Diário do Alentejo

A magia da “Terra Quente”

27 de janeiro 2026 - 08:00
Foto | D.R.Foto | D.R.

Vanessa Schnitzer

 

Passadas as festividades natalícias, gastas na artificialidade de demonstrar grande amabilidade enquanto se mastiga a amargura da chatice, chegámos finalmente ao novo ano. E quis o destino empurrar-me de novo para trás dos montes, rumo ao tal reino maravilhoso, e assim cumprir a tradição do ano anterior. Atravessei o País, até ao cimo de Portugal, para ir visitar uma amiga que se aninhou neste belo canto da terra, tal como os pássaros que fazem os ninhos no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos, como disse um dia Miguel Torga. Desta vez, o destino foi a “Terra Quente”, mais precisamente a princesa do Tua, que decidiu acolher esta filha bastarda alentejana que se sente tão bem no Norte. Vale de Salgueiro, uma aldeia pitoresca e inóspita, que fica no coração de Mirandela, onde a natureza parece anterior à do resto do território, inundado de uma beleza virginal, com a brutalidade das montanhas e vales, rasgadas por rios serpenteantes. O tempo parou quando aqui chegou para preservar a cultura e a identidade das gentes, os rituais e os dialetos. Ainda é possível ver homens a descer as leiras, com a enxada ao ombro e burrico pela arreata, e o rebanho a ser conduzido pelo pastor. As mulheres já entregues à labuta, dedicadas às hortas, aos animais ou então na fazedura dos enchidos, com destaque para a rainha de todas elas, a alheira. Logo, na manhã seguinte à minha chegada, fui surpreendida com o “Rebusco na Terra dos Reis”, uma atividade que visa preservar as tradições e dar vida ao importante ecossistema agrícola, que servia de base e sustento às populações. Enquanto passeava pelo olival, dei logo comigo a pensar: o que se perde quando deixamos de ter uma relação graciosa com a terra, quando se perde a ligação umbilical ao doce e cálido útero materno. É a terra que modela o modo de ver e de sentir das gentes, onde as amizades se fortalecem e as diferentes formas de amor acontecem. Tudo nasce na terra, e volta à terra. Encantada estava com “a magia profunda desta terra de verdade que se reflecte no céu no viço das árvores, no canto das aves, no coração que se abre à eternidade” (Miguel Torga). De seguida, fomos ver como se obtém o ouro líquido, no lagar do azeite: “verde foi o meu nascimento, de luto me vesti, para dar luz ao mundo, mil tormentos padeci”. E como não podia faltar, o sangue que brota das raízes e dá a vida e a voz à região onde nasce e se bebe. O vinho que pinga da Quinta das Corriças e que deixa cantar as pedras que as sustentam. Aqui, encontramos o xisto bem casado com o granito, como tão sabiamente descreveu o senhor pároco. Uma arquitetura prodigiosa, onde a rusticidade se encontra polida pela elegância, tal como nos vinhos. A nossa Trincadeira, que aqui é batizada de Tinta Amarela, inundou o meu cálice de virtudes. O melhor vinho é aquele que consegue refletir o sabor do lugar e o carácter das gentes que lhe dá a vida, como este “Quinta das Corriças Tinta Amarela”, em que é possível cheirar as urzes, as estevas que inundam os campos. Um portento de austeridade, secura e frescura. Um vinho que está imune às modas, sem as tais bombas aromáticas de fruta que marcam muito dos vinhos atuais; é profundo, intenso e misterioso, que dá vontade de beber. Como estamos na terra do vinho, ainda fui agraciada com a oportunidade de ver um lagar antigo de pedra, onde a pisa é feita a pé. Extraordinário!Com o dinheiro amealhado no “Rebusco”, já era possível adquirir o tabaco para a “Festa dos Rapazes” que dura dois dias, em que é permitido às crianças fumar. À audição da gaita e dos bombos ninguém fica indiferente. Ecoa por toda a aldeia, a anunciar que vem aí o rei, ilustremente acompanhado com o grupo de gaiteiros, que distribui vários quilos de tremoços e litros de vinho em cabaças tradicionais. Enquanto reina a procissão, conspira-se no centro da aldeia com os preparativos da festa, que começa logo após a chegada da realeza. As pessoas, alegres e ansiosas, resistem ao frio, alimentadas de calor humano e de calor divino, como a tradição que se celebra. O bailarico estala, com a dança da murinheira, ao som da gaita de foles e dos bombos. A faina dura toda a noite até à alvorada. O rei volta a percorrer toda a aldeia para receber a “manda”, ou seja, os donativos para custear as despesas que a festa acarreta.No céu, a luz da fogueira iluminava a noite, enquanto as pessoas perdiam os seus olhares na imensidão do horizonte. De repente, ergo as minhas mãos para o céu, a acolher com graça e alegria a magia da epifania vivida nesta aldeia que tão bem me acolheu. Enchi o coração de esperança, confiando que onde e quando se reunirem homens de boa-fé há de pairar um espírito subtil que nos anime para a realização de feitos e prodígios. De Vale de Salgueiro regresso com o coração cheio!

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