David Amorim, nascido há 39 anos, na cidade de São Luís do Maranhão, a “Jamaica Brasileira” chegou ao Alentejo há cerca de três anos. Esteve com o seu familiar, e amigo, Jaime Garcês na Academia Gracie Barra, que funcionou em parceria com o ginásio BLive, em Beja.
Texto e Foto | Firmino Paixão
Nessa época, Garcês (faixa preta) e Amorim (faixa roxa) trouxeram para Beja os primeiros títulos nacionais de jiu-jitsu brasileiro. Mas a doutrina da modalidade prevê que os mestres, ao atingirem determinado patamar de qualidade, se tornem “missionários” desta arte marcial, promovendo o seu crescimento. David Amorim foi um bom discípulo. Fundou a Academia Realizing Dreams, no entanto afirmou: “Continuamos a ser uma filial da Associação Cobrinha como éramos no início, só que, pelas questões burocráticas que em Portugal nos exigem, tivemos de fundar uma associação, e então, hoje somos uma associação cultural e desportiva sem fins lucrativos, que trabalha com o nome de Realizing Dreams”. Ou seja, mantém-se a inspiração, mantém-se o mesmo método de ensino e os resultados têm sido positivos. “Tem corrido muito bem, aqui iniciei um trabalho que lá não era possível, temos conseguido bons resultados em competições nacionais e até fora do país, com títulos europeus e internacionais. Temos conseguido bons resultados para a nossa academia e também para a cidade de Beja”.
A nova academia, sita na rua de Lisboa, tem já cerca de uma centena de alunos de todas as idades, que praticam em simultâneo, porém, revelou o mestre: “Temos uma classe exclusiva, uma turma feminina que trabalha defesa pessoal – sabemos que Beja está um pouco mais problemática – e, então, essa classe feminina trabalha a defesa pessoal”.
O jiu-jitsu é uma arte de combate, mas também de defesa pessoal, pode ter ambas as vertentes, mas David Amorim, fez notar: “Aqui nós condicionamos a prática desta arte a nunca atacar, apenas em último recurso ou em perigo de vida. Aprendemos dessa maneira, mas sabemos o potencial que esta arte tem em relação a traumas e a golpes e então evitamos sempre muito ir por esse caminho”. Mas o jiu-jitsu, sem perder a sua especificidade de arte marcial, difere de outras artes que conhecemos.
“Ao contrário de outras artes marciais, o jiu-jitsu é uma disciplina que se consegue treinar desde criança até aos 80, 90 ou 100 anos. Nós estamos virados para um público específico. Por exemplo, se no outro dia o praticante tem de ir trabalhar, então, nós ensinamos jiu-jitsu sem trabalho físico, nem correndo durante 30 minutos, nem levantando pesos. É um jiu-jitsu feito para que no outro dia você consiga trabalhar. E tem maior longevidade treinando jiu-jitsu, coisa que as outras artes marciais talvez não consigam. Há um tempo para você treinar judo, para treinar boxe, ou outras artes, mas chegará uma fase em que você não vai conseguir cair muitas vezes, dar um soco ou um chuto inúmeras vezes, mas o treino do jiu-jitsu conseguirá sempre fazer. A modalidade tem esse mérito”.
Mas os benefícios, segundo o mestre, não ficam por aqui. “Uma pessoa que pratique jiu-jitsu torna-se melhor pessoa, ganha competências muito importantes, o humanismo, a amizade, a generosidade. Convive-se aqui com pessoas boas, nós costumamos dizer que já somos uma família. O jiu-jitsu é uma modalidade muito específica, é uma combinação de competências físicas e mentais, é uma arte suave, onde tentamos não usar muito a força, trabalhamos o corpo e a mente, tudo em conjunto”.
A academia tem já alguns títulos conquistados, mas do que David Amorim mais se orgulha é de ter trazido para Beja uma competição da modalidade. “Trouxemos para cá, no ano passado, uma etapa do campeonato nacional, com quase 300 atletas inscritos. Orgulha-nos imenso dizer que fomos nós que proporcionámos a vinda dessa competição para esta cidade.
Isso mostra o enorme crescimento e, lá está, foi uma forma de colocarmos Beja no mapa do jiu-jitsu a nível nacional”. O trabalho não está acabado, a ambição é elevada, e David Amorim revelou essa motivação quando disse: “Temos ainda muitos passos para dar, temos muito espaço para crescer e evoluir. Quero fazer com que Beja conheça cada vez mais o poder que o jiu-jitsu tem, não só pela vertente de competição, mas pelo cuidado físico. Quero trazer crianças que precisem, que, às vezes, não têm como pagar, crianças que estão na rua, que estão fazendo coisas ruins. Quero que venham para cá aprender jiu-jitsu e podem aprender uma profissão. Em qualquer lugar do mundo, se você tiver uma formação de médico ou veterinário, você vai ter de provar, mas se sair daqui, como qualquer aluno meu, com uma faixa preta, consegue trabalhar em qualquer lugar. Então, o jiu-jitsu, hoje, é também uma profissão com a qual se pode ganhar a vida”.
Claro que existem mais sonhos, não estivessem eles ancorados à designação da própria Academia Realizing Dreams. “O nosso sonho é formar pais, mães, filhos, melhorar o caráter das pessoas, é esse o nosso sonho”, revelou o mestre, concluindo: “Pretendo que, cada vez mais, o jiu-jitsu, e as outras artes marciais, cresçam aqui. A cidade tem um potencial que ainda está muito escondido, está muito por revelar, falta que as pessoas descubram o benefício que as artes marciais, não só o jiu-jitsu, podem proporcionar”.