Diário do Alentejo

Antão Vaz, a casta que gosta de olhar para a Serra do Mendro

13 de novembro 2020 - 01:00

A casta Antão Vaz tem um passado misterioso e afirmou-se nas últimas décadas como a uva branca alentejana de maior notoriedade.

 

Texto: Manuel Baiôa

 

José Miguel Almeida, presidente da Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito, atribui essa fama à sua “regularidade e frescura”. Desta forma, é uma casta amada pelos viticultores, pois, para além disso, tem uma produção generosa, está bem adaptada ao clima quente da peneplanície vidigueirense, apresenta excelente resistência à seca e à maioria das doenças e amadurece de forma homogénea. Esta casta autóctone da região da Vidigueira é certamente uma das melhores, senão a melhor casta branca do Alentejo. Pode produzir vinhos de aromas citrinos e minerais, controlando a produção e o teor alcoólico, ou ainda, aromas a lembrar frutos tropicais, manga, maracujá e casca de tangerina. Com produções controladas mostra um bom equilíbrio de acidez, mas se a vindima for generosa pode faltar-lhe alguma frescura e persistência.

Os ‘terroirs’ da Antão Vaz

Parece consensual que é na sub-região de Vidigueira que a Antão Vaz mostra todo o seu potencial. Contudo, podemos falar de algumas microrregiões onde a casta mostra diferentes facetas.

 

Filipe Teixeira Pinto, enólogo da Herdade do Sobroso, distingue três áreas. “Uma zona central, e talvez a mais representativa e com maior número de produtores, que vai desde Pedrógão até aos limites de Vila de Frades”. Esta área “caracteriza-se por terrenos argilosos, com maior riqueza de matéria orgânica, em particular na sua vertente central e ocidental” e pela sua “uniformidade climática”. Uma zona oriental, próxima do rio Guadiana, “onde se inclui a Herdade do Sobroso, que se caracteriza fundamentalmente por terrenos pobres de argila, xisto e calhau rolado. O clima aqui também é condicionado pela proximidade da Serra do Mendro, que aporta um fluxo constante de vento e elevadas amplitudes térmicas”. Uma terceira zona, a mais ocidental, “que inclui Vila Alva e Vila Ruiva, cujo clima é mais influenciado pela frescura dos ventos marítimos, que nesta zona do território penetram até à Vidigueira, sem obstáculos naturais que os façam dissipar”.

 

Para Francisco Mata, consultor de viticultura, a casta Antão Vaz atinge a sua máxima expressão em alguns ‘terroirs’ de Vidigueira: “dos solos pardos mediterrâneos de Vidigueira, passando pelos de origem granítica profundos de Vila de Frades, até aos solos vermelhos de xisto, em Vila Alva. É nestes terrenos ondulados com boas exposições solares, da vertente da escarpa da falha de Vidigueira, até à zona plana mais a sul, que a casta atinge a plenitude das suas performances”.

 

Contudo, noutras regiões do Alentejo, a Antão Vaz também origina vinhos de enorme qualidade. Carlos Rodrigues, enólogo da Adega Mayor, refere que as suas vinhas estão plantadas em Campo Maior, no nordeste da sub-região do Alto Alentejo, em solos franco-argilosos de origem granítica, na periferia da Serra de São Mamede, a cerca de 300 metros de altura”. Por isso, são “influenciadas pelo clima de “montanha”, mais fresco e húmido, o que origina um branco de traça alentejana fresco, refinado e com fundo mineral”.

 

O “calcanhar de Aquiles”

Para alguns especialistas, o ponto débil da Antão Vaz é a sua tendência para perder acidez rapidamente na vinha, podendo originar vinhos com pouca frescura e longevidade. Esta situação é mais evidente nas vinhas novas, com menor diversidade clonal, em vinhas de grande produção e fora da sub-região de Vidigueira.

 

Para minorar este problema, Luís Cabral de Almeida, enólogo da Herdade do Peso, defende a importância da escolha criteriosa da “data da vindima” para preservar a acidez. Rodrigo Martins, enólogo na Herdade das Fontes Bárbaras, concorda que a “casta Antão Vaz, vindimada com mais de 12,5% de álcool, realmente perde muita acidez, podendo originar vinhos menos vibrantes e com menos longevidade”. Por isso, “o segredo para minorar esse problema, é realmente vindimar a casta de forma mais precoce”.

