Nas várias visitas realizadas às sedes dos grupos corais, por forma a trabalhar os seus acervos documentais, no âmbito do Arquivo Digital do Cante, não raras vezes somos confrontados com bibliotecas de maior ou menor dimensão, mas todas elas com notório interesse. Nalguns locais, onde a fundação ou história dos grupos esteve relacionada com as casas do povo, é possível encontrar autênticas relíquias da literatura produzida durante o Estado Novo, sobre diversos temas, mas também sobre as tradições e práticas culturais de diferentes territórios. Mais ou menos romantizadas, é assim possível apreender mais conhecimento, quer sobre as referidas tradições, no geral, quer sobre o cante em específico. A literatura tem um papel essencial na preservação da memória cultural e histórica, daí que as várias publicações existentes nas bibliotecas já referidas, e outras, assumam particular relevância para um melhor conhecimento do cante. Mais modestas ou mais elaboradas, do ponto visto gráfico, aqui e ali surgem, de quando em vez, brochuras, pequenos livros, estudos, revistas e outras publicações que tratam a história e a atividade do grupo local ou a ele fazem referência. Muitas das vezes editadas com parcos recursos das juntas de freguesia ou do próprio grupo, com um número muito reduzido de cópias, apesar da antiguidade de muitos destas obras, o que é facto é que vão aparecendo. Não obstante, a questão que se coloca é por quem são lidas, ou melhor, se já foram lidas pelos componentes do grupo ou da associação que serve de guardiã(o) dos referidos documentos. A julgar pelas respostas a um inquérito de 2023, feito pela Universidade de Évora, em que cerca de 96 por cento dos 112 grupos inquiridos respondeu que nunca tinha lido o dossiê de candidatura, apesar de estar publicado e disponível no Museu do Cante, presume-se que terão sido pouco manuseados. Uma das particularidades destas obras, por aí dispersas em pequenas bibliotecas ou arquivos à guarda dos grupos corais, prende-se, também, com o acesso a tais obras que terão circulado muito pouco devido ao número reduzido de exemplares produzidos. No entanto, a sua leitura e o conhecimento das mesmas é sobremaneira importante e contribuiria de forma inequívoca para a disseminação do conhecimento sobre os grupos em causa e sobre o cante. É, pois, nessa perspetiva que o Arquivo Digital do Cante assenta a sua ação e, desde que possível, digitalizará algumas dessas obras, partilhando-as posteriormente nas plataformas em que está presente. É um facto que muito se tem escrito sobre o cante, e sobre alguns grupos também, mas tudo o que já foi escrito é ainda manifestamente pouco mediante tamanha riqueza e valor patrimonial e nesse sentido o que se pretende com a ação do arquivo é trazer a público novos documentos, novas fontes para que se continue a escrever mais e assim produzir mais conhecimento, novos olhares e novas perspetivas para o estudo do cante alentejano. Na crónica de hoje divulgam-se duas imagens correspondentes à capa de duas obras importantíssimas para a história do movimento coral. Sendo uma mais recente do que a outra e diferentes no seu conteúdo e âmbito. A obra Mulheres do Cante, escrita por Manuel Nobre, Judite Calisto, Regina Ferreira e Rosário Cruz, publicada em 2004 pela Junta de Freguesia de Ervidel, retrata a história da fundação e atividade do Grupo Coral Flores da Primavera de Ervidel, que foi o primeiro grupo coral feminino surgido após a Revolução dos Cravos. Fundado em 1979, este grupo coral viu assim retratada uma significativa parte da sua longa história, bem como partilha as pautas das modas que canta e gravou num CD com oito temas que acompanha o livro. A outra obra, intitulada A Tradição – Nova Série, publicada em 2015, pela então Casa do Cante, atual museu, para além de divulgar o dossiê de candidatura do cante à Unesco, contém algumas crónicas e notas fundamentais para um melhor entendimento do volumoso trabalho feito em torno de todo o processo. Uma e outra obra merecem leitura atenta e sempre tendo em conta que a literatura, para além de contribuir para o desenvolvimento da linguagem, da imaginação e do pensamento critico, tem inerente um valor emocional e transformador.
Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt