-lhe a sua essência. Não utilizam agroquímicos, fazem poucas mobilizações do solo e favorecem a existência de um coberto vegetal na vinha, estimulando a biodiversidade, entre outras medidas agroambientais que implementaram.

 

Pretende-se criar um ecossistema resiliente, em que as plantas e o solo encontrem o seu equilíbrio. Contudo, esta mudança pode ser problemática nos primeiros anos, provocando uma baixa na produção. Mas os produtores acreditam que é compensada pela qualidade e pureza do vinho que passam a apresentar. É o caso do vinho Frederick Von S. Conde de Mértola 2017, elaborado a partir de uma vinha situada em Mértola, sob os princípios da agricultura biológica e vegan. O Esporão já terminou o processo de conversão para o modo de produção biológico e as Cortes de Cima estão a iniciar esse processo. Este pode ser um dos caminhos da viticultura alentejana para se tornar mais sustentável, adaptada às mudanças climáticas e atenta às tendências mundiais.

 

A VINDIMA

 

As parcelas são monitorizadas com rigor científico e sensibilidade para identificar o dia ideal da vindima. Nesse momento, as uvas deverão estar num estado ótimo de maturação. Com o clima do Alentejo, atrasar-se um ou dois dias na vindima pode ser trágico, pois as uvas podem ficar em sobre maturação e com pouca acidez. Neste tipo de vinho as uvas são apanhadas à mão, para assim escolher e preservar as melhores, excluindo as uvas verdes e em passa. Alguns produtores fazem várias passagens na mesma parcela para apanhar só os cachos que estão em perfeitas condições. Esta opção de colher um pouco de cada vez aumenta a logística e os custos, mas melhora o produto final.

 

A ADEGA

 

As vinificações deste tipo de vinhos são geralmente pequenas e com um tratamento de luxo. Usa-se muitas vezes a pisa a pé ou mecânica em lagares de mármore ou inox, cubas rotativas fechadas para preservar melhor os aromas, cubas de betão, ovos de cimento e outras panóplias de equipamentos para maximizar a qualidade do produto final.

 

A maioria dos produtores procura acrescentar complexidade e profundidade aos seus melhores vinhos colocando-os a estagiar de oito a 24 meses em barricas de carvalho francês das melhores tanoarias. O produtor Morais Rocha Wines colocou o seu topo de gama (Morais Rocha Grande Reserva 2013) num duplo estágio de barricas novas, isto é, esteve um ano em barricas novas e os restantes meses noutras barricas novas. Contudo, neste aspeto tem sido notória a tendência para se usar uma percentagem maior de barricas de segundo e terceiro ano e com tostas mais suaves. Diminuiu-se o uso das barricas novas para que a madeira não marque demasiado o vinho. Entende-se que assim o mesmo expressa melhor a casta e o 'terroir'.

 

Outra mudança no mesmo sentido é a passagem da capacidade das barricas de 225 para 300 litros e para 500 litros, ou mesmo o estágio em balseiros ou grandes toneis, induzindo assim uma evolução mais lenta, para criar um vinho de guarda. O estágio em garrafa deste tipo de vinhos pode durar de um a seis anos. Só ai é que vai para o mercado. Um vinho de topo deverá também ser um vinho de guarda, que passe o teste da passagem do tempo, melhorando em garrafa e permanecendo distinto e com caráter durante algumas décadas.

Comentários