Fábio Fernandes, enólogo da Herdade do Menir, acentua a necessidade de o Antão Vaz ser “vindimado na altura correta” para manter a frescura. Tiago Macena, enólogo da Adega Marel, revela que têm um ”controlo da maturação exaustivo” pois, na Amareleja, devido ao calor, “um dia a mais ou a menos faz uma grande diferença” na evolução da maturação das uvas e na qualidade potencial dos futuros mostos. Outra técnica utilizada é a realização de mais de um período de vindima para esta casta, “obtendo mostos com diferentes características”. Alexandre Relvas, enólogo da Casa Relvas, diz que a Antão Vaz “com uma data acertada de vindima demonstra grande elegância e um baixo teor alcoólico”, já com 13,5% ou 14% de álcool, “vai ser meloso e pesado”.

 

Sandra Alves, diretora de enologia do Esporão, confirma que a Antão Vaz é uma “casta com acidez relativamente baixa”. Mas, seguindo boas práticas agrícolas produz vinhos de “personalidade vincada e boa longevidade”.  Por isso, “as produções não deverão ser excessivas, idealmente deverão situar-se entre oito a 10  toneladas por hectare; os solos profundos ajudam a manter alguma acidez durante o período de maturação e o ciclo longo e a capacidade de resistir ao stress térmico permitem planear a colheita, onde o álcool provável é determinante e deverá situar-se entre 12,5% e 13,5% -  valor importante  para potenciar os aromas e o perfil clássicos desta variedade”.

 

Nuno Elias, enólogo da Casa Agrícola Herdade do Monte da Ribeira, reconhece que a “casta Antão Vaz, tecnicamente tem algumas limitações, sendo a mais conhecia a falta de acidez fixa natural.  Esta é de facto uma limitação séria porque a acidez fixa está ligada diretamente à sensação de frescura na prova quer indiretamente à conservação e longevidade do vinho. Ao alcance do enólogo estão várias formas de contornar o problema”, mas na sua opinião, nenhuma delas cumpre “tão bem a função como o lote com uma casta complementar”. Por isso, o seu vinho Pousio associa a Antão Vaz ao Alvarinho, permitindo criar um vinho em que cada casta contribui para o conjunto.

 

Já Jorge Tavares da Costa, diretor-geral da Casa Agrícola Santos Jorge (Herdade dos Machados), reconhece que poderá “ser interessante aumentar-lhe a sua frescura ácida”, consociando-a com um “ligeiro toque de Arinto”.

 

VINHOS ÚNICOS E PERSONALIZADOS

A maioria dos enólogos que trabalha na sub-região de Vidigueira tem uma perspetiva ligeiramente diferente. Paulo Laureano, enólogo da Paulo Laureano Vinus e da Ribafreixo Wines, reconhece que a casta poderá ter alguma falta de frescura noutros ‘terroirs’ alentejanos, mas diz que essa observação “não tem qualquer fundamento para o Antão Vaz produzido no seu ‘terroir’ de excelência”, a Vidigueira, onde “os solos de xisto negro, com pontuações verdes e azuis, muito duro, confere uma mineralidade diferenciadora e determinante. Um clima quente mas, com amplitudes térmicas marcantes, pequenas encostas, uma microflora distinta, tudo em conjunto contribui para um ‘terroir’ de excelência que permite vinhos únicos e personalizados”.

 

Vinhos com “aromas de manga madura, casca de tangerina, mineralidade, finos e profundo. Na boca são macios, estruturados mas, balanceados por uma enorme frescura típica do Antão Vaz da Vidigueira. Terminam com um “longo final e uma grande capacidade de evolução”.

 

Dentro da mesma linha de pensamento, Luís Morgado Leão, enólogo da Quinta do Paral, defende que “quando falamos da casta Antão Vaz, deveremos fazer duas distinções. Uma é o Antão Vaz da Vidigueira e outra é o Antão Vaz do Alentejo. A sub-região Vidigueira é o solar da casta, é onde ela nasceu e é onde ela encontra as condições ideias para dar origem a vinhos únicos e diferentes”. Quando a “Antão Vaz, está no seu ‘terroir’ perfeito, quando a colhemos na altura correta, quando temos um conhecimento profundo do comportamento da casta e quando não queremos alterar o seu perfil natural, dá origem a vinhos muito equilibrados, com uma acidez crocante, bem presente e uma componente aromática única”.

 

Pedro Ribeiro, enólogo da Herdade do Rocim, defende que a “data de vindima tem um papel crucial para se colher uva com boa acidez natural. Para isso temos muitas vezes de vinificar com níveis de álcool provável mais baixos do que tem sido o habitual na maioria dos produtores da região. O que se perde em volume de boca ganha-se em estrutura e nervo”. Segundo Pedro Ribeiro, “os mercados mais sofisticados já apontam há muito nesta direção. Acredito que se conseguem fazer vinhos de classe mundial com o Antão Vaz sobretudo se este for proveniente da Vidigueira e for produzido num estilo ‘velho mundo’, privilegiando a frescura e mineralidade, em vez da exuberância aromática e untuosidade”.

