Diário do Alentejo

Só há dois psiquiatras no Alentejo para crianças e jovens

28 de outubro 2019 - 15:10

 As comemorações nacionais do Dia Mundial da Saúde Mental, neste ano, assinalaram-se em Beja, nomeadamente, com uma conferência. E em evidência, para além das boas práticas, ficam, sobretudo, as necessidades. Só há dois pedopsiquiatras no Alentejo, um em Beja e outro em Évora. E, neste território, há falta de recursos humanos em praticamente todos os serviços que dão resposta à saúde mental. “Estamos no limite daquilo que é possível fazer”, alerta Ana Matos Pires, coordenadora regional da Saúde Mental da ARS Alentejo.

 

Texto Bruna Soares
Ilustração Susa Monteiro

 

A falta de pedopsiquiatras no interior do País é um problema que não é novo. Acontece que há regiões, como o Alentejo, onde a situação é mais gritante. “Na psiquiatria da infância e da adolescência a situação é ainda mais dramática. Neste momento, existem dois pedopsiquiatras no Alentejo, um em Beja e um em Évora”. Quem é o afirma é Ana Matos Pires, coordenadora regional da Saúde Mental da Administração Regional de Saúde do Alentejo (ARS Alentejo) e diretora do serviço de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Ulsba).

 

A situação é “ainda mais dramática” porque as respostas nesta área da saúde para os adultos também não são as desejáveis. “Sem recursos não podemos fazer muito mais. Não vale a pena enganar-nos e acharmos que, de facto, a boa vontade resolve tudo aquilo que há por resolver na saúde mental no Alentejo. Não resolve. E nós estamos no limite daquilo que é possível fazer”, prossegue a coordenadora. E explica: “Precisamos, essencialmente, de mais recursos humanos, no que diz respeito à intervenção vinda do lado da saúde, e uma verdadeira e concertada ação com as diferentes estruturas sociais implicadas na melhoria da saúde, definida de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), como ‘bem-estar físico, psíquico e social’. Falo, por exemplo, da segurança social e das autarquias”.

 

“Sabemos que grande parte dos problemas não está nos grandes centros. E sabemos, há vários anos, que o Alentejo tem carências de recursos muito grandes, embora saibamos que as pessoas que cá estão fazem um trabalho excecional. Falta gente no Alentejo, mas as pessoas que cá estão são muito boas”, considera, por sua vez, Miguel Xavier, diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde (DGS), que marcou presença no Dia Mundial da Saúde Mental, que neste ano se assinalou, precisamente, em Beja.

 

Na opinião de Ana Matos Pires, de facto, “o trabalho que está a ser desenvolvido na região Alentejo é excelente e faz-se de acordo com as boas práticas em saúde mental”, destacando, em particular, “a organização dos serviços locais de psiquiatria e saúde mental em equipas comunitárias (ainda que muito carenciadas), incluindo, em Beja, a pedopsiquiatria e o trabalho conjunto em todo o Alentejo no âmbito do Observatório dos Comportamentos Suicidários”. E, no caso particular de Beja, “três projetos inovadores e únicos no Alentejo: a Equipa de Psiquiatria Geriátrica, a Equipa de Psiquiatria do Trabalho e a Equipa de Luto Prolongada”.

 

Recorde-se, no entanto, que em Beja, com contrato individual de trabalho (40 horas por semana) estão três psiquiatras. Em Évora estão 11, em Portalegre estão dois e, em Santiago do Cacém, estão três. E médicos internos (40 horas por semana), em Beja, estão seis, em Portalegre estão quatro e em Évora estão seis. Não existem médicos internos de formação específica de psiquiatria no litoral alentejano, porque não há idoneidade formativa.

 

“Não consigo, neste momento, fazer as contas todas. Em rigor só Évora está, neste momento, com o número desejável de psiquiatras e Beja com o número razoável de psicólogos, tudo o resto está em absoluta carência”, afirma a coordenadora regional da Saúde Mental da ARS Alentejo.

 

Recorde-se ainda que, para além destes profissionais, trabalham nos serviços de saúde mental enfermeiros, técnicos de serviço social, terapeutas ocupacionais, entre outros.

 

“Sabemos que há muito trabalho a fazer e com recursos absolutamente escassos. Nós não somos pessoas de ficar de queixumes, e o trabalho feito no Alentejo revela isso mesmo. Mas precisamos, de facto, de apoio e são necessários recursos humanos se queremos melhorar o estado da saúde mental em Portugal e, em particular, no Alentejo”.

 

É, por isso, que defende: “A saúde mental precisa de pessoas, precisa, em particular, de pessoas para ajudar pessoas com doença mental”. É assim urgente, em sua opinião, “generalizar e sustentar a atividade das equipas comunitárias de saúde mental e aumentar a integração de cuidados”.

 

“Se não conseguirmos pôr a saúde mental na agenda mediática não vamos conseguir pôr na agenda política. O fim desta legislatura é um momento interessante do ponto de vista do Programa Nacional de Saúde Mental, porque neste ano e meio conseguiram-se desenvolver, descrever e apresentar à tutela medidas estruturantes numa série de áreas. Por exemplo, aqui, para o Alentejo, a criação de uma equipa de raiz comunitária de saúde mental para adultos e outra para a infância e adolescência. Está tudo feito, está tudo contratualizado. Não falta nada. Falta aquilo que eu chamo de a concretização. E estou esperançando e expectante para ver se com esta nova legislatura, e uma vez que o trabalho de casa está feito, passamos, finalmente, ao fim de todos estes anos, há fase da concretização”, revela Miguel Xavier.

 

Para Ana Matos Pires, é também necessário criar o Plano Regional de Saúde Mental para este território. “Não se atua sem planos, não se desenvolvem boas estratégias sem um levantamento efetivo dos problemas e das necessidades”, diz. E conclui: “O Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde é um bom plano que pode, e deve, em meu entender, ser a base para um plano regional. A necessidade desse plano regional, aqui, como nas outras regiões onde já está completado, tem muito a ver com a recolha das necessidades específicas e com o conhecimento efetivo do terreno”.

 

 

 

 

Alentejo é a região do País onde se verificam mais mortes por suicídio

O Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala todos os anos a 10 de outubro, neste ano, teve como lema “Trabalhar em conjunto para prevenir o suicídio”. O Alentejo continua, no País, a apresentar o maior número de mortes. Na área de intervenção da ARS Alentejo, em 2017, segundo dados recolhidos no INE e apresentados pelas médicas internas de saúde pública Leonor Godinho e Joana Neto, em Mértola, “a taxa bruta de mortalidade por lesões autoprovocadas intencionalmente e sequelas é de 21,9/100 000”. Por que motivo e por que atinge mais homens do que mulheres? “Estas são as perguntas a que um dia gostaríamos de conseguir responder. Para isso é necessário o desenvolvimento de estudos de qualidade, metodologicamente sustentados”, explica Ana Matos Pires.

 

Nota: Na edição em papel n.º1956, de 18 de outubro de 2019, por lapso foi publicado que “não era possível apurar, com precisão, os números para Santiago do Cacém”. Relativamente a este assunto se esclarece que o correto é que “não existem médicos internos de formação específica de psiquiatria no litoral alentejano, porque não há idoneidade formativa”, como já consta neste texto on line.

 

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