Luís Miguel LuzDocente e membro da Comissão de Trabalhadores do Instituto Politécnico de Beja (IPBeja)
O manifesto “Por um Ensino Superior Humanizado” defende a proibição do uso da inteligência artificial (IA) generativa dos processos de ensino-aprendizagem. O diagnóstico é duro: um “dilúvio digital”, estudantes empurrados para chatbots, fraude e plágio em série, desgaste docente e um recuo para formas de avaliação mais pobres por falta de instrumentos de verificação e de justiça avaliativa. A solução proposta é simples e radical: proibir.Percebo o sobressalto e partilho parte das preocupações. Mas discordo do remédio. O problema é responder com uma proibição que, na prática, não elimina nada, pois os estudantes não vão deixar de usar só porque é proibido dentro da academia. E quando o uso passa para a “clandestinidade”, a literacia desaparece, as desigualdades aumentam e a universidade perde a oportunidade de cumprir a sua função: formar pessoas capazes de pensar criticamente.Nos anos 90, com a generalização da Internet nas escolas e universidades, reapareceram receios muito semelhantes aos de hoje: o “copiar/colar”, os trabalhos comprados on line e a erosão da integridade académica. Houve resistência docente e, em alguns contextos, vontade de proibir ou restringir severamente o acesso.Mas a Internet não desapareceu. Transformou-se em infraestrutura e o ensino teve de se adaptar. Continuámos a ter plágio e desonestidade académica? Claro. É algo que sempre existiu e estou quase certo de que vai sempre existir. Mas alguém defenderia hoje, com seriedade, um ensino superior “sem Internet”?A IA generativa, tal como existe hoje, não é um oráculo infalível. É uma ferramenta potente e, ao mesmo tempo, com falhas: pode ajudar a organizar ideias, resumir, estruturar, mas também inventa, simplifica em excesso, mistura conceitos e entrega respostas com uma confiança que não merece. Amanhã ninguém sabe o que será, mas hoje é isto.E é precisamente por ser potente e falível que a proibição me parece uma má opção e, sobretudo, pedagogicamente pobre, pois é abdicar da responsabilidade educativa, num ponto em que o mundo real já entrou pela sala de aula dentro.Nas minhas aulas, falo de IA com os estudantes sem tabus e uso uma metáfora simples: “Estes são os meus estagiários”. Excelentes a compilar informação, a sugerir exemplos, a levantar hipóteses. Mas são simples estagiários, que, por vezes (muitas), inventam, têm enviesamentos, não entendem contextos muito específicos, não respondem por nós e, sobretudo, não têm a nossa responsabilidade.Por isso, a regra é clara: podemos pedir ajuda ao “estagiário”, mas nunca lhe podemos entregar a autoria. Quem o faz acaba, inevitavelmente, com um texto fraco, sem substância e sem voz. E isso nota-se – às vezes de imediato, outras vezes quando se pede ao estudante que explique, defenda, corrija ou relacione aquilo que entregou.A existência destes “estagiários” obriga-nos a mexer no centro de gravidade da avaliação. Se um estudante consegue obter em segundos uma resposta factual ou uma definição razoável, então avaliar memorização e reprodução passa a ser ainda menos relevante do que já era. O foco tem de deslocar-se para o modo como se processa a informação e como se constrói raciocínio.Isto traduz-se em tarefas com contexto, restrições e decisões. Ou seja, tentar trazer problemas reais para a sala de aula, analisando dados específicos, discutindo em sala de aula alternativas, refletindo sobre as escolhas e realizando, com os estudantes, defesas orais. Em vez de perguntar “o que é”, passamos a perguntar “porquê”, “para quê”, “com que consequências”, “como sabes” e “o que farias diferente”. A IA pode sugerir respostas; mas não consegue pensar por nós.Esta transição exige formação robusta e continuada para docentes, tempo reconhecido para redesenhar unidades curriculares e apoio pedagógico e técnico. Exige também recomendações institucionais claras e operacionalizáveis. No IPBeja, por exemplo, já existem recomendações institucionais sobre o uso da IA. O desafio, agora, é que estas orientações deixem de ser um documento genérico e passem a ser política viva: discutida em cada curso, afinada por área científica, aplicada com coerência e acompanhada com formação séria. Sem isso, ficamos na pior combinação possível: exigimos mudança, mas mantemos as condições que a impedem.Há um ponto que me preocupa mais do que a existência da ferramenta: a desigualdade de acesso. Nem todos os “estagiários” são iguais. Há versões gratuitas com limitações e há versões pagas com maior profundidade, melhor desempenho e capacidades adicionais. Se deixarmos que cada estudante use “o que consegue pagar”, estamos a aceitar que a qualidade do apoio disponível dependa da carteira.Numa instituição pública isto tem de ser uma linha vermelha. Se a IA vai fazer parte do ecossistema – e vai, quer gostemos quer não –, então as instituições têm de garantir acesso minimamente equivalente a todos os estudantes, sob pena de estarmos a construir uma desigualdade educativa com selo institucional.Proibir retira-nos a possibilidade de ensinar a usar bem, de discutir limites, de trabalhar enviesamentos, de treinar verificação e de tornar o estudante consciente das armadilhas.A alternativa é a literacia, a ética, a transparência e a avaliação desenhada para resistir ao facilitismo.O manifesto tem razão quando denuncia a “burocracia managerialista” e a “monocultura do produtivismo acelerado” que desvalorizam o tempo pedagógico. Quem trabalha no ensino superior sabe bem como somos oprimidos por tarefas administrativas que nos roubam tempo para aquilo que realmente importa: os processos de ensino-aprendizagem e o envolvimento com a comunidade.E, aqui, curiosamente, os “estagiários” – essa IA que o manifesto quer proibir – podem ser aliados valiosos. Já me têm ajudado a encontrar informação atualizada sobre regulamentos e legislação, a perceber formulários de candidaturas, a organizar ideias, a preparar materiais. Não fazem o trabalho por mim, mas poupam-me horas de procura – horas que posso dedicar aos estudantes.
Nota: Este texto foi revisto com o apoio de um “estagiário”, para detetar gralhas ortográficas/gramaticais e melhorar a fluidez. O mesmo “estagiário” sugeriu também o título, depois de «ler» o texto – sugestão que agradeço, porque dar títulos é uma das minhas dificuldades. A responsabilidade final pelo conteúdo é, naturalmente, minha.