 

Ricardo Xarepe Silva, enólogo da Enolea, sustenta que as vinhas plantadas na Herdade da Lisboa beneficiam das “noites frescas da sub-região de Vidigueira, (influência da Serra do Mendro), que lhe conferem mais frescura, equilíbrio e mineralidade, especialmente quando plantada em solos xistosos”.

 

António Cavalheiro, enólogo da Herdade Aldeia de Cima, afirma que a casta Antão Vaz “assume todo o seu esplendor na região de Vidigueira. Tendo em conta a amplitude térmica diária aqui verificada, com dias de sol muito quentes mas ao mesmo tempo noites bastante frescas, a influência protetora da Serra do Mendro, permite que a casta recupere da evapotranspiração. Por outro lado, os solos de transição entre xisto e argila potenciam o armazenamento suficiente de humidade e nutrientes”. Por isso, cabe ao enólogo, “respeitar a origem com a sofisticação necessária e a mínima intervenção possível” para criar grandes vinhos desta casta.

Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Estilos diversificados

Na prova realizada de vinhos maioritariamente elaborados com a casta Antão Vaz verificou-se que existem vários estilos e que se posicionam em segmentos de preços muito diferentes.

 

No segmento de preço até dez euros encontramos três estilos diferenciados. Por um lado, aqueles vinhos que apostam no aroma a frutos tropicais, com algum corpo, mineralidade e frescura, casos do Vidigueira Antão Vaz 2019, Herdade dos Machados 2018, Castelo de Borba Antão Vaz 2019, Pato Frio Antão Vaz 2019, Adega Mayor Antão Vaz 2018, Esporão Colheita 2017 e Quinta do Paral 2018. No segundo estilo a componente citrina é mais evidente e houve um esforço em apresentar um vinho com muita frescura e álcool moderado, sendo o vinho Herdade de São Miguel Colheita Selecionada 2019 o arquétipo deste género. A terceira linha aposta no estágio em barricas de carvalho e/ou ‘batonnage’, e por vezes, num grau alcoólico um pouco mais elevado. São vinhos mais untuosos, com mais corpo e nalguns casos destinados preferencialmente a ser bebidos nas estações mais frias, casos dos vinhos Entradas Colheita Selecionada 2016, Ouzado Reserva 2016, Marel 2018, Herdade do Sobroso, Reserva 2019, Régia Colheita 2018 e Família Margaça Reserva 2018.

 

No segmento de vinhos acima dos dez euros temos essencialmente dois estilos de vinhos. O primeiro grupo foca-se na intensidade, frescura, tensão e mineralidade que a casta pode proporcional, mostrando aromas cítricos, de pederneira, com um fundo de frutos tropicais. São exemplos desta linha os vinhos Paço dos Infantes Antão Vaz 2019, Pousio Antão Vaz & Alvarinho 2019 e Antão Vaz da Peceguina 2019. O segundo estilo de vinhos aposta nas vinhas velhas e no estágio em barricas de carvalho. Os vinhos Paulo Laureano Vinhas Velhas Private Selection 2018 e Quinta do Quetzal Reserva 2016 têm as notas untuosas da madeira mais presentes. Já o Olho de Mocho Reserva 2018 e Alyantiju 2018 têm o foco na mineralidade e frescura. São vinhos de guarda e que mostram todo o potencial da casta.

 

Portanto, temos vinhos para todos os gostos e carteiras. Saliente-se o facto de o vinho Alyantiju ter alavancado o preço de um vinho da casta Antão Vaz para um nível até agora nunca visto, o que pode levar outros vizinhos a seguir o seu exemplo, criando mais vinhos no segmento “super premium”.

 

O futuro da casta

A casta Antão Vaz cresceu e ganhou notoriedade nas últimas décadas, mas ainda há um caminho a percorrer para convencer os mercados mais exigentes sobre a qualidade inequívoca desta casta alentejana. Filipe Teixeira Pinto, enólogo da Herdade do Sobroso, defende que se devem “adotar práticas culturais para otimizar o desenvolvimento da videira e a sua correta maturação. Especialmente no Baixo Alentejo e Alentejo Central, a orientação este-oeste beneficia o ensombramento natural dos cachos evitando a oxidação prematura dos bagos. Também não se devem efetuar despampas, ou então serem muito ligeiras, o suficiente para os tratores passarem nas ruas da vinha e efetuarem com sucesso os tratamentos e granjeios necessários.  Na adega, o mosto deve ser tratado em ambiente redutor, ausência de oxigénio, para preservar a fração aromática e a cor do mosto e evitar oxidações que podem comprometer o vinho. Por outro lado, a “fermentação a baixas temperaturas são essenciais”.

