Diário do Alentejo

Jorge Castanho mostra “Paisagens incompletas”

08 de outubro 2019 - 11:10

Texto José Serrano

 

Professor, vive e trabalha em Lisboa. É investigador pós-doutorado, integrado no Centro de Investigação e de Estudos em Belas Artes da Universidade de Lisboa. É doutorado em Desenho pela Universidade de Sevilha (2006). Foi o primeiro pós-doutorado pela Faculdade de Belas- -Artes da Universidade de Lisboa. Durante a década de 1990 foi diretor artístico e comissário de diversos projetos de arte contemporânea, em Beja. Foi bolseiro de doutoramento do Ministério da Cultura de Portugal e bolseiro de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 

 

Intitula-se “Paisagens incompletas” a exposição patente, até ao dia 12 de outubro, na Casa das Artes Mário Elias, em Mértola, da autoria de Jorge Castanho. Para além de 30 pinturas, contempla esculturas em porcelana de Limoges e a apresentação de dois vídeos, que pretendem fazer refletir sobre as mudanças na paisagem, resultantes das culturas intensivas desenvolvidas no Baixo Alentejo.

 

Pretende esta exposição ser, de alguma forma, um grito de alerta ambiental?
Ao viajarmos pelo Baixo Alentejo, o nosso coração não nos pede para pararmos e observarmos o cultivo extensivo do deserto verde, que tem substituído a paisagem natural e tradicional. Pede-nos antes para encontrarmos depressa um porto mais humano. Uma aldeia, uma vila, ou a margem de um rio que nos receba e conforte. Mértola é um desses lugares, um sítio mágico, ali a natureza conta e ajuda a prever. Venham e sintam, foi o que quis expressar.

 

Os 30 quadros foram elaborados durante este verão. Corresponde este volume de trabalho realizado a um desassossego ou a uma epifania do artista?
São encontros rápidos com o lugar, mas não é um afeto descartável. São pinturas num formato pequeno e portátil, que parecendo muito trabalho é pouco para o que vi. Por isso juntei-lhe vídeos e um conjunto de esculturas em porcelana, que travam a mesma batalha pela natureza. Os dois vídeos foram realizados no ano passado. O vídeo “Água água”, feito com o Filipe, tem por base 110 aguarelas de aves. O outro, produzido com o Alexandre, “Sainte-terrer”, dá as boas-vindas aos hominídeos sobrantes, que terão de salvar o que estamos a destruir.

 

Considera que as mudanças, rigorosas, na paisagem, a que assistimos hoje no Baixo Alentejo, podem alterar profundamente a relação do Homem local com a natureza e a sua própria identidade?
A identidade cultural do Baixo Alentejo foi alicerçada na relação do Homem com o trabalho e com a natureza, num tempo em que a região era classificada como a terra do pão. Hoje há um desencontro que deriva de vários fatores. A escala e a velocidade mudaram, mas também mudou a sofisticação dos engenhos, a resposta química, a flutuação de gente de várias culturas, usadas em contentores… Não se sente muito porque as memórias são fortes e recentes e têm reposto as falhas, mas elas não irão ser eternas. As tradições sedimentam-se em comunidade.Foi outra paisagem que esteve na base da cultura literária, visual e musical deste território, mas como está a mudar muito rapidamente, em três gerações tudo se perderá.

 

Continua o Alentejo a exercer uma “influência determinante” no seu trabalho?
Há uma influência determinante da gente, da cultura e da natureza. Nos finais dos anos Setenta e princípios de Oitenta, quando vivia em Beja, quase todas as pessoas com quem me dava faziam poesia ou, de alguma maneira, a ela estavam ligadas. Essa carga emocional que então envolvia a cidade contaminou o meu pensamento para sempre. Desde essa altura, há uma parte do meu trabalho que mergulha na poesia. Ter o trabalho circunscrito a esse mundo é como estar sempre a ir para um sítio longínquo, para o exílio. Mas quando de lá se regressa, há maior acuidade para com o que nos rodeia. O Alentejo fala-nos para dentro, alimenta-nos o poema, por vezes com perfis antigos, mas há sempre uma fala para o futuro. Recolho aqui o silêncio, na única região onde não me sinto nómada.

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