Diário do Alentejo

Nilton David: "É no trail que pago os meus pecados"

09 de julho 2019 - 11:50

Texto e foto Firmino Paixão

 

“Oh, meu Deus!”, o Nilton David é já um “alentejano dos quatro costados’”. Um “alentejano” que foi nascer na freguesia de Altura (Castro Marim), há 45 anos, mas, num primeiro momento, por questões profissionais, subiu a planície transtagana e fixou-se em Beja. Corria o ano de 1993. Num segundo momento foi “traído” pelo coração, conheceu a noiva, casou e já tem um filho bejense. Já lhe ouvimos dizer: “Nós, os alentejanos…”. “Já me sinto um alentejano”, confessa, sem preconceitos.


Adepto da atividade física, faz natação e BTT, mas diz que o atletismo é a sua grande paixão. Por convite de um primo, fez a sua primeira meia-maratona em 2006. “O trail veio depois, foi uma descoberta”, revela. “O Carlos Rocha, um amigo, também atleta, disse-me que existia uma prova de 70 quilómetros, na serra da Freita. Estávamos em 2010, já corríamos os dois, dávamos as nossas voltinhas, mas nada de muito extenso. Quando lá fui não cheguei aos 70 quilómetros, fiquei pelos 50. Foi muito duro, mas muito bonito. A partir daí fui sempre melhorando, para tentar fazer provas maiores e ver um pouco da paisagem no interior do País”.


Não tardou a aceitar maiores desafios, provas mais longas: “Sempre tentando superar-me, porque, nessas distâncias, corremos contra nós próprios. As corridas são feitas de pequenos detalhes, temos de ir afinando as coisas que nos incomodam, que nos fazem parar, afinando o corpo, para que possamos aguentar, chegando ao fim bem-dispostos, não sofrendo, nem ficando com vontade de nunca mais vermos as sapatilhas à frente”.


O que fará correr Nilton David? Uma constante avaliação da condição física, uma tentativa de superação ou competir consigo, para melhorar os registos? “Na primeira prova de 160 quilómetros que fiz tive uma recuperação horrível. Não me custou a prova, custou-me a recuperação, e, desde aí, tenho vindo a afinar o corpo para aquilo que é mais duro, nomeadamente, o frio, porque numa corrida de montanha deparamo-nos com várias dificuldades que nos limitam em termos de performance. E até na distância em si, não podemos pensar que estamos a correr aqueles quilómetros, temos de correr por etapas, até àquela árvore, até àquela fonte, chegar àquele rio, e por aí adiante. Mentalmente vamos várias vezes abaixo, mas tentamos recuperar rapidamente. É uma luta individual interessante, que exige muito de nós em termos psicológicos”.


O seu último desafio foi o Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela, uma prova em que só os atletas que cumpram os primeiros 160 quilómetros abaixo das 32 horas podem correr os restantes 40. “O grande desafio do ‘Oh, meu Deus!’ é saber que podemos chegar aos 160 e ficar por ali. Só uma enorme força mental nos permitirá fazer os outros 40 quilómetros, onde se levam, pelo menos, mais nove horas em prova. O meu tempo total nos 200 quilómetros foi de 41h59’, mas vamos parando nos abastecimentos. Sentimo-nos muito humildes, porque sem a ajuda daquelas pessoas a dar-nos apoio não conseguiríamos superar-nos”.

 

 

“Estou feliz. Tenho-me sentido recompensado por esta minha opção pelo trail, aliás, isto é a minha igreja, é aqui que eu pago os meus pecados e faço a comunhão com a natureza e com as pessoas que estão à minha volta e, realmente, sempre que volto de uma corrida sinto-me em paz comigo próprio e com os outros. Nas ‘orações’ que faço nessa igreja, peço simplesmente saúde e força para poder continuar a disfrutar destes enormes desafios, que são verdadeiras aventuras”.

 

Estreante nos 200 quilómetros, apesar de, por várias vezes, ter corrido distâncias acima dos 100, Nilton David ganhou o Troféu Viriato e, com natural orgulho, deixou a nota de que “só há sete atletas ‘Viriato’ em Portugal”. “Esta distância, o OMD200 (160 + 40 quilómetros) tem três anos e só sete atletas a conseguiram concluir, cinco deles na última edição. É uma honra, tem um significado de heroísmo, de bravura, de altruísmo, ou seja, estamos a tentar superar-nos sem pedirmos nada, mas agradecendo o apoio que nos dão. Foi um sentimento muito belo”.


Olhando já para próximas aventuras, o ultramaratonista elege o Ultra Trail da Serra da Freita como o seu favorito: “Foi o meu primeiro trail. Está no meu coração, mas talvez participe no ALUT – Algarviana Ultra Trail, que são 300 quilómetros entre Alcoutim e Vila do Bispo. Será em novembro, até lá ainda terei de andar muitos quilómetros e fazer mais treinos específicos”.


Além-fronteiras, o seu olhar detém-se numa ambição maior: “Já fiz a serra Nevada, gostava de correr na serra de Gredos, que faz parte da Cordilheira Central da Península Ibérica, juntamente com a serra da Estrela e, possivelmente, subir aos Pirenéus, mas aí, apenas, para apreciar paisagem, porque esses são outros voos”.


Nilton abre o coração e diz: “O que me move, em termos competitivos, é ficar sempre nos primeiros 10 lugares. Os meus melhores resultados têm sido nas provas longas e tenho conseguido ficar nesses lugares”.


Mas existirão segredos? “Temos de conhecer o nosso corpo. Cada atleta é um atleta distinto, tem um corpo diferente, não há segredos, cada um é mais forte num ponto, ou noutro, e só o próprio pode avaliar os seus pontos fracos e os seus pontos fortes. Depois, é fazer uma boa gestão. Por muito apoio que alguém tenha à sua volta, se não souber respeitar os pontos fortes e fracos do seu corpo, não irá longe”. Nilton foi! Para já, até ao ducentésimo quilómetro, no Parque Natural da Serra da Estrela. Um exemplo!

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