 

A maioria dos profissionais do setor defende a necessidade de promover a casta no mercado nacional e internacional. Rui Veladas e Tiago Garcia, enólogos da Carmim, avançam com a ideia de lançar um “evento/feira do Antão Vaz com ações de formação, incluindo harmonizações, focadas em mostrar o elevado potencial gastronómico e versatilidade da casta. Este tipo de evento pode e deve ser resultado da colaboração entre os produtores e a CVRA, a qual poderia também incluir uma - rota do Antão Vaz”.

 

Óscar Gato, enólogo da Adega de Borba, disse que “precisamos de conhecer melhor a casta, necessitamos de conhecimento proveniente de ‘trabalhos técnicos e experimentais’ de índole científico para que possamos ter vinhas melhor adaptadas aos diferentes ‘terroirs’ alentejanos. Como exemplo: ter disponível no mercado plantas de diferentes clones da variedade, nomeadamente opção de clones com maior índice de acidez, claro que é necessário estudar a casta. Precisamos de um vinho branco alentejano da casta que tenha volume, untuosidade, harmonia e estrutura, mas que também tenha equilíbrio e frescura”.

 

Nas décadas de oitenta e noventa do século passado a Antão Vaz foi alvo de trabalho de seleção clonal que apostou numa maior produção. Esta situação pode ser um risco, pois nas plantações mais recentes, a Antão Vaz pode originar vinhos unidirecionais, com pouca adaptabilidade ao ano agrícola, o que origina diferenças substanciais face às vinhas velhas desta casta, adaptadas à variabilidade.

 

Atualmente estão em curso novos trabalhos de seleção clonal por parte da Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira - PORVID, que procura uma maior diversidade clonal, pois dentro da mesma casta existem clones com diferenças enormes em produção por hectare, acidez total, potencial de álcool, polifenois, cor e pH. Neste momento a maioria dos viticultores não procuram apenas maior produção, mas maior equilíbrio, frescura e qualidade das uvas, e este deve ser o caminho para aumentar a notoriedade dos vinhos da casta Antão Vaz.

 

Mistérios e lendas sobre a origem da casta Antão Vaz

Os primórdios da casta Antão Vaz estão envoltos em mistérios. Uma das lendas sobre as origens do nome desta casta está associada ao avô de Luís Vaz de Camões. Antão Vaz de Camões terá nascido na segunda metade do século XV e casou com Dona Guiomar da Gama, aparentada com Vasco da Gama. Deste casamento nasceu Simão Vaz de Camões, pai do poeta de ”Os Lusíadas”. A tradição oral conta que Antão Vaz de Camões terá ficado a gerir as propriedades e as vinhas de Vasco da Gama associadas ao título nobiliárquico criado pelo Rei D. Manuel I em 1519 - Conde da Vidigueira. O nome da casta Antão Vaz estaria pois, associada ao avô de Luís Vaz de Camões, que também terá tido um papel importante ao contar ao seu neto as aventuras e façanhas de Vasco da Gama, que o poeta retratou na sua epopeia.

 

Uma história mais prosaica conta que Vasco da Gama se dirigiu a um marinheiro de Vidigueira que estava indeciso sobre o seu embarque na viagem até à Índia e lhe terá dado uma palmada nas costas dizendo-lhe “Antão, Vaz ou não Vaz!”.

 

Seja como for, as investigações realizadas colocam a origem desta casta na zona de Vidigueira, pois é onde existem maior número de vinhas velhas e onde a diversidade clonal é maior. O professor Colaço do Rosário não conseguiu encontrar na década de 80 do século XX vinhas velhas desta casta fora da sub-região de Vidigueira. Não se encontram muitas referências à Antão Vaz na literatura pré-filoxera. Mas já consta na “Colecção Ampelográfica de Évora” de 1890. Foi uma casta que viajou pouco até há duas ou três décadas e, por isso, não existem outras sinonímias para a Antão Vaz noutras regiões, como é comum em muitas castas portuguesas.

 

Segundo Francisco Mata, consultor de viticultura, “a Antão Vaz é a casta branca mais representativa dos encepamentos do Alentejo (cerca de 25%). Com o ganho de notoriedade acabou por sair das suas fronteiras naturais e hoje é também cultivada na Península de Setúbal e na Estremadura”.

 

A preponderância da casta Antão Vaz é recente, pois nas vinhas velhas de Vila Alva não tem maior importância que o Roupeiro, Manteúdo, Diagalves, Larião e Perrum. Era apenas uma das castas do lote que contribuía para o vinho branco antigo de Vidigueira. Entretanto, com a nova tecnologia moderna de fermentação e estágio de vinhos brancos, que a protegem da oxidação, ganhou protagonismo. Mostrou uma faceta nova de exuberância aromática e mineralidade.

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