Em julho de 1969 é lançado o n.º 1 da revista “Folclore”, ao preço de 7$50. Sediada em Santarém, esta revista com orientação mais reflexiva, etnográfica e doutrinária, muito ligada à definição, defesa e debate do folclore português, tinha como proprietário e diretor Manuel João Barbosa, um apaixonado pelas tradições e pelo folclore português. Fundada ainda no antigo regime, sujeita à censura, como pode ler-se logo no início de cada edição, e com poucos recursos, acabaria por extinguir-se passados poucos anos, deixando para trás alguns exemplares de grande riqueza histórica e cultural. Porém, volvidas algumas décadas, em 1996, o seu diretor viria a fundar o jornal “Folclore”, dando assim continuidade a um projeto editorial que agora, já em liberdade, vingaria até 2020, sucumbindo em plena pandemia de covid-19. A revista “Folclore”, dedicada à divulgação do folclore português e das tradições dos territórios então colonizados, dedicava a maioria das suas páginas aos grupos e ranchos folclóricos existentes e sua atividade dentro e fora de Portugal. Contava ainda no seu corpo editorial com um vasto conjunto de colaboradores, de diferentes regiões, que enviavam notícias sobre os grupos da sua região. Entre eles contavam-se dois colaboradores do Alto Alentejo, dos concelhos de Portalegre e Castelo de Vide, e aos quais se viria juntar, em 1971, Azinhal Abelho. Não havia, portanto, correspondente no Baixo Alentejo, pelo que as parcas notícias sobre o cante chegavam por via de alguma carta de amigos ou pelos jornais regionais que chegavam à redação. Ainda assim, em vários exemplares é possível encontrar pequenas notícias ou referências aos grupos de cante, o que em muito terá contribuído para a sua divulgação e afirmação no panorama nacional. Na revista “Folclore” n.º 3 (janeiro/fevereiro, 1970) dá-se conta da “curiosa” missa de Natal em Pias, que juntou folclore e música moderna, referenciando o Grupo Coral e Etnográfico Os Camponeses de Pias e toda “a povoação”, que muito antes do início da missa “entoava, frente à igreja, cânticos ao Menino Jesus, do folclore alentejano”. Nova referência ao cante surge no exemplar n.º 6 (maio, 1970) a propósito da notícia de dois importantes festivais de folclore, com carácter oficial, em Aveiro, dias 10 e 11 de maio, em que participou o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa. Por sua vez, a revista “Folclore” n.º 8 (julho, 1970) dá destaque ao imponente cortejo histórico, do trajo popular, em Évora, no decorrer da Feira de São João, onde a representação do Baixo Alentejo ficou a cargo dos grupos corais de Cuba (Ceifeiros) e Vidigueira (Vindimadores). Um concurso de cantos regionais em Beringel é anunciado no n.º 9 (agosto, 1970) a acontecer em setembro, por ocasião das Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição. Ainda em 1970, organizado pelo Serviço de Festivais da Secretaria de Estado de Informação e Turismo, e com a colaboração da Comissão Regional de Turismo do Algarve, teve lugar o Festival do Algarve/1970, noticiado na revista n.º 10 (setembro, 1970), onde a representação do Baixo Alentejo ficou a cargo do Grupo Coral Os Ceifeiros de Cuba. Já em 1971 (revista “Folclore”, n.º 19) é noticiado o lançamento do LP do Rancho Coral Os Camponeses de Pias, agrupamento fundado em 1968 pelo reverendíssimo padre Gaudêncio Manuel da Silva Fernandes e ensaiado por Barão Espada Cachola, refere o texto publicado sob o título “O Rancho Coral Os Camponeses de Pias em acetato estereofónico”. Em dezembro de 1971 (revista “Folclore” n.º 22) este agrupamento volta novamente a ser referenciado no âmbito de uma notícia sobre o “I Encontro Internacional de Grupos Corais”, em Évora, onde o jornalista, referindo-se ao genuíno grupo, escreve: “A propósito: por que não concedem a estes homens, de caras tisnadas por mil sóis e mãos calejadas pela dureza da planície alentejana, a liberdade de interpretar as ‘suas’ canções, obrigando-os a empinar letras de mau gosto atroz?”. Vestígios de outros tempos… que, pelo seu interesse histórico, não devem ser apagados da história dos grupos e do cante!
Florêncio Cacete
Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt