Diário do Alentejo

Luís Carrega: #Carrega Luís

14 de maio 2023 - 10:30
Campeão nacional de muay thai (65 quilos) revela as dificuldades do seu percurso competitivo
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O peso da idade não fragilizou a determinação do multidisciplinar desportista bejense, Luís Carrega, de atingir os objetivos que, durante alguns anos, perseguiu com ambição, muito esforço e enorme dedicação.

 

 

Texto Firmino Paixão 

 

O Pavilhão Municipal Armindo Peneque, em Aljustrel, consagrou Luís Carrega como campeão nacional de muay thai, na categoria de WKU 65 quilos, depois de vencer o combate que o opôs ao lutador Pedro Magalhães.

 

Um ano antes, no mesmo recinto, o lutador bejense, prestes a completar 42 anos de idade, tinha conquistado o título na categoria DFC 63,5 quilos.

 

Luís Carrega pratica muay thai, ou boxe tailandês, há cerca de 10 anos e assume que o pavilhão da Vila Mineira é já o seu talismã. “Sim, com toda a certeza. Disputei o título de DFC em fevereiro do ano passado, num dia difícil, porque tinha falecido o meu sogro, mas consegui ter sucesso, e agora, em março último, voltei lá para ser campeão nacional em WKU igualmente no pavilhão de Aljustrel, onde o público me acolhe bem e me dá bastante força”.

 

Dois objetivos conseguidos, ao fim de uma década de dedicação a esta arte marcial. “Era uma meta que perseguia, confesso que sim. Eram títulos que procurei ao longo de tantos anos de treino e que não consegui obter mais cedo, porque me dedicava, integralmente, ao futebol como jogador, mas, quando deixei de jogar, tive logo oportunidade de ir um pouco mais além, também porque o meu mestre, o João Tiago Silva, apostou tudo em mim. É um praticante muito titulado, campeão nacional, europeu e mundial, tem todos os cinturões”.

 

Os desportos de combate são uma paixão antiga, confessou. “Fiz judo, pratiquei jiu-jitsu, mas o que me encanta é o kikcboxing e o muay thai. No judo fui campeão nacional há uns anos, com o Francisco Carvoeiras, era o que existia em Beja, na altura não havia mais nada. Quem trouxe o muay thai para Beja foi o já falecido mestre Eduardo Pândega”.

 

O percurso para este sucesso, admitiu Carrega, foi duro, muito duro. “É sempre uma caminhada muito dura, passar da classe C para a classe B, é sempre diferente, ou seja, deixamos de ‘jogar’ com caneleiras e proteções e passamos a competir sem qualquer proteção. É sempre duro, mesmo que queiramos atenuar essas dificuldades, existem sempre mazelas que levam algum tempo a curar”.

 

Disse jogar? “Sim, nós dizemos jogar, em vez de dizermos combater”.

 

Como se vê, as dificuldades foram imensas, mas isso também dá maior significado ao que foi alcançado. “Claro, dado a minha idade, lembro que vou fazer 42 anos, e o facto de o meu mestre estar a apostar tanto em mim, este título foi algo muito importante, porque os meus colegas também confiam muito em mim, também me dão muita força e muitos estímulos para eu chegar cada vez mais longe, porque ter sido campeão nacional com esta idade, numa modalidade em que só competimos com adversários dentro da casa dos 20 e 30 anos, é muito relevante”.

 

Antigo futebolista e ainda treinador nos escalões de formação do Despertar Sporting Clube, de Beja, Luís Carrega explicou o que está subjacente à dureza do muay thai.

 

“É duro na parte da preparação, na melhoria e na exigência de uma boa condição física. Depois, também no rigor da alimentação, com dietas exigentes. Nós, no futebol, temos uma alimentação cuidada, mas aqui as restrições são muitas, porque temos de manter um determinado peso”.

 

Um desporto duro, sim, violento não, aliás, essa imagem já se vai esbatendo um pouco na sociedade, garante o praticante e treinador da modalidade no ginásio da Academia Chapas Fighting Team, local onde treina duas e três vezes por dia, para manter as atuais performances, porquanto já está na calha um novo desafio.

 

“Já estou com o pensamento na gala que se realizará no mês de outubro, em Ourique, onde vou defender o título DFC na minha categoria”.

 

E em termos internacionais? “Temos tido algumas propostas para combates fora do País, mas o meu mentor e mestre, João Tiago Silva, tem-me vindo a cortar, porque tem de ponderar a minha idade e o facto de a recuperação entre combates ser mais lenta. Tenho de perceber isso. Tenho colegas que fazem um combate de dois em dois meses e eu já terei de fazer de três em três ou fazer apenas dois por ano, já não tenho idade para ‘jogar’ com tanta frequência”.

 

Entretanto vai repartindo o seu tempo entre a formação de jovens futebolistas e o ensino de muay thai a outros miúdos.

 

“O melhor exemplo que podemos dar é mostrarmo-nos nós próprios, fazê-los sentir que nós, além de gostarmos muito da arte, também nos dedicamos a ela, ministramos-lhes os treinos, mas também treinamos nós com maior intensidade, para não nos faltar qualidade e para que essa qualidade também lhes seja transmitida. Os alunos têm a consciência que fazemos tudo por eles. O ginásio tem cerca de 70 alunos, 30 são ‘kids’, os restantes são seniores, incluindo senhoras, porque as mulheres estão a aderir cada vez mais ao muay thai. Temos algumas atletas que já ‘jogam’, outras estão na calha para se iniciarem nas lutas”.

 

Convidando todas as pessoas, que revelem curiosidade em conhecer esta arte marcial, a visitarem o novo espaço da Academia Chapas Fighting Team, é aí que ele continuará a revelar o seu talento.

 

“Ficarei no muay thai até que a idade me permita. Enquanto tiver forças, competirei, quando elas me faltaram, serei apenas treinador. Já treino crianças há muito tempo, quer no muay thai, quer no futebol, com os infantis do Despertar. Adoro trabalhar com crianças, é um propósito de vida, as crianças passam-nos uma energia fantástica”.

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