Texto | Rodrigo Ramos
Numa era em que tudo o que se virá a escrever já se encontra escrito e a autenticidade literária não existe estou convencido de que ninguém me levará a mal se reciclar uma frase de Almeida Garrett para colocar a seguinte questão: acaso sabem os leitores quantos indivíduos é forçoso condenar à miséria para que o Estado produza uma singela folha de papel impressa? A bem da verdade, eu também não. Mas transponhamos agora os cálculos para 13 milhões de boletins de voto. Suponhamos então que, pagos esses, nos veríamos no imperativo de requerer a impressão de outros tantos. É dinheiro que não pagaria uma renda no centro de Lisboa, mas talvez resgatasse da fome um sem-número de indivíduos. Pois sucede isso mesmo: por decisão do Tribunal Constitucional, tomada após a impressão precoce dos boletins, três candidaturas foram excluídas. O Estado, que é a expansão do povo, sabe que no poupar é que está o ganho e, se arruinados estão os boletins de voto, não se hão de arruinar também as finanças do País. Não estranhe, pois, o eleitor que nas eleições do próximo domingo se depare no boletim com 14 nomes, dos quais só 11 vão a jogo. A explicação do Ministério da Administração Interna (MAI) de que não há tempo para novas impressões impressiona, uma vez que o processo começou há mais de 20 dias, a 24 de dezembro. Logo, bem grande seria a maçada de ter de reimprimir tudo uma outra vez, para mais com claro prejuízo para o erário público. De modo que, em vez de requerer à Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM) que prima o ícone da impressora o MAI faz contas ao tempo e aos cêntimos, conclui que a verdade democrática é um luxo orçamental, fecha o excel e opta por levar a sufrágio três candidatos impedidos de concorrer.O que vou listar não surgirá como novidade para estudantes, docentes, administrativos, contabilistas, comerciantes, tipógrafos e demais infelizes conhecedores dos desarranjos mecânicos das impressoras. É depois deste comando para a impressão, muitas vezes mais implorativo do que imperativo, que surge um inventário de desastres: é a impressora que enérgica e apressadamente pretende atalhar o serviço e puxa duas e três folhas à vez, as quais de seguida percorrem com urgência os caminhos internos da máquina e se amassam nos rolos viscerais; é a tinta do tinteiro ou do toner que acaba antes de concluída a impressão e que obriga a suspender os trabalhos até novas aquisições (abre-se um parêntese para observar que, em tempos idos, tal questão se solucionaria num par de minutos, com uma deslocação breve à papelaria do bairro; nos dias de hoje, contudo, podemos comodamente efetuar uma encomenda no conforto do nosso sofá e aguardar uns meros 15 a 20 dias úteis pela entrega do artigo); quantas vezes, inserido o cartucho, damo-nos conta de que afinal a tinta não corre porque a cabeça está entupida ou seca. E, com ela, também a nossa cabeça se entope, bloqueia, faz de nós jograis de um perverso divertimento informático. Isolados da família por horas ou dias, esmiframo-nos para deixar o sistema operacional, o que só ocorrerá após a execução de uma delicada cesariana ao papel atulhado no interior da máquina, a limpeza da bandeja, o alinhamento das folhas, a limpeza dos sensores com recurso a ar comprimido (quando o que nos apetecia, neste ponto, era usar uma carabina de pressão de ar), o inevitável recarregamento dos cartuchos ou toners e consequente alinhamento das cabeças, a mudança do óleo, filtro de óleo e de combustível, para, no fim, notarmos que o animal respira mas não imprime – tem o driver desatualizado.Isto somos nós, em nossa casa, numa guerra civil contra a máquina, no inglório esforço de tentar convencê-la a imprimir o comprovativo de pagamento do imposto único de circulação! Agora imagine-se o MAI, que tem de pagar do nosso bolso à INCM, a quem confia a impressão de milhões de boletins. Que mais havia a fazer? Dar conta do Orçamento do Estado por conta de uns míseros 13 milhões de boletins? Levar o País à falência para pôr os boletins de voto em harmonia com a verdade?Mas nós não somos a China! A China, está bem, que é um império conhecido por, dia sim, dia não, produzir máquinas de bem avariar, as quais, por apenas 49,90€ + IVA, eram capazes de pintar todo o Oriente de vermelho. E mesmo dessa grande nação não consta que se imprimam boletins de voto com candidatos de diferentes partidos ou independentes. E que dizer dos obscenamente ricos EUA, que produzem boletins de voto com dois partidos principais, acrescidos de uns tantos outros, que modestamente existem para compor o ramalhete democrático? O eleitor sabe que isto é Portugal, não precisamos de cartazes do Chega para no-lo lembrar. Neste país os corações batem ao compasso do sinal de impedido do número do SNS24. Neste país muitos idosos dão tréguas aos medicamentos para comprarem o pão nosso de cada dia. Aqui as grávidas têm uma aplicação no telemóvel que lhes indica os serviços de obstetrícia encerrados, para melhor optarem pela ambulância ou pelo lancil de passeio onde façam nascer os seus filhos. Neste país entra-se em paragem cardiorrespiratória e, antes de ouvirmos as sirenes do INEM, damos de caras com o coveiro. Portanto, caro eleitor, se me permite um conselho, no próximo dia 18 vote. Não se apoquente com os três nomes excluídos. Mais do que os boletins, foi o País que nasceu já com defeito de fábrica.