Diário do Alentejo

Barranquenho vai ter gramática para ser língua oficial

27 de fevereiro 2020 - 15:00

A Câmara Municipal de Barrancos e a Universidade de Évora estão a colaborar no âmbito de um Programa de Preservação, Estudo e Valorização do Património Linguístico e Cultural de Barrancos. Em março arranca a formação de informantes, a primeira ação do Estudo do Barranquenho, que inclui diversas iniciativas, tais como a documentação da língua, a elaboração de uma convenção ortográfica, a elaboração de uma gramática e de um dicionário e a organização do seu ensino. Para o presidente da Câmara Municipal de Barrancos, João Serranito Nunes, o objetivo da autarquia é a concretização do programa protocolado com a Universidade de Évora, que “compreende todos os domínios do barranquenho, desde a língua à cultura, em todas as suas vertentes – estudo, preservação e promoção”.


Texto: Carlos Lopes Pereira
Fotografia: José Ferrolho


Vai avançar o Programa de Preservação, Estudo e Valorização do Património Linguístico e Cultural de Barrancos, protocolado no quadro da colaboração entre o município barranquenho e a Universidade de Évora. “Estamos, neste momento, a ultimar os procedimentos burocráticos e administrativos para dar início ao Estudo do Barranquenho”, revelou o presidente da Câmara Municipal de Barrancos, João Nunes. Das iniciativas a realizar “destacam-se a documentação da língua – a primeira e a mais urgente –, a elaboração de uma convenção ortográfica, a elaboração de uma gramática e de um dicionário e a organização do seu ensino”, especifica. Cada uma destas iniciativas contempla uma série de ações, consistindo a primeira delas na formação de informantes, que já se encontra agendada para o mês de março.


A Universidade de Évora será a instituição responsável pelos trabalhos a desenvolver no âmbito do Estudo do Barranquenho, sob a orientação de uma equipa técnica constituída pelos investigadores Filomena Gonçalves, María Victoria Navas Sánchez-Élez e Filipe Themudo Barata. Nesta colaboração estão contempladas as parcerias e os apoios necessários de acordo com as necessidades do projeto, como, por exemplo, com o Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, a Universidade Complutense de Madrid e o Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social. As medidas de preservação da língua têm carácter prioritário, em termos de política municipal de Barrancos, assegura o autarca: “O principal objetivo da câmara é a concretização do programa protocolado com a Universidade de Évora, que compreende todos os domínios do barranquenho, desde a língua à cultura, em todas as suas vertentes – estudo, preservação e promoção”. O presidente João Nunes explica que, hoje, o barranquenho é falado por pessoas de todas as idades, desde as crianças aos mais idosos. É certo que a população mais idosa “fala um barranquenho mais cerrado e mantém muitos dos traços linguísticos mais antigos e genuínos”. No entanto, “as crianças também são ótimas falantes de barranquenho”.

 

 

 

Relativamente ao total de falantes, é difícil avançar um número. Nos dias de hoje, há o perigo do barranquenho desaparecer? João Nunes é cauteloso: “O barranquenho é, neste momento, apenas uma língua oral, que está exposta às influências da atualidade, nomeadamente, dos meios de comunicação social, da informatização e da era digital. O envelhecimento da população e o desaparecimento da geração mais velha acarreta a perda irreparável de memórias, de práticas e tradições antigas e de informação cultural e linguística importante para a documentação da identidade barranquenha. Daí a necessidade urgente de documentar a língua barranquenha”. Recorde-se que, em 2008, o barranquenho foi classificado como Património Imaterial de Interesse Municipal.

 

Em 2017, a Câmara Municipal de Barrancos anunciou que pretendia candidatar o barranquenho a Património Linguístico Nacional, junto do Ministério da Cultura, para ser reconhecido como língua oficial. Hoje, a autarquia defende que “o reconhecimento do barranquenho como língua cooficial minoritária é o último passo do estudo do barranquenho”. Trata-se de um processo demorado que requer uma série de tarefas de curto, médio e longo prazo e até estar concluído não oferece condições para apresentar uma candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. O reconhecimento por parte de organismos nacionais ou internacionais passará, necessariamente, por um conjunto de medidas prévias.

 

 

VOCÁBULOS BARRANQUENHOS


Buche (gole de água)
Calabaça (cabaça; abóbora)
Codo (cotovelo)
Cosquilhas (cócegas)
Culébra (cobra)
Hipo (soluço)
Mérrua (melro ou “mélroa”)
Nutra (lontra)
Pantorrilla (barriga da perna)
Pilá (chafariz)
Piporro (vasilha de barro)
Quartilho (caneca de esmalte)
Regata (vala)
Zambomba (instrumento musical)
Tubilhu (tornozelo)
Xixarrõeh (torresmos)
Zorra (raposa)


FRASES E EXPRESSÕES POPULARES BARRANQUENHAS


“Quasi que mê caio” (Por pouco não caí!)
“Não dô abádo a tanta coisa” (Não consigo fazer tanta coisa!)
“Belá a bê si tá chobendo” (Vê lá se está a chover)
“Ontem íam os doih bêbadoh um em compáh do outro”
(Ontem iam os dois bêbados juntos um do outro)
“É a cara do pai em táto!” (É tal e qual a cara do pai!)

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